O fantástico laboratório da Gucci e seus seres libertários, por Luigi Torre!

Por Luigi Torre

O convite para o desfile da Gucci era uma espécie de bomba-relógio. O cenário, uma sala de cirurgia vazia, apenas com a maca e as luzes de operação. Não havia ali ser humano algum. Se houve em algum momento, já não estava mais lá. Pelo menos não como a gente entende e enxerga um ser humano. Agora ele é meio homem, meio animal, meio máquina. É natural e artificial, real e virtual tudo junto e ao mesmo tempo. É menina e menino, trans, homo, bi e heterossexual. Não tem forma certa, pode ter dois ou três olhos, duas cabeças, chifres e até um bebê dragão de estimação — na verdade, ele pode até parir esse bebê dragão. É um ser híbrido que vive no seu próprio tempo e espaço. É originário de todo e nenhum lugar, conhecedor e praticante de toda e qualquer cultura. Usa burca que vira balaclava, que vira máscara, que vira atadura, que vira acessório de cabeça religioso. Usa terno, vestido de odalisca, jaqueta de baseball, moletom street e vestido de veludo, vestido de princesa medieval. Usa tudo o que quiser e como quiser. Não tem identidade, tem afinidade. Ou melhor, afinidades, no plural.

Alessandro Michele sempre gostou de seres fantásticos. Desde sua primeira coleção para a marca italiana, símbolos religioso, trajes cerimoniais, mais toda iconografia pop que virou culto pós-moderno, serviram de base para seu olhar antropológico sobre como a gente (e nossa sociedade) se relaciona com roupas dentro de determinado contexto cultural. Só que dessa vez o olhar não é só analítico, não é só reflexo, é projeção. Quase como um manifesto por um novo jeito de ver e entender a vida, o mundo, os outros e nossa relação com tudo isso.

Michele começa citando a política da identidade segundo filósofo Michel Foucault. Ele fala sobre como “poderes disciplinadores” nos impõem “identidades fixas” ou conceitos binários para controlar todos os aspectos da vida. Certo ou errado, preto ou branco, homem ou mulher, esquerda ou direita, natural ou artificial, real ou virtual. Depois ele cita o Cyborg Manifesto, da professora de história da consciência e estudos feministas da Universidade da Califórnia, Donna Haraway. Trata-se, resumidamente, de uma tese sobre como os sistemas dominantes, como o patriarcado e o capitalismo, se valem das ideias binárias para se manterem no controle. E sobre como, através da evolução biológica, da ciência e da tecnologia, tudo isso pode e está vindo por terra. É que Haraway se opõe fortemente aos conceitos naturalistas de que as coisas e nós somos como viemos ao mundo. Segundo ela, ciência e tecnologia já nos permitem mudar nossa própria natureza. Podemos ser ciborgues.

Para Haraway, ser ciborgue não tem a ver com bits de silício ou próteses mecânicas em nosso corpo. Tem a ver com a maneira como nossas vidas mudaram por completo quando começamos a industrializar alimentos, tomar remédios, suplementos alimentares, a usar roupas térmicas, tênis esportivo e até a internet. Se o ser humano (e principalmente as mulheres, pois ela aponta que mulheres, assim como outras minorias, sofrem mais com os conceitos binários opressores) não são naturais, mas construídos, como um ciborgue, então, dados os instrumentos adequados, todos nós podemos ser reconstruídos livremente.

Michele fala sobre essa reconstrução através da estética, através da roupa. Seu liquidificador cultural, de estilos e referências ganha aqui todo um novo significado. Mais do que nunca, não importa a origem da inspiração, importa o que ela representa aqui e agora e para quem a veste. Talvez aquele cenário não fosse mesmo um hospital. Fosse um laboratório onde, após a explosão de conceitos datados e conservadores, uma nova espécie possa crescer livre e plural.

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