Nesta semana na coluna de Luigi Torre: O CARNAVAL ACABOU, MAS A MODA NÃO PAROU…

Por Luigi Torre

Não sei vocês, mas minhas maiores preocupações na última semana foram colocar e tirar glitter do corpo, descobrir o trajeto do bloco, não morrer, não ser preso e não me apaixonar. Acho que deu certo e a quem interessar possa, foi ótimo. Só que no meio disso rolou a New York Fashion Week e agora precisamos tirar o atraso das modas. Então, aceita o brilho residual do carnaval, pega o seu sal de frutas, senta (e quica devagar se quiser) e cata esse resumão do que rolou de mais importante:

CRISE DE IDENTIDADE
Não é de hoje que a semana de moda de Nova York sofre de uma certa crise de identidade e relevância. Além da Proenza Schouler, Rodarte e Joseph Altuzarra, que debandaram para Paris já na temporada passada, Victoria Beckham e Alexander também anunciaram sua despedida da fashion week nova-iorquina a partir da próxima rodada de desfiles. E com um line-up superlotado tem muita marca achando melhor apresentar suas coleções de outra forma. Muitas delas optaram por chamar compradores clientes e jornalistas para uma apresentação intimista no showroom. Outras preferiram mostrar as novidades por meio de vídeos (como a Monse e a Rag & Bone) ou com um show de música (como a Telfar). Fato é que finalmente está caindo a ficha que desfile nem sempre é a melhor opção para se fazer notado. A menos que vocês seja Raf Simons…

E RAF É REI!
Prova disso é seu terceiro desfile como diretor de criação da Calvin Klein — o último episódio de sua trilogia sobre a cultura e ícones americanos, lembra? Ele falou disso quando estreou na marca, há pouco mais de um ano. Naquele capítulo de estreia ele falava e analisava clínica e profundamente a essência do sonho americano. Era uma coleção e desfile sobre diversidade, sobre possibilidades, sobre novos começos. Mas a trilha dizia que nem tudo eram flores e “This Is Not America”. Aí veio o pesadelo. A segunda coleção era toda sobre a destruição daquele sonho, como nas imagens de Andy Warhol de carros destruídos, como nos filmes de terror.

Agora, num mundo apocalíptico arrasado e ameaçado das mais variados formas e por todos os lados, ele fala sobre sobrevivência, sobre proteção, sobre realidade, sobre ilusão. Começa com o cenário, tipo set de filmagem. Estamos numa fazenda, com celeiros cenográficos, mas com suas fachadas cobertas por imagens de Andy Warhol (a obsessão de Andy pelo cinema é o jeito como Raf analisa a sociedade através dos filmes é uma relação toda especial que merece uma coluna só sobre isso), e o piso está todo coberto por pipoca — mas que nas fotos também imprimem neve, cinza ou até um tipo de espuma química, como aquelas de extintor de incêndio. As roupas são jaquetas de bombeiro sobre vestidos românticos de camponesas com recortes abaixo ou sobre os seios. São maxitricôs com bordados de desenho animado sobre saionas hippies. São ternos meio desestruturados, com formas algo desarranjados. São vestidos e jaquetas prateadas, como os cobertores térmicos ou roupas de astronautas, só que decorados com rendas e pele de ovelha. Tudo com proporções meio oversized, meio fora de lugar, meio desajustado. Meio vida real, mas também não. Ou talvez como a vida real é retratada, exageradamente, pelo cinema, pela televisão — e como isso transforma a vida das pessoas.

Raf pega onde dói, naquilo que todo mundo entende, que é comum, que é facilmente assimilável. E subverte tudo, mostra como o que todos vêem como clichês da cultura americana é, na real, uma ilusão. Uma ilusão existe apenas em imagens transmitidas via satélites para todo um outro EUA que não fica nem na costa leste nem na oeste. Fica no meião, junto com boa parte da população que compõe a América que elegeu Trump, que vive em pânico com imigrantes e muçulmanos e com mais todo tipo de ameaça real ou ficcional que é televisionada. Abaixo, looks do desfile da Calvin Klein.

VOCÊ É SEMPRE ASSIM…
Politizada, né Raf? Mas se essa NYFW serviu para alguma coisa foi para mostrar que na moda não existe jeito certo para nada. Cada um sabe de si e o que é melhor para si. Vide Marc Jacobs que emocionou o povo das modas com um desfile lacre, inspirado na alta-costura — e todo excesso — dos anos 1980. Pense naqueles últimos anos da Yves Saint Laurent, Claude Montana, Thierry Mugler, Christian Lacroix… Pode também pensar em Carolina Herrera no começo da sua carreira, Donna Karan, Geoffrey Beene… E é isso, um desfile basicamente sobre moda. Sobre ombreiras, sobre drapeados, laços e maestria técnica. Um desfile ousado para um estilista e marca que há tempos vem gerando especulação sobre sua saúde financeira e sobre a permanência de seu fundador. O que torna tudo isso mais maravilhoso ainda. Um grande foda-se para os caga-regras do mercado e adequação comercial. Porque a moda é muito mais divertida quando livre. Abaixo, looks do desfile de Marc.

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