É mentira da barata, ela tem é uma só… MODA E FAKE NEWS por Luigi Torre!

Por Luigi Torre

No último sábado (27.01), o “The New York Times” publicou uma matéria bem detalhada sobre um esquema de compra e venda de followers, likes e repostagens no Twitter. Por trás da farsa toda está a empresa Devumi, responsável por gerar mais 3,5 milhões de contas automatizadas, e seus mais de 200 mil clientes. Tem de celebridade de reality show a senador dos EUA, de comentarista da CNN a ator de Hollywood, de influencer a modelo. Mas até aí nada de muito revelador. Quem já não ouviu a história do fulano que teve seu número de seguidores multiplicado às centenas ou milhares após contratar serviços similares? Semanas atrás mesmo, o próprio Twitter comunicou que dos seus 48 milhões de usuários ativos, pelo menos uns 15% são robôs e perfis falsos. Em novembro passado, o Facebook disse ter encontrado 60 milhões de contas falsas na rede. Tá, e o que tudo isso tem a ver com moda? Muito, já que boa parte do que vestimos ou queremos vestir hoje é comunicado e definido pelo que vemos na internet — e muitas vezes em redes sociais.

Pensa bem: se notícias falsas alteram até os rumos de uma eleição, por que não poderiam influenciar, e definir até, o que queremos vestir? Porque é uma escolha pessoal? É mesmo? Ou você só escolheu e achou aquela peça porque um algoritmo calculou que você poderia gostar dela? Ou porque uma marca pagou alguns influencers com milhares de seguidores (falsos ou não) para vestirem aquela roupa e agora só aparece ela infinitas vezes no seu feed? Muito Black Mirror, eu sei. E olha que eu nem sou fã da série.

Um estudo recente do Pew Research Center constatou que é impossível nosso cérebro acompanhar o fluxo de informação que os avanços tecnológicos nos proporcionam. Temos uma tendência natural de preferir o conforto e conveniência. Acontece que já tem muita gente e muita empresa se aproveitando dessa incapacidade em manter o ritmo, para manipular desde acompanhar o caos do mundo digital para manipular todo e qualquer aspecto da nossa vida: da visão política ao gosto musical até o que entendemos como tendência de moda.

Todo mundo, ou melhor, toda grande marca já percebeu que anúncio e estratégica de marketing padrão não vende mais roupa nenhuma. Segundo pesquisa da Deloitte de 2016, 47% dos consumidores de moda disseram se influenciar mais pelo que veem nas redes sociais. Desse número, 72% disseram levar mais em conta postagens de pessoas do que de marcas. O que explica o motivo de muita grife decidiu realocar seu orçamento publicitário para estratégias digitais. Muitas delas, envolvendo influencers, blogueiros e afins. E tudo certo. O que não dá é achar que só por se tratar de um ser humano o intento comercial é outro ou menor. Ainda mais com todos os sabidos esquemas de compra de seguidores e likes.

Nunca fui daqueles que odeiam a internet. Não acredito que o fácil acesso a tudo e todos tenha só nos isolado e nos feito mais solitários. Não concordo 100% com a ideia de que o infinito fluxo de informação contribua apenas para nos deixar mais confusos, ansiosos e ignorantes. Mas nem tudo é um céu de maravilhas em bits & bytes. Um pouco de bom senso, auto-análise e olhar crítico nunca fez mal a ninguém.

Tá confuso? Te explico: é não aceitar de mão beijada tudo o que aparece no seu inbox ou na sua timeline. É pensar e interpretar o que você está vendo, em imagem e texto. É atentar a quem postou, quem assinou, quando e em que circunstâncias. É se perguntar se aquele influencer do look bapho realmente tem algo a dizer. Se sua influência é pura e simplesmente pelo seus altos números de seguidores ou porque seu estilo é de fato interessante, porque sua visão faz diferença ou porque seu discurso é relevante e tem algo a acrescentar. É pensar o que faz sentido para você, para o que você acredita. Conversa chata? Talvez, mas já é um bom começo para não se fazer de trouxa e não virar massa de manobra. Na vida e nos looks.

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