Paulo Tessuto abre seu baú de looks e sons em entrevista sobre a gritante festa Capslock

“Na época que comecei a Carlos Capslock eu já trabalhava somente como DJ. Mas antes tive diversos empregos diferentes. Trabalhei numa empresa de contabilidade, escola de inglês, como panfleteiro, vendedor da Chilli Beans, da Colcci, barman, modelo de funeral e finalmente corretor de imóveis, que foi o último emprego fixo antes de ficar somente como DJ. Hoje em dia eu produzo a festa, faço a curadoria e direção do selo MEMNTGN (junto com o L_cio), produzo minhas músicas, de vez em quando faço umas jaquetas e coletes punks pra sair um pouco do meu mundinho”. Este é Paulo Tessuto, o responsável pelo projeto eletrônico mais vibrante de São Paulo nos dias de hoje. A montação em níveis nunca antes vistos, gritando modernidade na cara dos caretas. Segue lendo que tem mais…

Casa de Criadores – Como surgiu a festa Capslock e seu pseudônimo?
Paulo Tessuto – Assim como tudo que a Carlos Capslock propõe com suas intervenções culturais, surgiu de maneira orgânica, espontânea e despretensiosa. Estava num chill out entre amigos e decidimos criar um personagem para cada um. Ele deveria conter a mesma letra inicial de nome e sobrenome. A minha criatura foi o Carlos Capslock, que estava junto a grande elenco de renome como Vanessa Vulto, Newton Newsletter, Shiva Shift (que posteriormente virou a namorada do Carlos Capslock, mas eu perdi a senha do perfil dela no FB e do email também…

Casa de Criadores – A que você atribui o sucesso da festa?
Paulo Tessuto – Ah, é difícil identificar um fator crucial para o sucesso da festa, foram tantas coisas que a gente experimentou e instituiu ao longo desses 7 anos. Mas uma coisa que sempre me chama a atenção é com certeza os artistas que trabalharam e trabalham com a gente nas nossas ações. Perseverança e autenticidade também devem ter dado um bom empurrão pois foi um caminho longo e árduo. Quando a gente começou tinha uma, duas festas que seguiam essa logística de produção por mês e nem eram de música eletrônica (fora a Caps). A gente não sabia direito o que estava fazendo, fomos aprendendo tudo na raça. Hoje você tem às vezes 5 festas desse formato num mesmo dia, às vezes 6, 7 num final de semana. Muita coisa mudou, mas o modelo está aí e está sendo seguido e isso é muito gratificante. Ver também como o movimento se espalhou pelo Brasil. Todas as festas que começaram depois da Voodoo foram cruciais para essa expansão.

Casa de Criadores – O que a gente só vê na Capslock?
Paulo Tessuto – A nossa comunicação é muito bem amarrada, o tema conversa com a cenografia, com os performers, com a estética do público, com o material impresso, estamos ali construindo um grande ato sócio-político-econômico-cultural. Tenho recebido muito feedback do público a respeito do clima da pista, da festa como um todo. As pessoas se sentem em casa na Carlos Capslock. Você pode ir sozinho e sai da festa cheio de novos contatos e quem sabe até colegas que vão se tornar grandes amigos.

Casa de Criadores – Vocês tiveram a presença do DJ Hell. Foi o primeiro grande convidado especial?
Paulo Tessuto – Foi maravilhoso em primeiro lugar porque o Hell pesquisou sobre nós e me escreveu avisando que gostaria de fazer parte. Ele estaria no Brasil e definitivamente essa era a festa que ele gostaria de tocar. Um cara com uma bagagem como a dele, me escrevendo…você pode imaginar como eu fiquei né… tipo, sensação de missão cumprida. Não foi o primeiro não. A gente trouxe pela única vez no Brasil o Pachanga Boys, trouxemos também o Alexander Robotnick, Andy Blake, Isolee, Sebastian Voigt, Virginia, Ryan Elliott, Gui Boratto, Axel Boman e por aí vai.

Casa de Criadores – Quais suas impressões do DJ Hell? Diz que ele gosta muito do Brasil, né?
Paulo Tessuto – Ele é uma pessoa com ideais raros de encontrar hoje em dia. Pensa na cena como um todo, como seu comportamento vai impactar os eventos ao seu redor, quis saber tudo sobre a nova cena de São Paulo. Saímos para um tour das artes em SP. Um artista completo. Ele adora o Brasil, já veio mais de 30 vezes.

Alex Honda

Casa de Criadores – Os personagens da Capslock são os mais montados hoje em São Paulo…
Paulo Tessuto – A gente sempre teve uma preocupação em inserir as trans e as drags na nossa cena. Começamos com isso em 2011 só que a gente fazia de uma maneira diferente. Mais “old school”. Após o final de cada set tinha uma performance de alguma trans ou drag. Muitas passaram por ali: Marcia Pantera, Vitcoria Principal, Bianca Exótica, Zezé Araújo, Michael Love… Paralelamente a gente tinha a performer residente que era a nossa musa: Glamour Garcia. Ela, já fazia performances mais interativas com o público e que eram mais parecidas com atos teatrais. Tivemos também experiências mais excêntricas como o Sadomusiquismo do Daniel Fagundes e as performances das edições do Festival Pop Porn (a gente fez algumas festas com eles). A partir de 2014 a gente começou a ter as performers residentes: Alex Honda, Elloanigena Onassis, Ronalda e recentemente a Euvira entrou pro time também. A gente também faz um rodízio de performers pois tem muita gente nova aparecendo. No ano passado trabalhamos com muitos outros artistas através do grupo Coletividade Namíbia. Um grupo de artistas negros que está abalando São Paulo. Se você ainda não conhece, precisa conhecer! Muita gente foda e que faz acontecer.

Casa de Criadores – O que se toca na festa? Fale um pouco do som, suas particularidades.
Paulo Tessuto – Eu toco em geral techno e house. Porém não sou muito apegado a sets de um único estilo. Quando vou pra Caps em monto meu case de vinis e sempre tem umas coisas loucas no meio tipo funk, breaks, disco, stoner rock. Sempre dar pra tocar uma música no final ou até no meio pra quebrar totalmente o paradigma da pista ou até mesmo usar somente um sample de um pedaço de alguma música filtrado para deixar todo mundo louco pra saber de quem é aquele remix que na verdade não existe, é criado ali na hora.

Casa de Criadores – Você se monta pra festa, né? Onde arranja esses looks? Fale sobre seus figurinos.
Paulo Tessuto – Me monto sim. O personagem sempre foi montado. Ele evoluiu. Antes ele era nerd, andava por aí com um teclado/guitarra e uns óculos sem lentes, livro de química, auto-ajuda, uma pochete cheia de surpresas toscas e nonsenses e fazia piadas, depois começou a fazer body paint, desenvolver jaquetas punk e finalmente virou Drag no Cine Marrocos na festa Despedida De Solteiro. Em geral a montação é uma mistura da boa. Algumas coisas eu compro por aí, outras eu pego no acervo da Ronalda, minha mãe Drag, alguns looks são desenvolvidos pelo ultra talentoso Alex Honda (que também tem a sua marca de roupas) e eu completo com meus acessórios. E por falar em acessórios, o Felipe Chianca também vem criando muitas coisas que eu acabo usando. Todos os figurinos têm uma tem uma mensagem muito forte por trás. A maquiagem fica a cargo do Dario Bion.

Casa de Criadores – Indica alguns DJs legais pra gente ouvir em casa pra pegar esse espírito Capsock.
Paulo Tessuto – Eu indicaria pra vocês todos os nossos residentes. Temos muita gente boa ali: Paco Talocchi, Ella de Vuonno, Max Underson, Shadow Movement. Fora da Caps eu indicaria o DJ RHR, Peak & Swift, Skatebard, Ryan Elliott, Steffi. São tantos…

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