O CORPO POLÍTICO E A MODA DO NÃO CONFORMISMO, na coluna de Luigi Torre

Por Luigi Torre

Quando a cantora Pabllo Vittar apareceu na capa da revista Marie Claire não faltaram comentários sobre sua neca (pênis em pajubá) desaquendada (solta). Parecia ultrajante uma drag queen de alcance nacional estar lá, assim, com tamanho descuido. Como se aquela neca marcada no body desvalidasse seu status de ícone pop da cultura LGBTQIA brasileira ou anulasse o valor de sua fala.

Não faltam exemplos na história da moda de como as roupas podem ser instrumentos de adequação social nem de como elas podem ser ferramentas de rebeldia, não-conformismo, transformação e liberdade. Foi assim quando Paul Poiret e, mais tarde, Coco Chanel aboliram o uso dos espartilhos. Foi assim com o surgimento da minissaia, uniforme jovem e símbolo da revolução sexual nos 1960.

Quando Yves Saint Laurent apresentou seu Le Smoking foi a mesma coisa. E quando a power woman dos anos 1980 precisou de maxiombreiras para competir com os homens no ambiente de trabalho, também. Ao esconder ou transformar o corpo, a moda muda o jeito como o ser humano é visto pelo mundo — e, às vezes, como ele mesmo se enxerga.

MC Dellacroix

O que tudo isso tem a ver com uma neca desaquendada? Tem tudo a ver, anjos. Não podemos mais aceitar e incentivar uma moda que se sobrepõe ao corpo. É incompatível com nossos tempos. Quando se fala, se batalha. É preciso pensar, ver e vestir uma moda que realce o corpo — ao gosto de quem nele vive. Mais ainda quando esses corpos fogem dos padrões e convenções sociais. Quando são transviantes, de cores não brancas, quando não são magros ou sarados.

Quando a gente fala de identidade de gênero, de identidade racial, de body neutrality, pensar e ver uma moda que não se sobrepõe ao corpo é essencial. É preciso entender, ver e vestir uma moda que realce o corpo — ao gosto de quem nele vive. Não é a roupa que diz quem você é ou como você deve ser. É você. E já temos ditaduras demais no mundo e nossas vidas para submeter nossos corpos e nós mesmos a regras do que se deve ou não vestir de acordo com seu tipo físico, gênero, cor ou posição social.

Ariel Nobre

A origem do pensamento que julga a neca desaquendada da Pabllo é a mesma que motiva a agressão de transsexuais, negros e tantas outras minorias atacadas todos os dias. Ainda que em níveis diferentes, é a recusa ao entendimento, aceitação, respeito e direito de existir daqueles que não se conformam com os padrões impostos por uma sociedade historicamente racista e machista.

Precisamos parar de pensar e usar a moda para conformar nossos corpos ao que nos foi imposto. Precisamos vestir a liberdade e sermos quem quisermos, sem vergonha de sermos quem somos, como somos, como queremos ser de verdade e por nossa livre e espontânea vontade.

Pabllo Vittar

Precisamos de mais Pabllos com necas desaquendadas, precisamos de mais Linns da Quebrada gritando liberdade, precisamos de mais Ariels Nobre poetizando a luta pela sobrevivência trans, precisamos de mais MCs Dellacroix fazendo rap da resistência negra-trans. Porque o corpo é sempre político, a roupa, não necessariamente. Sem corpo, menos ainda.

Linn da Quebrada

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