A Moda Brasileira 20 Anos depois. Rebobinando histórias por André Hidalgo!

Este ano, a Casa de Criadores completa 20 anos. Nem preciso dizer quantas memórias essa data me traz, quantos profissionais já passaram pelo evento, quantos estilistas já lançamos, quantas histórias deliciosas, engraçadas e até dramáticas temos para contar… e o merecido balanço sobre tudo isso irei publicar em breve.

Mas não é disso que quero falar agora. Quero falar do quanto percebi, com um olhar privilegiado por estar dentro dessa engrenagem e ser um de seus personagens, a mudança no mercado e na moda brasileira durante esse (curto) espaço de tempo.

Quando começamos a fazer a Casa de Criadores, lá em 1997, o mercado estava começando a dar uma espécie de “grito de independência” contra a cultura da cópia então reinante na moda brasileira -e que já não funcionava mais no dinâmico mundo dos anos 90. Com o advento das faculdades de moda, toda uma nova geração de criadores surgia preparada com técnica e, o mais incrível, com novas ideias e propostas inventivas. Em suma: jovens querendo se expressar através da moda.

Era o estopim que faltava. Logo surgiram eventos como o Phytoervas Fashion, Morumbi Fashion (atual SPFW) e a Casa de Criadores. Claro que com esse boom de ideias e eventos que promoviam sua divulgação, esses estilistas cresceram e apareceram. E o mercado rapidamente os acolheu, porque também já estava pronto para isso. Essa lua de mel foi incrível, mas logo a realidade mostrou que -para esse casamento dar certo- precisaria promover  (re) ajustes. Os jovens criadores, na ânsia de mostrar seu trabalho, negligenciavam todo o processo de manutenção e consolidação de suas marcas. Com estruturas pequenas, não era raro vermos estilistas que também tocavam suas empresas -e de forma bem caseira. Esse formato se mostrou, ao longo dos anos, uma bomba relógio: alguns criadores extremamente talentosos não conseguiram manter suas marcas e, infelizmente, tiveram que fechar as portas.

Foi nesse momento que percebemos que o evento não poderia ser apenas uma vitrine. Teríamos que avançar. Se não começassemos a nos aprofundar na estrutura do negócio, não estaríamos cumprindo nosso papel. Passamos então, a nos debruçar sobre a realidade de cada marca. Sabatinamos nossos criadores sobre todo o processo: número de peças produzidas e efetivamente vendidas, quantidade de pontos de venda, quantos funcionários tinham etc. Isso nos deu uma visão bastante ampla sobre a realidade de cada um e uma visão mais global do universo da criação, especialmente na moda brasileira.

Munidos desses dados, reprogramamos as funções do evento, passando a dar uma espécie de consultoria para cada marca, indicando e apontando erros, caminhos e soluções. Nesse processo, a entrada da agência M360 para o time da Casa de Criadores foi fundamental. Seu mentor, o português Mario Viana, trouxe todo seu know-how de profundo conhecedor de mercado da moda e passou a dividir isso conosco. E aprendemos muito com ele. Aliás, esse processo tem sido uma constante, já que passamos a dar palestras e workshops internos para nossos estilistas totalmente focados em negócios de moda. O sucesso foi tanto, que ampliamos esse conceito e abrimos para o público, passando a promover regularmente esse workshop (saiba mais aqui).

O mercado de moda, por mais que esteja sofrendo com a crise que atingiu todos os setores da economia, tem encontrado soluções criativas, especialmente através de parcerias colaborativas entre estilistas e grandes marcas. Temos feito um grande exercício para buscar soluções e essa troca tem sido muito proveitosa entre nosso time, tanto que a cada edição o evento cresce mais, especialmente na qualidade das coleções apresentadas.

Enquanto isso, o mundo já discute os efeitos da quarta revolução industrial na moda. Um novo universo se descortina para as novas gerações de estilistas que estão por vir: a cada vez mais voraz, rápida e dinâmica internet, as novas matérias primas, as roupas 3D… Nunca os jovens criadores tiveram tantas possibilidades de divulgação de seus trabalhos de maneira assertiva e uma comunicação imediata com seu público alvo. Aliás, nunca foi tão fácil atingir esse público alvo.

Tanta mudança em tão pouco tempo tem feito com que a moda, mais uma vez, tenha que se repensar e mudar, palavra bastante adequada e familiar à quem trabalha nesse segmento.

Chegar aos 20 anos não foi fácil, e eu sempre soube que não seria. Mas fico feliz em ver que estamos aqui e fincamos bem fundo nossa bandeira. Aguardem novidades, porque a gente não para!

André Hidalgo

 

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