Por dentro da PanoSocial, marca que ajuda a tirar o Brasil do mapa das injustiças sociais

PanoSocial-Michelli_Provensi-cdc-st-13074

Unindo mão de obra de ex-detentos e algodão 100% orgânico, a PanoSocial, marca da brasileira Natacha Lopes Barros e do austríaco Gerfriëd Gáullofêr, vem para mostrar que é possível ressocializar indivíduos e ainda criar ótimos produtos sem maltratar o meio ambiente. Conheça esse projeto que só cresce no país na entrevista abaixo!

Casa de Criadores – Como surgiu a ideia do PanoSocial? E do que se trata o projeto?
Natacha Lopes Barros –
A ideia da construção de um negócio social surgiu pouco depois da chegada de Gerfriëd Gáullofêr da Áustria ao Brasil, quando ele morava no Baixo Augusta, em São Paulo. Viver no centro desta metrópole provocou uma mudança significativa nele. Para um jovem de 29 anos na época, sair para trabalhar diariamente e pular mendigos na porta do edifício e nas ruas do centro da cidade foi sempre tão constrangedor quanto inaceitável. Hoje com 44 anos, ele tem convicção de estar no caminho certo. Como designer, sempre em busca de aplicar melhorias em produtos, serviços e sistemas, ele olhou no que mais o incomodava: a injustiça social e a questão da violência urbana. Gerfried conheceu um padre austríaco, Gunther Alois Zgubic, que trabalhava na Pastoral Carcerária e mediava conflitos na extinta casa de detenção, o Carandiru, lutando contra a tortura nos presídios. Com ele, visitou unidades prisionais e logo entendeu que a realidade não tem muito a ver com as histórias contadas nas grandes mídias, que aumentam o preconceito na sociedade. Ao identificar falhas em nossos sistemas sociais, no primeiro momento surgiu a ideia de produzir bolsas de câmeras de pneus, um produto upcycling com a mão de obra de ex-detentos. Tudo para gerar trabalho digno, impactos ambientais positivos e um avanço para maior paz social por meio da oportunidade de emprego. Ao conhecer o enorme impacto ambiental do algodão convencional em uma pesquisa mais profunda sobre a indústria de moda, por meio do mercado têxtil e o ramo de confecção, que são o segundo impacto ambiental logo depois do petróleo, nasceu a ideia de atrelar o projeto social a soluções mais limpas para este mercado, produzindo artigos de vestuário, utilizando algodão orgânico e pigmentos naturais. Hoje, a maioria dos consumidores não tem consciência sobre o impacto negativo que podem causar pelo consumo. Aqueles que procuram produtos baratos muitas vezes não têm consciência sobre a mão de obra que está por traz dos valores baixos, ou conhecimento sobre onde foi produzido e se o produto eventualmente prejudicou uma empresa nacional. Vimos isso nos últimos anos no ramo têxtil e muitos outros com a abertura do mercado chinês. Tudo isso tem como consequência um aumento do desemprego e da violência. Amigos por volta de 12 anos, Gerfried identifica uma parceira em potencial, Natacha, que trabalhou como produtora de moda para campanhas de grandes marcas e editoriais de revistas de moda. Juntos lançaram a PanoSocial, a favor de uma moda mais justa, limpa e inspiradora.

PanoSocial-Nat&Gerfried

Natacha e Gerfried || Créditos: Pablo Saborido

Casa de Criadores – Por que optaram pelo uso de algodão orgânico e pelo uso de trabalho de ex-detentos?
Natacha Lopes Barros – O algodão convencional é o produto da agricultura com maior impacto ambiental do planeta. O Brasil está em 5° lugar em produção de algodão convencional. Somos uma das maiores reservas naturais do mundo. Proteger nossa água, solo, ar, fauna e flora, e as vidas humanas, é também o papel da agricultura orgânica. Por isso a PanoSocial investe neste mercado e incentiva a produção de algodão orgânico. Abaixo, alguns dados que temos sobre o algodão convencional e o orgânico:

  • 3% da agricultura mundial utiliza 25% de todo agrotóxico usado no mundo!
  • 70% dos agricultores que trabalham na lavoura algodoeira morrem de câncer!
  • 20 mil pessoas morrem por ano por causa de envenenamento acidental por pesticidas usados no cultivo de algodão convencional. Além de 5.000 suicídios por endividamento pela compra dos mesmos.
  • O algodão geneticamente modificado é hoje 75% do algodão convencional.
  • 1 kg de agrotóxicos contamina 1 bilhão de litros de água. (Brasil: 6% do território mundial; 12% da água doce do mundo.)
  • Para a produção de 1 kg de tecido de algodão convencional são gastos 11 mil litros de água.

100% Algodão Orgânico

– ecológico e socialmente correto, está livre de produtos químicos (principalmente agrotóxicos, pesticidas e fertilizantes), fortalece a agricultura familiar, contribui para a preservar o meio ambiente, a saúde dos agricultores e dos consumidores. Em relação ao convencional, o algodão orgânico apresenta redução de 91% no consumo de água, de 46% das emissões de gases de efeito estufa e de 62% no consumo de energia primária.

A decisão de contratar egressos do sistema prisional veio a partir de dados importantes como: no Brasil, sete em cada dez presos que deixam o sistema penitenciário voltam ao crime, uma das maiores taxas de reincidência do mundo. Cerca de 500 mil pessoas cumprem pena privativa de liberdade. A taxa de reincidência no nosso país chega a 70%. O número de aprisionamento do ano de 2014 é de 622 mil detentos no Brasil. Sabe-se que este número cresceu muito. O número de presos também é alto quando comparado ao tamanho da população. No Brasil são 306 presos para cada 100 mil habitantes. A média mundial é de 144 presos por 100 mil pessoas. Além disso, grande parte dos presos brasileiros (cerca de 250 mil pessoas) está detida de forma provisória. Isto é: são pessoas que não foram condenadas nem mesmo em 1ª instância e que aguardam julgamento. Segundo o estudo, há indícios de que parte dessas pessoas, caso condenada, não receberia penas de privação de liberdade. Ou seja: estão presas injustamente, seja qual for a decisão da Justiça sobre elas. Além disso, o punitivismo comete injustiças contra alguns grupos sociais. Pessoas negras (pretas e pardas) são maioria nas cadeias brasileiras. Segundo o estudos, 61,6% dos presos pertencem a esse grupo. Já entre o conjunto dos brasileiros, pretos e pardos são 53,6%. E mostra que os presos têm menor escolaridade que a média da população. 75% dos presos só estudaram até o fim do ensino fundamental, e só 9,5% concluíram o ensino médio. Já na população brasileira, 32% terminaram o ensino médio, de acordo com dados de 2010 do IBGE. Há um dito popular adequado à situação: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Como a maioria dos brasileiros não quer se informar com tais dados, preferindo recitar bordões (que ouviu de políticos ou na mídia) contra direitos humanos, processo penal justo e prisões decentes, a criminalidade vai continuar subindo e fazendo vítimas. Fica claro que enquanto pagarmos a violência com a vingança, esse ciclo de agressão só aumenta. Acreditamos na pessoa humana, ninguém nasceu para roubar, matar e traficar. Oportunizar trabalho digno é essencial para estimular a promoção e consolidação da paz social.  No ano de 2016 o Governo Federal gastou R$ 1,1 bilhão com o Fundo Penitenciário Federal e suas diretorias. O fundo tem como objetivo custear as quatro penitenciárias federais e suas diretorias. Até aqui, esta política de aprisionamento, instalação de novas unidades prisionais e maior policiamento nas ruas de fato não têm reduzido os índices de violência.

PanoSocial-Michelli_Provensi-cdc-13062

Michelli Provensi em campanha para a PanoSocial || Créditos: Pablo Saborido

Casa de Criadores – Quais foram os principais projetos que vocês já criaram com a PanoSocial?
Natacha Lopes Barros – A Panosocial gera valores por meio do desenvolvimento, confecção e venda de vestuário com tecidos ecológicos e processos produtivos sustentáveis. Com isto atendemos demandas para outras marcas, instituições e para nossa grife. Grandes  e pequenas marcas, designers e artistas, instituições e empresas, podem imprimir suas criações, campanha e eventos, com bases orgânicas e que incentivam a empregabilidade de pessoas que estão à margem do tecido social. Todos os clientes são atores da mudança. Temos clientes como o Instituto C&A, que apresentou sua proposta de investimento no algodão sustentável (BCI / Sistema Better Cotton) no Brasil, presenteando seus convidados com ecobags de 100% Algodão Orgânico feitas pela PanoSocial, e o Greenpeace Brasil, que doa aos colaboradores do grupo ambientalista camisetas de 100% Algodão Orgânico estampadas com pigmentos naturais e incentivando a ressocialização. Todos os clientes são investidores das causas sócio ambientais às quais a empresa defende e apostam na responsabilidade social por meio da aquisição de produtos feitos pelo negocio social. Com isso, nossa primeira oficina de costura/atelier hoje emprega 6 ex-detentos. Até 2018 está previsto a contratação de cerca de 20 colaboradores que passaram no sistema prisional.  Nosso negócio social utiliza 80% do horário para produção, 10% é voltando à capacitação profissional e 10% ao desenvolvimento humano. Além de cursos práticos de corte e costura, modelagem e estamparia também são práticas da empresa para oferecer preparação e especialização aos colaboradores. No desenvolvimento humano temos técnicas de respiração, meditação e energização como práticas. Um programa de capacitação a nossos colaboradores, feito pela FUNAP, se inicia em maio de 2017, com módulos de comunicação e expressão, o mundo do trabalho, arte e trabalho, caminhos e possibilidade profissionais, empreendedorismo, meio ambiente e sustentabilidade, relações sociais e políticas, cidadania e ética, posicionamento estratégico e superação, criatividade e inovação. Proporcionar um ambiente de trabalho favorável, incentivando o respeito entre entre empregador e empregado, e estimulando sempre a criatividade e a superação. Esse é o caminho para a excelência em resultados de desenvolvimentos de produtos aos clientes e para o setor. O mercado têxtil e o ramo de confecção brasileiro têm perspectiva de faturamento de R$ 135 bilhões (US$ 40,2 bilhões), o que significa um aumento de 4,6% em relação a 2016. O varejo de vestuário deverá crescer 2%. Todo o setor tem apresentado diversos desafios, questões sérias em impacto social e ambiental, tanto na contratação de pessoas em regime análogo à escravidão quanto no uso de matérias-primas. A PanoSocial apresenta soluções inteligentes a tais questões. Empregar ex-detentos é também uma forma de apresentar soluções sociais.

Panosocial-PS003-off_w-favela

Camiseta criada pelo projeto || Créditos: PanoSocial

Casa de Criadores – Conte sobre esta nova fase, com a oficina funcionando e com esta equipe que só cresce…
Natacha Lopes Barros – No momento a PanoSocial está em fase de aumentar a operação contratando e qualificando mais ex-detentos para a oficina própria. Além da nossa oficina, contratamos também serviços de oficinas parceiras e por causa da falta de mão de obra qualificada no ramo de confecção enxergamos a oportunidade de aumentar o impacto social positivo, indicando o público a qual trabalhamos para estas oficinas. Buscamos proporcionar trabalho digno e apresentar soluções a informalidade do mercado.

PanoSocial-Atelier-Paulo

Paulo, modelista da oficina || Créditos: Pablo Saborido

Casa de Criadores – Conte um pouco das experiências com esse ex-detentos.
Natacha Lopes Barros – 
Nossos funcionários mostram-se dedicados e responsáveis. A oficina de trabalho é repleta de trocas para aprendizagem. Até agora, o que se mostra é que estamos no caminho certo. Reginaldo, um dos nossos costureiros, falou numa entrevista à TV Cultura: “Não é que o egresso quer voltar para a criminalidade, a sociedade joga ele de volta”. Isso quando a oportunidade de trabalho é negligenciada pelo preconceito, tornando a renda para sobrevivência algo impossível para aquele que busca uma oportunidade, tendo saído do sistema prisional.

PanoSocial-Atelier-Cristine

Cristine, umas das funcionárias da oficina || Créditos: Pablo Saborido

http://store.panosocial.com.br/

Compartilhe: