Na primeira coluna de Luigi Torre: MODA EM COLAPSO. AINDA BEM!

Por Luigi Torre
A gente que trabalha com moda adora dizer que ela está mudando. O que é uma grande bobagem. É redundância, aliteração. A moda está sempre mudando. A cada nova temporada ela muda, se transforma, substitui o velho pelo novo — possivelmente no seu guarda-roupa também. O que está acontecendo agora é que a moda está em colapso. E ainda bem! Pois já está mais do que na hora.

AWAYSTOMARS

Mas calma, esta não é uma coluna amargurada de alguém que odeia moda. Pelo contrário, é justamente por gostar tanto do assunto que o fim parece animador. É aquela história de destruir os modelos vigentes para que os novos possam surgir. Pois bem, chegou o momento de dar espaço e condições para que expressões e criações de moda mais conectadas aos desejos coletivos ganhem o mainstream. Mas para isso, precisamos resetar o sistema.
É que a moda nunca foi muito chegada à coletividade. Individualidade, exclusividade, portas fechadas, acessos restritos, clubinhos para poucos são valores sobre os quais a indústria se firmou. Existe toda aquela conversa sobre como a criação não é um ato isolado, mas uma grande colaboração, como ninguém faz nada sozinho. Porém, no fim das contas, o que importa é a assinatura do estilista. Sem autoria, a moda tal qual a conhecemos não tem valor. Mais do que o produto em si, é a assinatura, a etiqueta que determinam o quanto vale uma roupa.

Ateliê Vivo

Desde sempre, fomos condicionados a aceitar – e vestir – o que nos era oferecido a cada seis meses pelos donos de tais assinaturas. Agora não mais. Plataformas e marcas como a AWAYTOMARS, por exemplo, já permitem que o consumidor possa ter voz ativa no processo criativo. Por meio de um modelo de crowfunding, é possível fazer suas vontades ouvidas e transformar a criação num ato realmente coletivo e colaborativo.

Ateliê Vivo

A ditadura da moda cai por terra no momento em que o consumidor exige ter sua opinião levada em consideração. Se você vai investir dinheiro em uma peça de roupa, nada mais natural do que ela ser feita de acordo com sua necessidade. Foi-se o tempo do one size fits all. Personalidade e personalização já são qualidades essenciais a qualquer produto.

Desfile de Alexander McQueen

Quando se abre um sistema fechado, ele começa a ruir. Quando se permite a entrada de quem sempre foi excluído, as estruturas tremem. Do mesmo jeito que tremem quando o modelo de venda, descarte e renovação começa a ser questionado. Produzir o novo pelo novo já não faz mais sentido por exemplo. Com roupas e tecidos de sobra no mundo, vale mais reaproveitar, restaurar ou reciclar o que já existe. É mais ecológico, é mais correto e muitas vezes mais barato também.

Desfile de Alexander McQueen

Afinal, gastar pequenas fortunas numa peça de roupa é outra ideia antiga. Conforme o consumo consciente invade cada microesfera da vida pessoal, cada vez mais gente se questiona sobre o valor das coisas — das roupas mais ainda. É por aí que sites e empresas de aluguel de roupa, como Rent The Runway ganham força. Bem como as iniciativas de guarda-roupa compartilhado ou de capacitação para a produção autônoma das próprias roupas, como o Ateliê Vivo, na Casa do Povo, em São Paulo. São sinais de que o mundo mudou, as pessoas mudaram, o consumo mudou, tudo mudou. E a moda, que sempre foi gatilho de mudanças, precisa, mais do que nunca, mudar. Já!
Luigi Torre é o novo colaborador do Site da Casa de Criadores e vai escrever sobre moda semanalmente! 
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