Rafaella Caniello, que une moda e filosofia, fala sobre processo criativo e sua estreia no Projeto Lab

Foram 20 estilistas e marcas pré-selecionados para concorrer a três novas vagas no Projeto Lab, que acontece na 41ª Casa de Criadores em abril. Os trabalhos inscritos foram selecionados através da Plataforma BeYou, em um processo inédito totalmente online, e passaram pelo crivo de uma comissão técnica formada por diversos profissionais do meio de moda. O júri foi presidido pelo diretor artístico da Casa de Criadores, o jornalista André Hidalgo (leia entrevista com ele), e os vencedores desfilam suas coleções verão 2018. A banca avaliadora foi formada também por Camila Yahn (FFW), Chiara Gadaleta (stylist), Daniel Ueda (stylist), Eduardo Viveiros (Chic), Evilásio Miranda (consultor), Jorge Wakabara (Lilian Pacce), Juliana Jabour (estilista), Maria Prata (jornalista), Patricia Bonaldi (estilista), Rafael Varandas (Cotton Project), Silvia Rogai (Vogue), Susana Barbosa (Elle), Taciana Veloso (Index assessoria) e Thiago Ferraz (stylist). Pois bem: os três selecionados, que entram para o line-up da Casa de Criadores, são Diego Malicheski, Rafael Schneider (Senplo) e Rafaella Caniello. Abaixo, o segundo dos três perfis. Fala, Rafaella Caniello!

Casa de Criadores – Quem é Rafaella Caniello?
Rafaella Caniello – “Nasci em Sorocaba, no interior de São Paulo. Sempre fui apaixonada pela escrita e pela filosofia, mas quando me deparei com o curso de Moda da Santa Marcelina, não tive dúvidas de que seria meu caminho. Acho que o estímulo da criatividade é essencial para qualquer escolha profissional. Cheguei na cidade de São Paulo com 17 anos e me dediquei inteiramente à faculdade – me formei no ano passado. Tive experiências profissionais incríveis na Neon, na UMA – onde tive oportunidade de aprender com a incrível Raquel Davidowicz, que me fez acreditar muito mais no meu trabalho – e na revista Harper’s Bazaar, onde conheci vários profissionais incríveis com olhares únicos. E hoje trabalho como assistente da Emannuelle Junqueira, uma das pessoas mais sensíveis que já conheci. Ela me faz acreditar numa moda que eu realmente amo. Todos esses lugares fizeram e fazem o meu trabalho hoje – que ainda é muito iniciante – mas é muito real. É extremamente verdadeiro e intenso para mim. É fruto de todos os meus erros durante a faculdade, todas as minhas experiências e tudo que aprendi. Acho que só me encontrei na criação quando passei a unir a filosofia e as coisas que amo com as coisas que faço. Sabe, não devem ser coisas separadas. O que você cria é uma imagem do que você viveu, do que você pensa e do que você acredita. Ainda tenho muito o que aprender, mas estou muito feliz e realizada com o começo de tudo.”

Casa de Criadores – Conte um pouco sobre o projeto que criou para concorrer a uma vaga no Projeto LAB.
Rafaella Caniello – “O ano de 2016 foi meu ano de formatura. Portanto, decidi unir meu TCC ao projeto LAB. Queria fazer algo que refletisse tudo que acredito e tudo que amo, então obviamente meu tema foi voltado à filosofia. Utilizei como base a obra de Arthur Schopenhauer, ‘O mundo como vontade e representação’, em que ele defende a existência de um caráter próprio de todas as coisas do mundo. Uma ‘vontade’ contida em todos os seres e materiais. É como se o ser humano não fosse superior, mas parte de um todo onde tudo se completa, e todas as coisas têm suas particularidades. A partir dessa filosofia fiz uma pesquisa sobre a ‘Land Art’, o trabalho do fotógrafo Karl Blossfeldt e também mergulhei na cultura japonesa. Meus trabalhos sempre tiveram muitas inspirações orientais, é uma cultura que me deixa fascinada. Para o desenvolvimento da coleção fiz algumas parcerias com artistas incríveis. A primeira delas foi a designer de tricôs Susana Fernandez. Conheci a Susana quando fiz um workshop no ateliê da estilista Flávia Aranha – é graças a Flávia que aprendi a técnica de impressão botânica, que também aparece na coleção. Fiquei apaixonada pelo olhar poético que a Susana tem sobre a matéria, e também pela história dela. Assim, pedi que ela contribuísse com a minha coleção com um pouco desse olhar, e juntas desenvolvemos 4 peças de tricô. O trabalho dela é lindo e feito todo manualmente. Como muito da pesquisa também tem a ver com o contato material, a cerâmica tornou-se simbologia principal. Tive a experiência de produzir algumas peças/acessórios com a ceramista Sara Carone, com quem tenho aulas desde então. Também fiz uma parceria com a empresa JRJ tecidos, que faz um trabalho incrível reciclando lonas de caminhão e transformando-as de modo a preservar suas falhas, rasgos e manchas – o que tem tudo a ver com o que quero transmitir na minha coleção: no mundo tudo tem histórias. E a beleza da moda é justamente contar um pouco delas.”

Casa de Criadores – Na sua opinião, qual a importância de entrar na Casa de Criadores?
Rafaella Caniello – “A Casa de Criadores é uma plataforma que sempre admirei muito. Desde que cheguei a São Paulo acompanho todas as temporadas de perto, e esperava ansiosamente por uma oportunidade de estar envolvida. Acho que representa uma resistência, uma elevação à moda criativa, nova e independente. O que o André Hidalgo faz é algo muito único. Ele dá oportunidade para pessoas que não teriam outros meios de serem vistas. Ele valoriza o talento independente da origem. Isso é o que me emociona no fazer das roupas, isso me faz acreditar numa moda de verdade e mais democrática. Acho que minha maior emoção até hoje foi ser selecionada para entrar nesse time por uma temporada. Uma verdadeira honra, sou eternamente grata.”

Casa de Criadores – O que pretendem apresentar no evento?
Rafaella Caniello – “Acho que nunca pensei em um estilo a ser seguido ou uma determinada estética… isso acaba sendo quase que natural. É um reflexo da personalidade daquele que faz. Procuro me envolver profundamente em tudo que faço, e se é bom ou ruim, só posso dizer que é real. Eu vivo cada etapa dos processos porque amo isso. Amo até os erros porque eles indicam novas possibilidades e impedem o lugar comum. Sobre a coleção, gosto muito de contrastes. Nunca crio algo pensando na estação, para ser sincera. Sou apaixonada por casacos porque eles impõem algo que me emociona, uma espécie de abrigo ou proteção. Eu crio as coisas pensando no que quero que as pessoas sintam quando vêm a roupa. Então envolvo muito da psicologia e da gradação das cores, assim como os contrastes de formas fluidas e estruturadas. A base de tudo é a textura: procuro deixar que o material indique o caminho.”

nota-casa

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