Jackson Araujo: “uma nova possibilidade para a moda é pensar no coletivo”. Confira a entrevista!

 

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Vamos falar de moda? Vamos com Jackson Araujo, o editor de revistas e jornalista que ajudou a dar caldo à coluna “Noite Ilustrada” nos anos 90? O agora consultor de moda, que pesquisa a fundo o tema e que conhece bastante do assunto, responde perguntas que tentam nos mostrar novos caminhos, sem nos perder do passado, do coletivo e de nossas próprias identidades.

Casa de Criadores – Na sua opinião, o que é estar na moda hoje em dia?
Jackson Araujo – Viver sua personalidade e identidade. Num mundo infestado de caretice e followers do estilo alheio, acredito que uma nova possibilidade para a moda é pensar no coletivo e ela só será construída quando cada um for cada um e o velho conceito de grupo social vença a superficialidade da rede social.

Casa de Criadores – Como o Brasil está se posicionando neste momento no cenário da moda mundial?
Jackson Araujo – São tantas questões urgentes envolvendo o país que chega a ser surreal pensar na moda enquanto posicionamento, mas acredito que novas e boas marcas estão reagindo bem aos profundos questionamentos que estão sendo feitos na moda mundial, tendo a circularidade, a horizontalidade, o upcycling e a transparência nos processos produtivos como fio condutor de uma evolução que se faz urgente, com total foco no socioambiental.

Casa de Criadores – Na sua opinião, como ainda podemos nos fazer respeitados nesse novo cenário mundial?
Jackson Araujo – A criatividade prossegue sendo a melhor forma de se manter relevante no competitivo cenário mundial em qualquer setor do mercado. Talvez seja necessário mais uma vez profunda investigação sobre identidade e encontrar nesses questionamentos uma lacuna que só pode ser preenchida pelo jeito brasileiro de contar histórias únicas e próprias. E, claro, todas as questões legais relativas a impostos, exportação etc prosseguem na pauta. Importante ainda reconhecer que a atual postura política global de rejeição ao que vem de fora e seus retrocessos sobre fronteiras e exílios se fortalece como uma grande barreira para essa expansão competitiva. Gosto especialmente de pensar que ainda precisamos ser relevantes no país continental que somos e expandir a nossa moda para a América Latina, algo que nunca foi realizado com efeito.

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Casa de Criadores – Como as redes sociais e os apps estão revolucionando a moda no mundo?
Jackson Araujo – Vivemos num mundo em que o faça-você-mesmo abriu espaço para o faça-com-os-outros e faça-para-os-outros. Esse é um ponto de partida essencial para entendermos essa nova prática que chamo de Economia Afetiva. O foco antes era a produção, o crescimento econômico e o acúmulo do patrimônio. Agora a palavra é sintonia: as pessoas acentuam o sentimento, as vibrações espirituais e artísticas. Nesse cenário, a prática do ganha-ganha se fortalece, uma estratégia de resolução de conflitos em que todos os participantes podem se beneficiar de alguma forma. Ela foca na importância da cooperação e compartilhamento a fim do sucesso do grupo, em contraste com a dominação, o egoísmo e o ganho pessoal. As estruturas tradicionais do consumo começam a entrar nessa nova era, em que ações de financiamento coletivo levam os criativos a alcançarem metas rapidamente via Catarse, por exemplo. No Brasil, gosto de citar o case da Fia {Oficina de Artesãs}, projeto criado com o apoio da designer Celina Hissa, fundadora da marca Catarina Mina, e da publicitária Lívia Salomoni, que surgiu após ultrapassar a meta de seu financiamento coletivo e faturar cerca de 40 mil reais em um mês de campanha, criando uma ponte entre grupos de artesãs do Ceará e consumidores de todo o Brasil. Em pouco menos de dois anos de trabalho já alcançou sucesso na sua missão de empoderamento feminino em prol do desenvolvimento dessas comunidades produtivas, propondo o repensar do consumo, colocando o ser humano no centro do processo e tornando toda a cadeia mais próxima e transparente.

Casa de Criadores – Ainda há espaço pro formato tradicional de desfile + campanha? Quais as alternativas?
Jackson Araujo – Os formatos tradicionais tendem cada vez mais a serem pensados para a geração de resultados imagéticos de fácil disseminação nas redes. Seja desfile ou campanha. A internet, desde 2008, vem construindo um legado focado na imagem em movimento, fortalecendo o papel dos apps e sites de vídeo, confirmando a importância dos fashionfilmes como plataformas ideais para a criação de uma rede de seguidores e consumidores. O importante é encontrar propósitos relevantes para as marcas sem sintonia com esse novo mundo que se desenha, cada vez mais atento à atemporalidade das roupas em detrimento da descartabilidade.

Casa de Criadores – E o underground? Estaria ele renascendo em outros cenários artísticos, como teatro, carnaval e artes plásticas?
Jackson Araujo – Tenho defendido muito a ideia de que o novo underground na moda está relacionado à essa produção independente de marcas e coletivos criativos que atuam na construção de um mercado e de um Brasil mais inclusivo, plural, multicultural e que faz uso do que gosto de chamar de Jiu-Jitsu Cultural, transformando uma fraqueza em estratégia de ataque e vitória. É preciso ocupar todos os espaços utópicos com as nossas incertezas.

Sobre JACKSON ARAUJO 
Comunicólogo especializado em Análise de Comportamento e Tendências de Consumo de Moda, mídia e Comunicação. atua como Consultor Criativo e de Conteúdo, prestando consultoria para empresas e grandes grupos desses segmentos. É pesquisador e estudioso de movimentos e expressões ligados à Economia Afetiva, termo que cunhou em 2014 sobre uma nova perspectiva de mercado pautada na valorização e desenvolvimento do coletivo, para o desenho de produtos inovadores e disruptivos. Ministra palestras, workshops e dirige projetos sobre o tema. Desde 2014, atua como Consultor Criativo do Senai Brasil Fashion, plataforma de valorização da criatividade junto ao ensino profissional de moda, fazendo parte do time WGSN/Mindset, ao lado de Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura, Ronaldo Fraga e Lenny Niemeyer.

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