Fernando Pires é um sapateiro de mão cheia. E com um belo backbone financeiro: na sua vasta lista de clientes, estão as drag queens, transformistas, peruas endinheiradas e celebridades mais pop do Brasil. Impossível visualizar a apoteose do nosso Carnaval sem os seus saltos ornamentais, vertiginosos _com o acrílico sendo um dos elementos mais marcantes de sua produção artesanal. É tudo muito… uau!
Na passarela, contudo, esse preciosismo não foi apresentado com a pompa e glam que merecia. O primeiro modelo, uma plataforma que subia pela perna tomando o corpo todo da modelo e dando vida à uma roupa adesiva, prometia uma inteligência de moda. Mas, na sequência, essa vontade de arrasar foi suplantada pelo desfile-showroom de sapatos, plataformas, meia-patas, saltos finos, sandálias, botas e toda sorte de pisante com todo tipo de acabamento. Tinha píton, croco, disco dust (o último modelo desfilado era incrível!), acrílico, franjas… Como se Fernando não fosse um shoe designer, mas sim toda uma indústria de calçados _quando, na verdade, o valor de seu trabalho está em cada peça feita manualmente, com o cuidado de uma obra de arte.
Está claro que o inverno 2012 de Luiz Leite é uma continuação de seu verão 2012, apresentado em junho deste ano. Só que agora a coisa toda vem sem cores: o branco e o off-white dominam os looks masculinos que exalam a vontade do estilista de exercitar e desafiar os limites da alfaiataria.
Com proporções atualizadas e modelagem ousada (o que resultou em pequenos problemas de execução em algumas das peças), sua coleção é repleta de pequenos detalhes que querem fazer bonito: como os botões duplos nos sobretudos, as calças, bermudas e jaquetas com punhos de elástico e os volumes localizados, além de cortes inesperados que interrompem a roupa de uma jeito intrigante.
A escolha da tonalidade crua e monocromática ajudou e fez sentido na apresentação, mas também deixou um gostinho de “gostaríamos de ter visto isso tudo numa coordenação de cores vivas”.
É sempre apoteótico os desfiles da Miss Casa de Criadores, Walério Araújo. Vide o finale e tules para mais de metro. Mas para o inverno 2012, foi pensando nos concursos de beleza que o estilista mostrou uma de seus coleções mais comerciais, ao mesmo tempo que mais a sua cara _e não estamos nem falando dos vestidos fluo de pegada oitentista que fecham sua apresentação.
Pode parecer confuso ou algo paradoxal falar em apoteose e do melhor estilo Walério Araújo quando o que se vê na passarela (ou seria palco?) são vestidos de jérsei e elastano (um tipo de malha) drapeados. Quase toda em cinza e preto é com uma imensa vontade de sofisticação que trabalha seu inverno 2012. Das ilustrações de Etré e do legado de Madame Grés (se não conhece dá um Google para catar o fundamento) surgem vestidos longos meio anos 1920 e 1930, de formas lânguidas, drapeados, amarrações e uma sensualidade poderosa, nada óbvia. O que deixa tudo com a cara do estilista, além de serem inspirações constantes em seu trabalho, é a ironia da coisa toda.
Uma visão irônica sempre foi ponto forte e marcante dos trabalhos de Walério. E já faz alguns anos que o estilista vem trabalhando numa moda mais refinada ou menos exótica. Dessa vez, porém, sofisticação toda aparece não só nas roupas, mas também no olhar. E é aí que a coisa toda faz sentido, que o vestido vai de rico para #rycoh. À medida em que sai o nobre tafetá e entre o prático jérsei e o popular elastano (tecido não muito diferente daqueles encontrados aos montes nas grande magazines) e em que o drapeado vira amarração de origem S&M, Walério chama tudo de seu, dá uma boa risada, paga de bunita e samba bem na nossa cara.
Pode até ter faltado energia, drama e tudo mais. Mas pensando a longo prazo, em estruturação de marca e negócios… Walério arrasou.
“Estava pensando muito nos pontos em comum entre os trabalhos da artista plástica Louise Bourgeois e do ilustrador, fotógrafo e diretor de arte Jean-Paul Goude”, contou. “E no modo como ambos falavam do corpo, mas um de fora para dentro e outro de dentro para fora… E acho que estou nesse momento”.
De dentro para fora e de fora para dentro é o modo como Juss ao lado do stylist Felipe Fernandes, vai trabalhando essa coleção. De fora, formas estruturadas, com desenho simples afastam-se do corpo em proporções quase exageradas. De dentro (ou por baixo) florais tecidos mais leves e fluidos e uma modelagem soltinha, quase largada no corpo mesmo. E aí, num jogo de mostra e esconde, as duas partes vão se sobrepondo, se intercalando, se coordenando.
Nisso destacam-se os casacos de formas meio encaixotadas com estampa que parece bordado, as calças de alfaiataria modelagens supersolta e os tricôs alongados. Uma boa continuação _e evolução_ daquela moda simples, mas com detalhes espertos da coleção passada, porém agora um tanto apática. Se foi a migração do Projeto Lab para o line-up oficial da Casa de Criadores ou simplesmente por ser uma coleção de inverno, o fato é que Juliana Sousa estava evidentemente mais introspectiva em seu inverno 2012. Ou pelo menos mais séria. Ainda que com boas peças, a coleção se mostra algo sem vida, sem energia. Características que davam ânimo e força para moda masculina inteligente da Juss.
Acompanhe aqui toda a cobertura da 30ª Casa de Criadores
Veja aqui no site a cobertura completa de todos os desfiles que estão rolando na 30ª Casa de Criadores, que acontece entre os dias 12 e 14 de dezembro no cine Jóia, em São Paulo.
Estarão postando diariamente a equipe da revista U-MAG, que terá autonomia e liberdade total para criticar todos os desfiles, o fotógrafo Felipe Abe, o jornalista Beto Siqueira, o fotógrafo Marcelo Soubhia e a equipe Casa de Criadores.
Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que Ale Brito é a mais nova estrela da Casa de Criadores, seu inverno 2012 serve para eliminar qualquer questionamento a respeito. Olhando para o minimalismo do fim dos anos 1990 e começo dos 2000, Ale injeta sua atitude rocker a tal estética aventurando-se por outras áreas que não aquela por qual já é bem conhecido _a das jaquetas. Mostra-se, assim, um estilista muito mais completo, com voz própria, menos preocupado em reinventar a roda da moda ou se adequar às últimas tendências do que criar um universo para chamar de seu, com forte apelo imagético e ligação direta com seus consumidores.
As jaquetas continuam importantes, porém menos onipresentes. Metalizadas, com recortes, em flertes sensuais com a alfaiataria ou em neoprene com formas alongas de design limpo, bem de acordo com a vontade minimalista da coleção. Só não chegam a perfeição por um desejo desnecessário em marcar os ombros da peça. Muito marcados ou com execução algo problemática, prejudicam a proporção e silhueta final.
Agora, quem chega chegando, ou melhor, brilhando são suas calças de couro. Superjustas e extremamente sexy, provocam pequenos surtos de desejo imediato com seus acabamentos metalizados em roxo, turquesa e prata, cintura alta e barra levemente dobrada. Para arrematar o look, blusas estruturadas no mesmo material ou então, camisetas justinhas enroladas até acima do umbigo _ao mesmo tempo super 90’s e atual.
É com essa força de uma imagem simples, porém cheia de energia e tensão sexual que a coleção ganha força. Boa parte disso é mérito do styling afiado da novata, mas já promissora, Marcela Jacobina. Numa parceria acertada, Ale e Marcela conseguem não só criar imagens poderosas na passarela, mas inserir a coleção num contexto de moda atual, dando relevância e criando desejo. Afinal, não é todo dia que nos vemos desesperados por uma simples combinação de calça skinny + blazer metalizado ou calça prateada + top de algodão.
Agora, só falta Ale começar a exercitar todo esse potencial numa busca um pouco mais intensa por uma identidade realmente marcante e uma expressão de moda mais autoral e exclusivamente sua. Algo que faça sua moda brilhar _ainda mais_ num mercado saturado de propostas e com overdose de produtos homogeneizados .
Gabriela Sakate sempre foi meio que o patinho feio do Projeto Lab _espaço que, como o próprio nome indica, deveria funcionar como um laboratório para coleções experimentais. Adepta de um visual simples, estética limpa, a estilista sempre pareceu meio que deslocada no line-up do evento. Porém, para o inverno 2012, Gabriela mostra-se mais relevante criativamente e também como integrante desse pequeno laboratório de criação. Alinhada ao atual cansaço da moda em relação aos excessos, sua coleção ganha força ao apostar numa silhueta limpa, formas uras e inteligente escolha e manuseio de tecidos _ainda com uma imagem de moda bastante interessante.
Com uma coleção toda trabalhada na geometria, Gabriela vai a fundo na sua busca por simplicidade _agora de um jeito quase modernista no modo de lidar com as formas e silhuetas. Elimina quase todo e qualquer excesso ou detalhe desnecessário, reservando esses para pequenas peças de metais dourados, zíperes ou então as espécies de capas plastificadas (lembrando placas de cobre) _uma boa sacada do stylist Felipe Fernandes para reforçar a imagem na passarela. Dessa vontade de sofisticação minimalista-geométrica sobressaem alguns casacos de lã dublada com suas formas bem definidas, o vestido preto todo retinhos e com o interior das mangas longas em tule, e a blusa quadradinha com frente de algodão texturizado e costas de crepe pregueado.
Porém, o visualmente simples é tecnicamente complexo e, assim, muitas das peças de Gabriela pecam pela modelagem problemática e caimento impreciso. O que poderia ser um incrível casaco em termos de design, deixa a desejar por pequenas falhas que podiam ser corrigidas houvesse ali um maior apuro técnico, ou parceria e reforço de equipe mais capacitada. Tudo bem que a marca econtra-se ainda em fase embrionário, mas se essa é realmente sua vocação e identidade vale aqui, então, um investimento maior nesse sentido. Afinal, boas ideias Sakate já mostrou ter.