Cassia Tabatini e as dores e principalmente amores de produzir uma revista independente no Brasil: a Fort!

Quem já botou as caras para publicar uma revista impressa de forma independente sabe que tem de ser muito corajoso para encarar um mercado editorial como o do Brasil. As dificuldades vão do preço da impressão até o entendimento das marcas sobre a importância de patrocinar e ajudar a alimentar este tipo de arte. Isso sem contar na questão criativa, mas isso depende dos profissionais envolvidos no projeto. Casa de Criadores aplaude a iniciativa da fotógrafa Cassia Tabatini, que vem colocando no mercado a Fort Magazine, um exemplo de como o impresso ainda tem espaço no Brasil. Abaixo, ela conta as dores e os amores de imprimir esta revista anual que se tornou referência.

Casa de Criadores – Como surgiu a ideia de fazer a Fort?
Cassia Tabatini – A ideia de fazer a Fort surgiu logo depois que voltei a morar no Brasil, depois de um longo período em Londres. Confesso que fiquei um pouco perdida porque não entendia direito como funcionava o mercado por aqui, mas como já tinha um background de fazer fanzines e participar de feiras impressas por lá, me deu vontade de juntar as duas coisas. Fazer uma revista e o tema deveria ser retratos de meninos e juventude, que desde que comecei a fotografar foi meu tema favorito. Minhas influências e inspirações viriam dessa geração de filmes americanos, “The outsiders” , ” Rumble fish” etc… Logo depois ver Elaine Constantino fotografando moda no clube extinto de Londres, The Wag, e então, depois, o diário da fotógrafa inglesa Toyin. Eu queria através da Fort trocar cultura com outros países através desse tipo de fotografia. Não somos uma plataforma de novos fotógrafos e sim de fotógrafos que retratam e documentam juventude.

Casa de Criadores – Por que impresso, tendo em vista os altos valores e existindo tantas revistas eletrônicas?
Cassia Tabatini – A Fort é uma revista impressa, anual e colecionável, então se o impresso deixar de existir ela também deixa… Temos um portal digital, onde fazemos conteúdo para marcas e colaborações. Este ainda está se desenvolvendo conforme as marcas procuram a gente. Desenvolvemos juntos a proposta, também publicamos trabalhos que não conseguimos colocar na impressa. O nível de fotografia dos editoriais da online é o mesmo do impresso, só não conseguimos por vários motivos fechar a revista anual com todo material que é submetido e que gostamos. Além de que também temos nosso projeto da Fort Gallery, direcionado pela nossa amiga Ana Ariette. Com a ajuda do Matheus dos Reis, trabalhamos com fotógrafos que geralmente já publicamos na Fort antes.

Casa de Criadores – Qual o conceito da revista?
Cassia Tabatini – O Conceito da revista e super simples: somos uma revista de fotografia, que não fala de técnica. Dividimos o conteúdo em 4 partes, importantes iguais. São eles portfólios de trabalhos já existentes, na maioria das vezes de fotógrafos que documentam juventude. Entrevistas com nossos dois jornalistas ou escritores, Luigi Torres e Bruno Mendonça, entrevistam fotografos no mesmo tema e a escolha é bem orgânica, desde que formamos a lista de fotógrafos que queríamos publicar em cada edição, Depois temos moda, dirigida pelo Thiago Ferraz. Trabalhamos com advertorias e ensaios, cada edição é um caso. Nesta edição, por exemplo, temos uma moda que fotografei em Nova York, porque acabou que cabia muito na Fort pelo casting e pela moda. A outra é uma moda longa, que assinei junto com a Cecilia Duarte, que faz parte da revista também. Escolhemos um modelo que representasse essa energia jovem, que gostamos, e acompanhamos ele. No caso, o Gael Sonkin e o Caio Paiva, que conhecemos ali também. Passamos alguns dias juntos e o ensaio acabou se transformando nessa coleção de boas memórias. Fez todo o sentido eles tocarem as músicas que estavam compondo no dia do lançamento da revista. Esse tipo de colaboração é magica pra gente, a relação que a gente tem com os jovens. Depois da revista, acabam ficando pra sempre. Esse momento se imortaliza através das nossas imagens e depois de algum tempo cada um se transforma em alguma coisa e segue seu caminho… Tivemos também a moda da Burberry, onde escolhemos o casting a dedo para representar a juventude do Brasil, já que é uma marca de fora que sempre faz as campanhas pensando muito em casting também… Finalmente a parte 4, que é viagem. A gente criou para mostrar algum trabalho feito fora do habitat natural do fotógrafo.

Casa de Criadores – Como é feita a distribuição da Fort?
Cassia Tabatini – Temos alguns pontos de distribuição: Prince Books, Basico, Cotton Projects, Pair, Void, Handred no Rio… Enviamos para agências de profissionais de fotografia internacional também, porque a Fort é nosso portfólio, onde podemos trabalhar completamente livres.

Casa de Criadores – E os textos, do que falam?
Cassia Tabatini – Do mesmo assunto do resto da revista: cultura jovem e fotografia.

Casa de Criadores – Quais as maiores dificuldades de se manter um projeto impresso?
Cassia Tabatini – Hoje em dia, nosso time trabalha de uma forma muito fácil, porque já nos conhecemos e entendemos nosso próprio projeto. Então não precisa ficar passando tudo por todo mundo. Trabalhamos nos conteúdos e juntamos tudo depois, e funciona super bem. A dificuldade é financiar, porque nem sempre conseguimos atingir a meta do valor da impressão, dai acabamos investindo no projeto, financeiramente… Ela se banca dos patrocínios e advertorias, desenvolvidos por nós, ainda não publicamos nenhuma propagando pronta. Os lançamentos dependem muito de cada edição, do momento que estamos passando e o que combina com o conteúdo da revista. Nesta nova edição fizemos junto com o Orfeu e a Stella, no projeto de artes deles, como disse acima, os meninos que participaram da moda. Eles fizeram um pocket show, nosso amigo Gustavo Mc Nair que colabora com videos foi o DJ convidado.

Casa de Criadores – Conte um pouco da sua ideia de imagem de moda.
Cassia Tabatini – Acho que existe uma coisa, antes de cada fotógrafo ter uma imagem de moda, que é ter um trabalho autoral. O meu começou fotografando bandas de rock até chegar nesse processo documental etc, que pode ser explorado em mil possibilidades. Depende da publicação ou do cliente eu trabalho de uma forma, porque penso que se deve entender o que cabe em cada lugar…

Casa de Criadores – O que podemos esperar para 2018 em relação à Fort?
Cassia Tabatini – Ainda não sabemos. Temos varias considerações de clientes que querem trabalhar com a gente e temos uma lista de fotógrafos que queremos trabalhar. Geralmente lançamos no segundo semestre e acabamos montando a revista no mês anterior ao lançamento. O conteúdo é surpresa 😉

Casa de Criadores – E sobre os modelos e personagens, como são recrutados?
Cassia Tabatini – Dependendo do que vamos falar fazemos esse recrutamento. Nesta edição tentamos pensar em saúde mental. Ou seja: pensamos em vitalidade, criação, a energia de cada fotografado… Na passada, na moda, fizemos um portfólio de jovens talentos, então cada fotografo fez o próprio casting. Na segunda fizemos um casting gigante também e escolhemos 3 meninos que nunca tínhamos visto em nenhuma campanha grande, ou nem mesmo em editorial. Hoje podemos ver nas campanhas da Gucci, Prada, dai por diante…

 

Casa de Criadores – Esse material fotográfico vira exposição?
Cassia Tabatini – Fizemos nossa primeira exposição da Fort Gallery em Agosto passado no Epicentro. Trabalhamos, como disse acima, com a direção da Ana Ariette, assistência do Matheus dos Reis, e os textos do Bruno Mendonça. Nossa curadoria é normalmente feita através de fotógrafos que já publicaram na edição impressa da Fort… Esta exposição foi super satisfatória pra gente, porque eu não tinha muita noção que havia tanto interesse no tipo de material que publicamos como arte impressa. Já estamos escrevendo uma nova proposta de exposição para este ano.

Casa de Criadores – Conte um pouco do trabalho de Kleber Matheus na revista.
Cassia Tabatini – O Kleber Matheus é o único que está comigo desde a primeira edição, então o projeto gráfico ele tem todo o entendimento. Como disse, não tem muito mais que sentar e decidir, tudo que ele apresenta pra mim faz todo sentido. Convidei o Kleber para fazer a Fort comigo porque era muito fã do trabalho dele com o 2 fanzine. Mesmo participando de feiras na Europa, não conhecia um projeto gráfico tão bom quanto aquele. O nosso é outra coisa, mas aprendi muita coisa com ele. A revista não teria nunca a qualidade impressa que tem. Outra coisa que acho que foi bacana foi a ideia de tirar a foto de cada pagina com bordas brancas. Todas as revistas de fotos eram assim e a ideia dele e da Roberta Cardoso, que na época estava com a gente, é que quando pegamos várias fotos impressas pra ver na mão elas se sobrepõem. No começo foi super complicado com os fotógrafos e até pra gente aceitar, hoje eu sou completamente grata que foi dessa forma.

Saiba mais em…
www.cassiatabatinistudio.com
www.instagram/fortmagazine
https://www.instagram.com/cassiatabatinistudio/
https://www.instagram.com/fort_magazine/

 

Compartilhe: