CUSTA QUANTO? O JUSTO! Uma ideia na moda que pode ser luz no fim do túnel

Por Luigi Torre

Na última terça-feira (06/02), a marca britânica JW Anderson lançou uma nova campanha através de seus perfis nas redes sociais. Mas nada de imagens convencionais aqui. Em vez das de modelos posando com peças da coleção de verão 2018, havia um anúncio pedindo para que fotógrafos do mundo todo, entre 18 e 30 anos, enviassem para a marca uma amostra de seis fotos – de pessoas, paisagens, objetos, qualquer coisa, desde que sejam atuais e ainda não tenham sido publicadas. O material será analisado por um júri comandado pelo estilista Jonathan Anderson e o vencedor recebe um contrato de £ 5.000, cobertura dos custos para clicar a campanha de inverno 2018 e uma exposição em Londres, em maio. (Quem se interessou é só visitar o site para mais informações)

Segundo Anderson em si, o motivo por trás de tudo isso é descobrir novos profissionais e explorar novas expressões de imagem. O que faz bastante sentido nesse momento em que a comunicação de moda como um todo está sendo questionada diante das diferentes e novas formas e meios de produção e disseminação de conteúdo. Na última coluna mesmo, falei sobre como a ineficácia da publicidade convencional está afetando a maneira como marcas dialogam e se apresentam para os consumidores. Num mundo em que todo mundo pode se transformar em celebridade ou influencer, o poder de persuasão de uma modelo numa campanha é bastante questionável. Mais fácil, e provavelmente bem mais eficaz, é convidar o seu consumidor para estrelar ou colaborar com o anúncio em questão. Melhor ainda quando a pessoa endossando é uma das mentes mais brilhantes (ou pelo menos inquietas) da nova geração fashion e uma que já lançou nomes de profissionais como o fotógrafo Jamie Hawkesworth.

Mais interessante do que a oportunidade, porém, é o que a ação representa: uma possível luz no fim do túnel para as famosas (e abusivas) parcerias ou trabalhos em troca de exposição. (Ok, o valor de £ 5.000 é questionável, mas também é uma quantia bastante razoável para um profissional iniciante ou até mesmo para um amador. E todos os custos ainda serão cobertos pela marca.)

Infelizmente ainda é bastante comum na moda trocar serviços por produtos ou para ter seu nome atrelado a alguma outra marca ou profissional. Como se seus boletos, seu aluguel e todas as suas contas pudessem também ser pagas com uma simples publicação em rede social ou página de revista. O problema fica ainda mais grave quando somamos a falta de transparência da indústria com os efeitos colaterais de um mercado saturado e uma geração iludida pela superexposição digital. Mais ainda quando o contratante-não-pagante é uma empresa grande, claramente com recursos para um mínima compensação. Trabalho de graça não é muito diferente de trabalho análogo à escravidão.

Mas quem sou eu para dizer por quanto ou pelo o que você deve trabalhar, não é mesmo? O problema é que tem muita gente que passa boa parte da vida investindo tempo e dinheiro em ser um bom profissional. São estudos, viagens, cursos, escolas, livros, revistas e mais uma caralhada de coisas que podem somar para que o trabalho de cada um seja de fato único, autoral e, acima de tudo, bom. Só que todo bom investimento precisa de um bom retorno e infelizmente vivemos num mundo em que as regras de jogo são mais quantitativas do que qualitativas. Ou seja, enquanto houver quem aceite trabalhar por migalhas — ou nem isso — quem está se esforçando para fazer um bom trabalho e criar mercado mais correto e justo, se fode. Desculpem o linguajar. Se queremos mesmo falar em moda ética, em mudar os valores da indústria e o jeito como o sistema funcional, pagar dignamente e de forma transparente seus profissionais é nada além de essencial.

Compartilhe: