Fora da caixa, Fause Haten conta como misturou moda com teatro, música e performance!

Nunca parado no tempo, Fause Haten armou a própria revolução ao levar toda sua expertise na moda para o mundo do teatro, da música e da performance. Inquieto, contestador e com as respostas na ponta da língua, ele fala na entrevista abaixo sobre moda brasileira, sua nova maneira de produzir roupa e os devaneios no mundo do teatro.

Casa de Criadores – O que o Fause Haten está fazendo hoje em dia?
Fause Haten – “Eu fechei minha loja em Pinheiros em 2015. Mudei para um galpão de 1000 m2 no Belenzinho, onde foi minha fábrica nos anos 90. Ali tenho uma loja fechada, meu atelier de costura, um espaço para ensaios e construção de figurinos e um loft onde moro. Ali, além de reduzir meus custos com aluguéis e etc, reduzi minha equipe tornando tudo mais próximo. Menos gerentes e supervisores e todos os cargos que fossem intermediários. Fiquei com minhas costureiras e modelistas principais e tornei meu processo mais próximo e mais humano. Deixando a empresa mais leve, pude ter mais tempo pra me dedicar a outros ambientes de criação como o mundo do teatro, da performance e das artes plásticas. Posso dizer que hoje metade do meu dia eu dedico a fazer roupas e metade a fazer cenas.”

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Casa de Criadores – A sua transformação da moda para a música e o teatro foi por quais motivos?
Fause Haten – “Eu passei uns 5 anos, de 1999 a 2004, rodando o mundo com desfiles (Los Angeles, Nova York e Milão). Foi um trabalho importante, pioneiro, mas muito solitário e de muito trabalho. Minha empresa cresceu muito e quando dei por mim, o tempo do meu dia dedicado à criação era muito pequeno, passava o dia em reuniões. Eu não estava feliz e por isso desisti desse caminho. Abri mão do meu lugar nas semanas de moda internacionais e resolvi fazer aulas de teatro pra me distrair. Ali percebi que passava minhas noites dedicado 100% à criação e isso me fez muito bem. Aos poucos fui me interessando mais, estudando, pesquisando e me aparelhando com instrumentos novos. Como meu palco eram os desfiles, fui desde então exercitando a voz, a palavra, os pensamentos sobre o corpo e a cena a cada 6 meses no SPFW. Além de fazer as roupas, hoje eu escolho o ambiente onde essa roupa vai estar, o gesto que aquele corpo vai desenhar, a luz que incidir sobre ela. Essas possibilidades me abriram um leque enorme de opções e isso me entusiasma muito.”
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Casa de Criadores – Você ainda gosta de desfiles? Se imagina desfilando de novo?
Fause Haten – “Adoro fazer desfiles e ainda pretendo fazê-los. Só não me sinto obrigado a cumprir datas e calendários. Além disso acho que o evento ‘desfile’ em si perdeu a força. As clientes hoje preferem ir na loja e já provar e comprar. O ‘evento’ que demonstra a roupa precisa ter outros apelos para que a cliente de 6 em 6 meses se disponha a se deslocar até aquela plateia. Os deslocamentos hoje são muito complexos em qualquer cidade.”
Casa de Criadores – Como você vê a moda no Brasil hoje em dia? Onde estamos acertando e onde estamos errando?
Fause Haten – “Acho que a moda no mundo está em transformação. A moda e as roupas têm outra função na vida das pessoas. O sistema está tentando se ajustar a isso. Acho que existe uma fantasia vivida por um grupo de pessoas que não observa o mundo e acha que aquilo que vive tem fundamento, mas na realidade, a meu ver, é uma base feita de areia. O mundo mais interessante hoje é aquele que nega a moda. A juventude e as novas gerações negam a moda, as academias, a estética, as plásticas. Existe uma nova beleza que vem do feio, da negação. Algo que venho falando desde o meu desfile do Caos, aquele em que cantei pela primeira vez, acho que foi em 2011. Ainda hoje só o Alessandro e o Dema no cenário de moda assumiram esse olhar e se deixaram penetrar por esse ‘feio’. No Brasil, depois de todo o movimento que nós, os estilistas brasileiros, fizemos no início da década passada, mostrando o Brasil para o mundo e vivendo a ilusão de sermos reconhecidos como produtores de moda, o resultado que temos é que reconheceram o Brasil como consumidor de moda, e hoje todas as marcas internacionais se instalaram ou estão se instalando aqui. Dentro desse cenário, considero que é meu momento de ficar na coxia e deixar os outros atores fazerem a sua cena. Eu ainda sou um dos atores da peça…rs… faço parte do sistema mas é hora dos outros atores brilharem e eu não me sinto diminuído por isso.”
Casa de Criadores – Você continua criando moda, certo? Conte como funciona seu método de criar hoje.
Fause Haten – “Sim, mas crio peças e mini coleções todos os dias ou quando tenho vontade. Geralmente fico na loja o dia todo e minhas atividades no teatro sempre acontecem à noite. Dentro desse processo de humanização, procuro atender sempre pessoalmente todas as clientes, pessoas da imprensa etc. Assim como no teatro que faço, priorizando o olho no olho.”
Casa de Criadores – Quais as principais diferenças entre a passarela e o palco?
Fause Haten – “O que mais me entusiasma no palco é que tanto como ator, como fazendo figurinos, aquela obra fica em cartaz por meses. Às vezes anos… Um desfile nunca se repete… e uma peça você pode rever sempre. O look de um desfile dificilmente será reproduzido na rua por uma cliente… ela vai fazer o look dela e no teatro, aquele look fica ali permanentemente.”
Casa de Criadores – Quais dicas você daria para quem está pensando em ter uma marca de moda?
Fause Haten – “Trabalhe muito e nunca desista!”
Casa de Criadores – Onde e quando podemos ver você no palco nos próximos meses?

Fause Haten – “Estou estreando um trabalho novo… ‘LILI MARLENE, um Musical’. É um texto que escrevi que conta a história do Lili, um ator transformista dos anos 60 e sua trajetória desde a rejeição na infância, a fase dos shows em Paris, depois quando se tornou sacerdote de uma religião até a morte da Marlene. A estreia foi nesta semana e ficamos em cartaz até 28 de junho no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura no Conjunto Nacional. Sempre às terças e quartas.”

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