Portfólio Fotógrafos! Passado, presente, moda e arte no liquidificador pop de Yuri Pinheiro!

Não por acaso, Andre Hidalgo elegeu Yuri Pinheiro como primeiro fotógrafo para criar o ensaio mensal da marca Wirth, que requisitou a Casa de Criadores e este site para mostrar diferentes olhares sobre a marca de calçados. Yuri se jogou em seu universo colorido, de quem tem arte no DNA, e mostrou no ensaio (que a gente já postou aqui e que reproduzimos abaixo) uma perfeição de detalhes. Yuri pensa em tudo: da imagem em si ao figurino. Para saber quem é Yuri Pinheiro, fizemos a entrevista abaixo, na qual ele conta suas histórias e ainda dá dicas para quem quer fazer moda, não ser vítima dela.

Arte na sala de casa
“Nasci em uma família de artistas, tenho tios músicos, o pai ator e a mãe fotógrafa (de retratos e cena). Tínhamos um estúdio em casa com um grande fluxo de trabalho. Durante minha infância tive a oportunidade de ver montagens teatrais grandiosas, minha mãe fotografava para a Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo enquanto meu pai fazia montagens com Flávio Rangel e Jorge Tacla, entre outros nomes. Acompanhei essas montagens do trabalho de mesa à última sessão. A fotografia se formaliza como minha expressão principal numa tarde de 1989 quando minha mãe me emprestou uma câmera Reflex, me deu 2 rolos de filme de 24 poses, me passou os conceitos básicos de manuseio e disse “se vira!”. Dali em diante tiveram histórias ótimas de criança na puberdade revelando rolos e mais rolos de filme do estúdio, ampliando fotos até passar a viver exclusivamente da fotografia. Minha vida é pautada em imagens especificamente fotográficas desde que me conheço por gente. Até meus 35 anos definia minha essência como algo que morava dentro de uma camera Hasselblad. Com uma relação mais madura estabeleci uma visão contrária: hoje a Hasselblad mora dentro de mim, mas por muitos anos eu fui apenas fotografia, negligenciando o Yuri quase que por completo. Ainda tenho essa relação com meus olhos, os vejo como parte de uma máquina que não faz parte do Yuri… hehehehehe… Coisa de gente maluca que nunca viu outra coisa na vida a não ser aquilo, no meu caso a fotografia.”

Outras artes
“Toco clarinete. Em dado momento da minha formação artística, já com uma certa idade, percebi que sou de uma geração que não teve no currículo de base escolar a iniciação à musica, optei por parar minha vida durante um período para só trabalhar com música por volta dos 26 anos de idade. Passei assim praticamente 10 anos tocando meu instrumento num espetáculo teatral, agreguei valor criativo, disciplinar, o trato com o público e outras questões pertinentes ao aprimoramento artístico. Continuei fotografando durante esse período sem o compromisso econômico. Naquele momento burilei o olhar pros grafismos e simetrias, eu sempre fotografei pessoas, na ocasião fotografava os lugares por onde o espetáculo passava, compreendi que os fenômenos físicos da matemática dessas duas expressões são semelhantes e não palpáveis. Hoje vejo as musicas e escuto as imagens, uma expressão se apropria da outra e aprofunda o discurso de cada uma em si.”

O que faz a fotografia de moda?
“Acho que nesse momento histórico, uma opinião a respeito do que é necessário numa imagem de moda seria uma tarefa complexa. Temos muitas vertentes e linguagens diferentes dentro da imagem de moda como um todo, mas acredito que algo que possa unir todas seja a dramaticidade que gera o desejo, seja e vontade de ser aquela pessoa retratada na característica comportamental, ou o desejo de ter aquela peça especificamente numa abordagem mais comercial, mas o ponto crucial pra mim está a cargo da força dramática que a imagem me proporciona, o drama no sentido da intenção, da atmosfera, da expressão e da construção de um contexto que transmita as ideias principais da finalidade da imagem, seja a venda de conceito ou do produto de forma mais literal.”

Sobre a Wirth Series
“Busquei refletir meu momento pessoal de re-observação de tudo à minha volta. Estou reavaliando os detalhes, dos mais simples a todo o circulo de relacionamentos e a representatividade desses elementos na minha personalidade atual. Pro ensaio, observei o que tinha mais próximo de mim, as flores do meu jardim, pequenos trechos da minha própria casa e do entorno. Tinha a intenção de em pequenos recortes produzir uma atmosfera penetrante e colorida que levasse o espectador a vivenciar por um breve instante o clima de estar usando aquele calçado no cotidiano de uma forma mais onírica e superlativa.”

E a moda, Yuri?
“Acho que a moda na característica de reflexo libertário da sociedade passa por um dos momentos mais interessantes da sua história. Eu poderia afunilar para um recorte sobre tendências, mas de fato minha visão da moda é carregada pelo filtro artístico teatral (figurino) e passa por todas as questões comportamentais da sociedade. O que mais tem me agradado na moda é a “institucionalização” de que existe uma liberdade muito grande em cena, homens vestidos de mulheres, todos os tipos de desenhos permanentes nos corpos, das tattoos às plásticas, moda de todas as décadas, propostas futuristas de roupas com leds e tecidos inteligentes. Embora a rua possua uma certa unanimidade e o conservadorismo seja a norma, hoje vejo uma abertura de convívio entre os estilos e os pensamentos muito mais abrangentes que há 20 anos. É evidente que isso cria um ambiente “chapa quente” entre as partes, a liberdade pode ser uma afronta e se transformar em imposição ao outro, assim como a falta dela um crime. A moda desse início de era se instaurou realmente como auto-expressão social e isso é maravilhoso, vejo que hoje “estar na moda” significa estar em conexão com os próprios valores e convicções, uma quebra de paradigma com os uniformes tão usuais das décadas passadas, esses uniformes ainda existem nos milhares de grupos que se formaram, mas hoje são milhares de grupos diferentes!!!! IMAGINA O FUTURO DISSO!!!!!”

O próprio: Yuri Pinheiro!

A cor do som
“Aceito praticamente todo tipo de som. Fotografando pessoas preciso me adaptar à atmosfera que as deixarão mais confortáveis pra extrair o que eu preciso, então eu mesmo preciso me sentir confortável ouvindo qualquer música para encaminhar a sessão. Tenho minhas predileções, ouço bastante música eletrônica fresquinha pelo Soundcloud. Acho uma plataforma maravilhosa de pesquisa das tendências sonoras. É o veículo gratuito que a garotada usa pra se divulgar nos primeiros passos. Meu perfil por lá é “yuripinheiro”: tenho playlists do que acho relevante. Na outra ponta escuto jazz swing, é uma grande paixão. E, por fim, mas não menos importante pra mim é ouvir por muitas horas de tempos em tempos músicas tradicionais do Oriente Médio, aquela sonoridade me leva pra um outro lugar de paz e tranquilidade necessários pra dar aquela desafogada e lembrar como eu era há 3000 anos, pra poder compreender e dar valor ao que sou hoje.”

Likes e mais likes
“Redes sociais são um mal necessário. Toda comunicação dos humanos no momento se da por lá, é a carta, o celular, o telegrama do nosso momento. Virou uma prótese de comunicação e já não possui mais exatamente uma liberdade de expressão, embora a plataforma incentive o ato. As redes são recintos públicos onde nos encontramos, já não tem mais espaço pra certas gritarias e fora da rede não entramos nos cafés e subimos na mesa, a anarquia talvez seja utópica. Acho que o lado ruim fica a cargo das manipulações que esse veículo permite, as induções fáceis pelos mecanismos que constroem as bolhas sociais e geram polarizações fora da rede, mas um dia a rede será obsoleta como hoje é uma carta.”

Dicas para quem quer se jogar
“Coloque de lado a ansiedade de pegar na câmera e sair fotografando. Respire fundo, vá ao Google e digite “história do cinema”. Veja a lista dos filmes clássicos e assista o máximo que você puder. Compre (ou baixe em PDF) a história da pintura na humanidade, preste atenção em tudo que está retratado nela, das paisagens à arquitetura, as roupas, as poses, os ornamentos. Procure por curiosidade, não encare isso como uma obrigação estudantil e sim o prazer de ver como tudo foi sendo construído até os dias de hoje. Escute muitas músicas de todos os estilos, veja filmes chatos de 3 ou 4 horas de diretores que pouca gente ouviu falar e que quando acabam a gente não entendeu nada, mas tomou uma surra de estética durante todas aquelas horas. Uma vez por semana durante toda essa dedicação e paixão pela imagem e pela história dela na humanidade, você vai lá e expressa aquilo que você entendeu sobre o que foi visto durante aquela semana em uma sessão de fotos. Pense na imagem, não saia fotografando como se não houvesse amanhã. A técnica é muito importante pra libertar o criativo no voo, mas sem linguagem não tem rasantes. É preciso antes de tudo compreender como um artista pensa pra que a sua imagem seja de fato uma obra e não apenas um click. Os quadros perfeitos são maravilhosos, mas não se encerram em si. A imagem precisa de alma e essa vida só surge numa foto quando o fotografo é um cara que conhece muitas coisas e vivenciou outras tantas. Quem faz a foto é o fotografo e aquilo que ele é, a câmera é apenas um suporte, ela pode ser de um celular ou a câmera digital com mais megapixels do mercado, você pode se expressar de forma densa com qualquer suporte, mas se não construir essa densidade que só o ser humano é capaz de ter. Nenhuma máquina te dará uma imagem relevante por si só, principalmente hoje que tudo é produzido e reproduzido em série. Fuja das reproduções atuais e das referências das tags mais bombadas. Construa a sua imagem de futuro usando da sua maneira os elementos que você conheceu nessa pesquisa da história da arte humana. O registro de um olhar lancinante numa imagem tremida e escura pode ter um impacto avassalador, aí reside a tal “arte” na fotografia, vide imagens de monstros sagrados como Cartier Bresson que estavam mais ligados no momento que eles deveriam apertar o botão do que com as questões pertinentes a que tipo de lente era a mais legal disponível no mercado. O mais legal da foto é dar aquele tiro certeiro!!!!! Em todos os sentidos, o estético e o discursivo.” Aqui, o site do Yuri!

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