Entre danças de cadeiras e muito blablablá na internet… Porque moda não é só mercadoria!

Coluna de Luigi Torre

Na semana passada começaram os desfiles masculinos de Paris. O mais importante deles foi o da Vetements. Falava sobre réplicas, apropriações, vida real (ou uma imitação dela), roupas como simples mercadorias e banalidades transformadas em luxo a preços astronômicos. No domingo, Hedi Slimane foi anunciado como substituto de Phoebe Philo à frente da Céline. A internet veio abaixo. Não se falava em outra coisa. Todo mundo esqueceu as coleções masculinas. Começaram as apresentações de alta-costura. Slimane na Céline continuou sendo assunto. E continuará nesta coluna também. Sorry. Mas viene in pace que prometo não ficar em especulação do que será da marca francesa a partir de setembro, quando o estilista fizer sua estreia na passarela.

É que tudo isso diz muito sobre o estado em que a moda se encontra. Um considerável estado de perda de sensibilidade, urgência comercial e, talvez, o ápice do que alguns entendem como hype e outros como muito barulho por pouca coisa. Fatalidades da vida em tempos saturados. Se destaca quem grita mais alto, não quem conversa melhor. Vamos usar o caso Céline como exemplo.

Bom, por que Slimane? Porque ele vende. E os donos da Céline, os executivos do grupo LVMH, precisam e querem vender mais. Ame ou odeie, ele transformou a Saint Laurent numa das marcas mais lucrativas do grupo Kering (principal concorrente da LVMH). Fez tanto barulho e polêmica que, para o bem ou para mal, muita gente só conseguia falar sobre aquilo. Era mais importante questionar a aparência barata ou comum daquelas roupas, do que analisar se elas faziam algum sentido ou se representavam algo de relevante ou transformador na maneira como algumas pessoas se vestem.

Sob comando de Philo, a marca francesa virou uma espécie de oásis no meio do deserto barulhento e caótico que é nosso mundo on e off-line (os limites são cada vez mais tênues). Ela mesma era avessa a qualquer tipo de exposição: raramente dava entrevistas, falava pouco, se explicava menos ainda e mostrava zero interesse em aderir ao frenesi digital que chacoalhou a moda — e a de luxo mais ainda.

As roupas também tinham qualidades muito peculiares. Muito moldada às suas necessidades, a estilista deu a suas consumidoras um guarda-roupa em constante evolução. Ele era composto por itens-chave que se repetiam, se atualizavam e se transformavam a cada coleção: os camisões de algodão, os ternos com proporções meio fora do lugar, as calças super largas, os vestidos meio oversized, meio justos. Porém, o que mais marcou o trabalho de Philo foi sua capacidade de comunicar mudanças abruptas e humor, rumos e vontades de modo que fazia perfeito sentido, mesmo que poucos soubessem dizer exatamente porque e mesmo sem que ela precisasse se abrir para tanto.

Acontece que nada disso se comunica e se vende de maneira rápida, fácil e, principalmente, estrondosa. Apesar do sucesso de crítica e da fiel clientela, a Céline ainda é uma marca pequena para os padrões dos grandes conglomerados de luxo. As vendas anuais só agora estão chegando perto dos € 1 bilhão. Esperar mais uns 10 anos para bater ou dobrar essa meta é impensável. A solução é mudar tudo e tratar a moda apenas como commodity ou mercadoria. E, de novo, tudo bem. Todo mundo parece estar pensando assim. Não há nada de errado. É apenas triste. Porque moda é bem mais interessante quando feita de pessoas para pessoas, pensando em pessoas — e não em números… De vendas, cliques ou likes.

Phoebe Philo

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