#CasadeCriadores20anos! Weider Silveiro relembra seus 12 anos de evento com muitas histórias de moda

O Site da Casa segue homenageando os 20 anos da Casa de Criadores e, após esta 41ª edição, os estilistas Rober Dognani e Weider Silveiro foram entrevistados sobre seus mais de 10 anos de participação no evento e como ela reflete as mudanças na moda brasileira nesses últimos anos. Com texto de Bruno Mendonça, colaborador da Fort Magazine, e fotos de Gleeson Paulino. Com vocês neste post… Weider Silveiro!

Bruno Mendonça – Weider, neste retrospecto de 12 anos de Casa de Criadores, o que você acha que mudou no evento?

Weider Silveiro – “Eu entrei no evento num momento em que ele estava bem enxuto, depois deu uma inchada de novo e depois o André Hidalgo deu uma cortada novamente… O que foi bom. Não quero entrar em questões conceituais no sentido de padrão de qualidade porque isso é muito subjetivo, mas acho que agora chegamos ao momento mais maduro da Casa de Criadores. Acho que o line-up é bem heterogêneo e tem espaço para todo mundo, para os mais maduros, os em meio de carreira e os mais jovens. O que acho que voltou a ser interessante é que temos uma demanda menor novamente com a questão da venda. Essa demanda comercial uma época chegou a ser até de certa forma malvada e vinha de uma pressão externa, dos jornalistas, dos produtores, da indústria… O André teve que lidar muito com essa pressão num determinado momento. Era como se quem não vendesse não existisse. É engraçado isso, pois o Brasil quase nunca teve uma cultura de moda e sim uma cultura de roupa, que são coisas diferentes, então essa cobrança não fazia sentido muitas vezes principalmente naquele contexto do evento que estava interessado em criar cultura de moda! É necessária a venda? Obviamente, todo mundo precisa de grana, mas eu não preciso virar um case, um case de sucesso de venda, posso tomar outros caminhos… Ainda existe uma cobrança de certa forma, mas acho que é mais em termos de profissionalização digamos assim, mas o mercado mudou, assim como a forma de consumo, não existe mais aquela loucura de vender por vender, que era ligada a cultura de roupa e não a uma cultura de moda, como eu disse. O Brasil demorou a entender isso.”

Imagem do editorial "Sweet Child O Mine" realizado especialmente para a 41ª edição da Casa de Criadores 20 anos, com styling Thiago Ferraz, fotos de Gleeson Paulino e look Weider Silveiro

Imagem do editorial “Sweet Child O Mine” realizado especialmente para a 41ª edição da Casa de Criadores 20 anos, com styling Thiago Ferraz, fotos de Gleeson Paulino e look Weider Silveiro

BM – Eu concordo plenamente. Acho que essas mudanças nas formas de consumo começaram por aqui mais a partir dos anos 2000 e isso tem a ver com todas as mudanças econômicas e políticas que sofremos nas últimas décadas… O Brasil teve esse momento de querer se tornar uma potência, não quero entrar num nível politico da conversa, mas agora depois de tudo o que aconteceu nestes últimos anos parece que tem uma consciência maior, menos histeria e um olhar mais para dentro, pois por muito tempo ficamos olhamos para fora principalmente no que diz respeito a um estilo de consumo.

WS – “É, acho que hoje os processos estão mais colaborativos, mudou-se também isso que comentei sobre a cultura de moda… Mas acho que a Casa de Criadores ainda resistiu bastante a essas questões… Enfim, acho que ela se manteve durante esse tempo todo também muito fresh e vem daí o interesse não só da própria mídia, mas do público de arte, música etc., que sempre se interessaram pelo evento, pois acho que ela é esse lugar onde as coisas se cruzam também, tem um interesse pelo jovem, pelo novo, isso é a essência do evento, essa busca pelo novo, mas não o novo pelo novo, pois isso é muito discutível, mas por algo diferente, algo a acrescentar. Sou suspeito pra falar sobre o evento neste sentido, pois me lembro da primeira vez que vi algo sobre a Casa de Criadores, foi em 1997 em um programa da MTV e aquilo me marcou muito, aquele registro, pois para mim era muito corajoso, a coisa do show, da performance e me influenciou muito e era bem na época que eu estava entrando na faculdade, numa formação de moda…”

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Imagem do editorial “Sweet Child O Mine” realizado especialmente para a 41ª edição da Casa de Criadores 20 anos, com styling Thiago Ferraz, fotos de Gleeson Paulino e look Weider Silveiro

BM – É interessante esse retrospecto e você falar sobre a influência que o evento teve bem no seu momento de formação, pois se pensarmos que o evento tem 20 anos – a expansão e o desenvolvimento dos cursos de Moda no Brasil também aconteceu neste recorte de tempo. Não havia muitas graduações em Moda e vimos isso ao longo desses 20 anos também. Além disso, o evento sempre manteve essa relação com as universidades, os cursos etc.”

WS – De fato, tudo está ligado. E, sim, acho que essa coisa fresh se dá muito por conta isso, dessa relação com os estudantes, os jovens etc. e também porque o André sempre negociou muito com os patrocinadores, mudando muitas vezes de patrocinador, para que o evento não ficasse engessado. Além da coisa de ser itinerante, de ativar diversos lugares de formas diferentes, enfim, mil coisas. Mas tudo isso se deve ao André, pois ele é impressionante neste sentido, tem uma coisa de luta mesmo.”

Imagem do editorial "Sweet Child O Mine" realizado especialmente para a 41ª edição da Casa de Criadores 20 anos, com styling Thiago Ferraz, fotos de Gleeson Paulino e look Weider Silveiro

Imagem do editorial “Sweet Child O Mine” realizado especialmente para a 41ª edição da Casa de Criadores 20 anos, com styling Thiago Ferraz, fotos de Gleeson Paulino e look Weider Silveiro

BM – Dentro de todas essas questões como o evento influenciou o seu processo de criação justamente por ser este ambiente mais experimental, fresco?

WS – “Sempre me senti mais confortável neste ambiente, pois não tinha estrutura nenhuma, agora tenho um pouco, mas não muita, então o evento dava conta do meu formato de produção. E no evento você podia errar e arriscar. Acho que é muito como a vida sabe? É muito verdadeiro, pois na vida as coisas fogem ao nosso controle… Embora hoje eu não me permita mais a certas coisas, pois a minha marca acabou se profissionalizando, eu acho que ainda é o espaço para isso. É óbvio que o ideal seria sempre ter o balé harmônico, mas nem sempre é possível.”

BM – Como falamos antes, mudou muito a relação da nova geração com a ideia de produto, houve essa mudança no consumo, neste sentido hoje a roupa é mais um dispositivo de uma narrativa, de um statement, de uma plataforma artística, do que necessariamente produto. Talvez esta imagem do estilista tenha mudado e hoje talvez tenhamos menos estilistas e mais artistas multimídia, criadores de imagem, agentes culturais… Como você vê isso?

WS – “Acho muito natural e sou apaixonado por tudo isso… Eu ainda sou um pouco da velha guarda, um pouco antigo, pois vejo a moda como um ofício, mesmo não sendo extremamente bom em costura, num sentido mais convencional. Eu adoro modelar, eu modelo bem, mas fiz questão em saber de todos os processos técnicos para melhorar minha criação, pois saber tecnicamente todos esses processos te ajuda inclusive em saber demandar… Enfim, e amo desenho e para mim tudo começa aí. Mas é isso saber cada ponto faz a diferença mesmo que você não o faça – isso se você quer fazer roupas. Me permito a exercícios novos como é visível, porém eu ainda sou daquele pensamento de que para desconstruir você precisa saber construir, então eu tenho essa preocupação e sei que essa galera nova não tem – o que não é um problema! Vejo isso como um reflexo, um sintoma do nosso tempo. Acho que eles dão uma resposta a tudo que é produzido em escala, é outra relação com toda uma ideia de produto, do que é produto, como corpo, beleza, sexo, etc… Nisso é interessante esse descompromisso técnico se olharmos por esse lado.”

BM – Sim! E a Casa de Criadores acabou se colocando como um grande megafone para esta nova geração. Dessa forma como você vê a diferença da sua geração naquele momento do evento para agora que temos outra relação da moda com política.

WS – “Concordo com isso, de que o evento se tornou uma plataforma de expressão neste sentido . É muito diferente mesmo da minha época! E acho muito melhor! Adoro ver esse engajamento politico… O Isaac Silva, por exemplo, foi meu assistente e tem uma relação com o ativismo e a questão negra e LGBT muito mais forte do que eu. Eu poderia ter me colocado mais, afinal também sou negro e gay, mas naquele momento eu não via necessidade. Mas adoro ver que alguém que foi meu assistente está realizando este tipo de trabalho. Acho que na minha época ainda existia também um glamour que não existe mais ou se tenta sobreviver não sei se esta turma está dando muita bola. Além disso, a moda era mais elitista, a internet entre outras coisas expandiu essa relação das pessoas com a moda, popularizou, levou para a rua, voltou a falar com o jovem.”

BM – E nesses 20 anos, o que você lembraria como momentos mais marcantes do evento?

WS – “Nossa, são muitas coisas! Mas eu lembro de todos os desfiles do Walério Araújo e em especial um que tinha styling do Maurício Ianês com perucas de canutilho e a trilha sonora era do No Porn, e a Liana Padilha cantava um funk, aquele bem famoso – ‘desce! desce glamorosa! sobe! sobe glamorosa!’ e as modelos seguiam a música. Eu amo aquilo, amo aquela imagem… Os desfiles da Karlla Girotto, sem exceção, mas principalmente um que era todo branco, e as modelos apoiavam o queixo num aparato… E do meu trabalho a coleção que mais gosto foi a minha em homenagem ao Michael Jackson… Não da para eleger, são muitos momentos marcantes.”

O estilista no final de sua apresentação na 41ª edição da Casa de Criadores || Créditos: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

O estilista no final de sua apresentação na 41ª edição da Casa de Criadores || Créditos: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

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