Se for para não falar de moda, melhor não usá-la como meio de mensagem! Por Luigi Torre!

Por Luigi Torre

Domingo, na premiação do Globo de Ouro, todos os convidados foram encorajados a usar preto. Era parte da projeto Time’s Up, uma iniciativa destinada a combater o assédio sexual e disparidade de gênero em diversas indústrias e a levantar fundos para prestar ajuda jurídica à mulheres vítimas de assédio. Uma das ideias por trás da ação, como explicou a atriz Tracee Ellis Ross, era passar a sensação de coletividade. “Hoje eu uso o preto como ‘nós’ e não como um ‘eu’, como uma celebração do nosso poder coletivo como mulher, como uma encarnação de irmandade, solidariedade e do trabalho que está sendo feito para criar mudanças estruturais”, disse ela em entrevista durante o red carpet.

É um efeito não muito diferente de quando milhares de mulheres escolherem vestir um pussyhat (aquele gorro rosa com orelhas de gato) durante a Women’s March de quase um ano atrás. E um efeito bem válido. Moda tem muito a ver com expressão individual, mas sua máxima potência se dá no coletivo. Com aquele mar de looks pretos era impossível esquecer da mensagem principal. Era como uma reafirmação silenciosa de que, sim, time’s up e as coisas precisam mudar. Talvez, uma maneira mais concisa e eficaz de comunicar uma mensagem sem se limitar obrigatoriamente às entrevistas. E é aí que começa o problema.

Alicia Vikander

Segundo muita gente, este era tapete vermelho no qual a moda não importava. Era o tapete vermelho que a pergunta ‘quem fez seu vestido?’ foi substituída por ‘por que você está de preto?’. Como se falar sobre quem fez aquele look fosse algum demérito ou frivolidade extrema. Como se a moda, de fato, não importasse. Mas se a moda é tão irrelevante assim, por que escolher ela como um dos principais meios para comunicar sua mensagem?

Mencionar quem fez aquele vestido ou look não só dá crédito para os profissionais envolvidos, como também revela muito sobre o discurso (e a validade do discurso) de quem o veste. Muito mais do que as explicações sobre porque fulana decidiu usar uma calça debaixo da saia ou porque preferiu um terno a um vestido. Sarah Jessica Parker usou um vestido Dolce & Gabbana, marca que já fez repetidos comentários homofóbicos. Emma Stone, Alicia Vikander e Michelle Williams vestiram Louis Vuitton. A label tem Nicolas Ghesquiere como diretor criativo, que, por sua vez, ainda colabora com o fotógrafo Bruce Weber, acusado de assédio sexual. Sim, existem contratos milionários por trás disso, mas se é ideia é break free total e realizar mudanças reais, um pouco de coerência vai bem.

Dakota Johnson

Também não custa lembrar que a maioria dos diretores de criação das grifes de luxo é homem. Perguntar de quem é aquele look e ouvir que foi uma estilista mulher que fez ajuda a chamar atenção para o assunto, mostra quem está de fato apoiando profissionais mulheres, além, claro, daquela forcinha de mídia. Stella McCartney, por exemplo, vestiu Claire Foy e Hong Chau. Sadie Sink e Diane Kruger usaram Miu Miu e Prada. Maria Grazia Chiuri, da Dior, fez os vestidos de Natalie Portman, Sally Hawkins, Michelle Pfeiffer, Jessica Biel e Elisabeth Moss.

Sem contar nas marcas, como Calvin Klein, Forevermark, Sachin & Babi, Shiffon e Prabal Gurung, que fizeram doações para o fundo de ajuda jurídica do Time’s Up e não receber uma menção sequer.

Ao sugerir o uso de preto, a moda foi colocada em posição de destaque. Falar dela — e falar com ela — é importante sim. Hoje não é mais só sobre o vestido, ainda bem. Mas é sobre ele também.

Nicole Kidman

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