Em tempos de denúncias de abuso, Luigi Torre pergunta: qual é o problema da moda masculina?

Por Luigi Torre

No último sábado o jornal “The New York Times” publicou uma matéria com depoimentos de modelos masculinos que teriam sofrido assédio sexual dos fotógrafos Bruce Weber e Mario Testino. Se você acompanha e gosta de moda, provavelmente já deve ter lido tudo sobre o assunto. A diferença é que agora as vítimas são homens. E isso não torna esses casos mais ou menos graves. São episódios de abuso de poder e comportamento sexual predatório tão grotescos e reprováveis quantos os vários outros que já vieram à tona. A única variante talvez seja o machismo, mas essa já é outra discussão e não o tema desta coluna.

O tema aqui é por que a moda — e principalmente a masculina — foi (ou ainda é) complacente com tais práticas? Estamos falando de uma indústria e hierarquia, status, sucesso profissional e acordos velados sempre fizeram parte do modus operandi. Histórias como as relatadas no jornal americano não são novidades para quem trabalha no meio, seja a vítima mulher ou homem. Porém, se a moda feminina já vem chamando atenção para esse assunto há algum tempo — e bem antes da explosão de todas as denúncias contra Harvey Westein —, por que a moda masculina permaneceu em silêncio? Por que ninguém se interessou e só agora decidiram ir a fundo na história?

Machismo é de novo uma das respostas, mas não a única. Segundo o artigo do NYT, “na moda, homens jovens são particularmente vulneráveis à exploração”. Se o são, contudo, um dos motivos é a própria alienação do meio. Nos últimos anos, vimos a moda feminina — e principalmente a moda de luxo feminina — se abrindo e se engajando a uma série de causas sociais, políticas e culturais. Foi uma verdadeira quebra de paradigma.

Enquanto isso, o mundo do luxo masculino ficou na inércia. Durante as semanas de moda, poucas eram as coleções que abordavam questões ou contextos mais amplos. E quando o faziam, dificilmente conseguiam alguma atenção. Na mais recente temporada de desfiles em Milão, terminada na última terça-feira (16/01), quase todas as marcas apresentaram coleções sobre sua própria identidade. Não que isso seja um problema, mas quando o olhar é sempre para dentro, é fácil perder a conexão com o que acontece ao seu redor.

Você com certeza vai achar coleções ou temas que se relacionem minimamente com algum aspecto da vida neste início de 2018. O que você não vai achar é como essas coleções influenciam ou são influenciadas pelas mudanças de comportamento social que estamos acompanhando atualmente. Diversidade e representatividade, por exemplo, passam quase que impunes e sem nenhuma menção em passarelas masculinas (salvo algumas poucas excessões que vocês vêem nesta página). Também são poucas as marcas falando sobre diferentes formas de representação masculina num momento em que se fala tanto sobre masculinidade tóxica. O unissex, que começa a ser apontado como uma normatização de identidade de gênero, foi assunto de apenas algumas poucas marcas de jovens estilistas.

A urgência comercial, a necessidade de reafirmar a própria identidade a qualquer custo e obsessão em viralizar todo e qualquer produto como um meme de internet, está tornando a moda masculina de luxo algo extremamente limitado e sem relevância. Sem relevância, porque não tem conexão com o mundo, com o seu tempo, com as pessoas (além daquelas poucas que podem a consumir, claro.)

E o que tudo isso tem a ver com exploração, abuso de poder e assédio. Tem a ver que com tudo isso o interesse e preocupação com esse setor é cada vez menor. Vide o encolhimento das semanas de moda masculina, cada vez com menos marcas e menos cobertura nos veículos especializados e na imprensa em geral. E sem ninguém olhando, fica mais fácil explorar, abusar, assediar.

Charles Jeffrey Loverboy – Londres – Inverno 2018 / foto: FOTOSITE

Charles Jeffrey Loverboy – Londres – Inverno 2018 / foto: FOTOSITE

Charles Jeffrey Loverboy – Londres – Inverno 2018 / foto: FOTOSITE

Craig Green – Londres – Inverno 2018 / foto: FOTOSITE

Craig Green – Londres – Inverno 2018 / foto: FOTOSIT

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Marni – Milão Fashion Week

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Palomo Spain

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