Um estudioso dos temas e sete livros que provam que a moda bebe da literatura, e vice-versa!

Até que ponto a literatura pode nos ensinar sobre moda? E vice-versa? Essas perguntas inspiraram esta matéria, e para isso contamos com a super colaboração de Brunno Almeida Maia, idealizador do projeto “A Literatura e a Moda”, que investiga os diálogos entre a Moda, a Literatura, a Filosofia e a Arte. Ele ministra cursos, workshops e palestras desde 2012 em espaços culturais como Oficina Cultural Oswald de Andrade, Oficina Cultural Casa Mário de Andrade, Escola São Paulo, Biblioteca Mário de Andrade, Galeria AMDO, em Belo Horizonte (MG), Oficina Cultural Hilda Hilst, em Campinas (SP), Casa da Palavra Mário Quintana, em Santo André (SP), Sesc Consolação, e CPF – Centro de Pesquisa e Formação Sesc SP. “O projeto, que começou ao lado do estilista brasileiro Walter Rodrigues, e do chapeleiro Eduardo Laurino, rendeu o convite para que eu integrasse o quadro de docentes do Senac Lapa Faustolo”, diz ele.  Brunno também participou dos projetos #ForadaModa, com curadoria do estilista brasileiro Fause Haten, no Sesc Ipiranga, e do Pano pra Manga, no Sesc Pompéia. Como escritor, é autor dos livros “O Teatro de Brunno Almeida Maia”, (Ed. Giostri, 2014), “Moda Vestimenta Corpo” (Ed. Estação das Letras e Cores, 2015), no qual assina um capítulo sobre a relação entre a Literatura e a Moda, no contexto do Brasil do Segundo Império, a partir do romance “Lucíola” (1862), de José de Alencar. Abaixo, sete livros para quem quer entender a moda de um ponto de vista mais aprofundado. Diga lá, Bruno!

Moda e Literatura

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GILDA DE MELLO E SOUZA. O espírito das roupas – A moda do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
Grande pesquisadora em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP), atuante no campo político ao lado do companheiro Antonio Cândido, Gilda de Mello e Souza é uma autora atemporal, seja pela análise da relação entre a literatura machadiana e alencariana e as roupas no século XIX, ou pelo ineditismo de sua pesquisa, tema pouco explorado, ao relacionar as roupas e as palavras. Numa belíssima passagem, a autora conceitua, para um projeto existencial de busca de identidade, o que ela intitula de “caligrafia dos gestos”. Como podemos transformar as nossas vidas – a essência e a aparência, sem divisões – numa obra de arte? Destaque para o capítulo O Mito da Gata Borralheira, no qual a festa na Corte aparece como um espaço de estado de exceção, sem divisões entre classes, etnias, raças, profissões e gêneros.

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VIRGINIA WOOLF. Orlando – uma biografia. Trad. Cecília Meireles. São Paulo: Ediouro – Sinergia, 2003.
O romance Orlando – uma biografia (1928), da escritora inglesa Virginia Woolf (imagem acima, uma obra de Vanessa Bell), mostra aquilo que eu chamo, em minha pesquisa, de “corte epistemológico no guarda roupa”. Significa dizer que, ao narrar a vida de um jovem inglês que nasce em 1500, e atravessa 450 anos, chegando até o século XX, Virginia entrecruza o romance com um dado histórico importante na história da moda. Por volta do século XVIII, Orlando, em sua estadia na Turquia – país das túnicas indistintas para os sexos – simplesmente acorda mulher. Neste mesmo período, na passagem do Ancien Régime para a Revolução Francesa, há todo um declínio da indiferenciação dos gêneros no vestir. Se pensarmos nas roupas das Cortes, temos sutis diferenças entre o que é do “masculino” e o que é do “feminino”. É só com a ascensão da classe burguesa, que se emancipa durante a Revolução, que vamos assistir ao “corte epistemológico no guarda roupa”. Daí em diante, a roupa da “mulher” pouco se modifica estruturalmente, e a do homem, esta sim se sobressai e “evolui”, numa espécie de contraponto.

Pensar a moda a partir da Filosofia

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GIORGIO AGAMBEN. O que é o contemporâneo e ouros ensaios. Trad. Vinicius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.
Filósofo italiano – foi ator dos filmes do Pasolini – filiado aos pensamentos de Hannah Arendt e Michel Foucault, Agamben, no texto homônimo do livro, nos proporciona uma dimensão, a partir da percepção do Tempo, do que é o contemporâneo. Partindo de Nietzsche, e da afirmação de que o contemporâneo é o intempestivo, o filósofo utiliza-se das contradições da Moda para explicar um fenômeno que é capaz de colocar o homem em uma posição para além do tempo ordinário do relógio, pois a Moda, afirma ele: possui um tempo inapreensível. Afirmar neste instante que ―estou na moda‖ é contraditório, uma vez que em sua rapidez – como a morte – o sujeito já não está. Para ele, esta imagem traduz o contemporâneo.

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GEORG SIMMEL. Filosofia da Moda e outros escritos. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2008.
Intelectual judeu do século XX, Simmel pertenceu, ao lado de um Max Weber e Ferdinand Tönnies, à importante tradição da sociologia alemã. O livro, que só existe na tradução do português de Portugal, possui três belíssimos ensaios, para se pensar a relação entre a Moda e a Modernidade (século XIX): “Filosofia da Moda”, “Psicologia dos Adornos” e “Psicologia da coqueteria”, todos publicados entre 1905 a 1909. Indispensável para a reflexão sobre o significado de indivíduo e sociedade, a questão da individualidade, e das relações sociais regidas pelas instituições, no qual a Moda, para Simmel, é um fenômeno cultural, que traduz, na sua forma, a nova dinâmica de um tempo chamado Modernidade.

Moda e Arte

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ISABELLE DE BORCHGRAVE. RITA BROWN. Papiers à la mode. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
O Brasil recebeu a exposição da artista plástica belga Isabelle de Borchgrave, na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em 2008. Interessa-me, sobretudo, no trabalho de Borchgrave, a técnica que refaz roupas de época em papéis, como um exemplo poético do conceito que chamo de dobra do tempo. Ao retrabalhar modelos de distantes séculos num material frágil, fugidio e atemporal, Isabelle opera nas dialéticas entre o eterno e o transitório, o luxo e o banal.

Moda e Memória

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PETER STALLYBRASS. O casaco de Marx – roupas, memória, dor. Trad. Tadeu de Tomaz. – 3. ed. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.
No capítulo A Mercadoria d´O Capital – Vol I, Karl Marx inicia a reflexão sobre o funcionamento do capitalismo no século XIX a partir de uma análise da confecção de um casaco. Poucos sabem, mas este era o casaco que Marx usava para realizar suas pesquisas sobre economia política na Biblioteca de Londres. Como são dos paradoxos que nascem as grandes ideias, neste período, o filósofo alemão atravessava uma difícil situação financeira. Para sobreviver à gélida temperatura de Londres, e não perder o único casaco que possuía, Marx penhorava-o e pegava-o no dia seguinte: um dia ele ficava em casa, noutro, às duras penas, escrevia. Peter Stallybrass transforma este acontecimento numa análise fenomenológica da roupa, colocando-a não como mera mercadoria, mas devolvendo-lhe a afetividade, a memória. A roupa, neste belo ensaio, transforma-se, como nas madeleines e no chá de tília em Proust, em espaços de lembranças, reminiscências e linhas de costura entre o fugidio presente e a inevitável volta ao passado, para entendimento da impermanência na condição humana.

Moda e Corpo

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KATHIA CASTILHO. Moda e Linguagem. 2ª edição. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2009.
Brilhante tese de doutoramento da Professora Kathia Castilho, que, numa espécie de genealogia da relação entre corpo e moda como linguagens, a partir da Semiótica, mostra em como a Moda “generificou” os corpos, subjetivando-os com formas ditas “masculinas” e “femininas”. Relevante para se pensar, nestes tempos de Moda Agender, o corpo como histórico e a moda como uma “instituição não instituída”.

 

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