Bruno Passos: de dono de marca de moda masculina a super talento da pintura. Aqui, um bate-papo!

Não precisam mais do que três telas de Bruno Passos para sentir que o cara é fera no que faz. E faz há poucos anos, o que é mais surpreendente ainda. Nesta entrevista, a gente entende como ele passou de dono de marca de moda masculina para pintor em ascensão e recebe dicas legais do artista envolvendo o mundo da pintura. Continue lendo…

Casa de Criadores – Conte sobre sua marca, a Conto Figueira, e pouco de sua formação.
Bruno Passos – “Sou dono da Conto Figueira, ao lado da minha sócia, esposa e carregadora de piano, Camila Simielli. Sou formado em Moda pela UEL e há dez anos vim tentar a sorte na cidade grande. Na época encontramos um gargalo de camisas sociais para jovens e um mercado de venda online a ser desbravado.  Embora com um capital bem limitado, nossa aposta em um crescimento orgânico se provou correta e nos tornamos o que almejamos, uma empresa pequena, sólida, que preza pela ética e que se propõe a atender as pessoas como gostaríamos de ser atendidos. Na moda, estamos acostumados a medir o sucesso baseados no tamanho de uma empresa ou na exposição de mídia que ela recebe. Pois bem, não sou assim, sou fã das métricas nanicas, de poder passar as manhãs com minha mulher, de surpreender um cliente respondendo seu email na mesma hora com uma solução, ler um gibizinho antes de dormir. Adoro nossa pequenez.”

Casa de Criadores – Como e quando começou a pintar e quando sentiu que seria pra valer?
Bruno Passos – “Cinco anos atrás, num livro do Matisse, encontrei a descrição das sensações que o pintor sentia ao criar seus trabalhos. Fiquei maravilhado com a possibilidade de poder sentir o mesmo, na semana seguinte comecei a pintar, no mês seguinte chegava do trabalho todas as noites e mergulhava nas tintas, mais um mês e meus fins de semana também estavam tomados. Dois anos depois já seria meu trabalho integral e hoje me tornei mais pintura do que gente. Foi parecido com aquele filme, ,A Mosca, só que menos gosmento. Despertei o Jeff Goldblum que há em mim. Nunca encontrei o momento em que “se tornou pra valer”, posso dizer está mais para um processo semelhante à fome. Me diga você, desde que começou a comer, em que momento você sentiu fome? Pintar, para mim, é igual a comer, eu não sei se é esta a razão da minha existência, mas todo dia antes do almoço eu apenas quero me empaturrar.  Não é minha mente que diz, nem meu coração, é minha barriga.”

Casa de Criadores – Você se tornou assistente de um importante artista…
Bruno Passos – “Pintei, por dois anos consecutivos, ao lado do maior pintor clássico vivo, Odd Nerdrum. Tive a honra de ser o primeiro brasileiro aceito por ele e durante os meses que passei em seu estúdio, num canto perdido da Noruega, me deparei com imagens tão fortes que até hoje me trazem felicidade genuína quando aparecem em minha mente. Infelizmente tendemos a achar que ao encontrarmos um quadro na internet, estamos realmente vendo a pintura. Que nada! Uma pintura realmente boa, vista ao vivo, pode nos revirar as entranhas, esquentar as virilhas, pacificar nossa respiração. Nerdrum é um mestre, me ensinou muito e também confirmou meus instintos sobre a única característica inerente a todas as grandes pinturas, a sinceridade. Pode parecer óbvio, mas uma pintura feita com o intuito de agradar, fará pouco mais do que combinar com a cor do sofá da sala. Não importa o que você pinte, um vaso, uma mão, a Morte, o único requisito é que se esteja apaixonado.”

Casa de Criadores – Conte sobre os prêmios que já ganhou com sua arte.
Bruno Passos – “Comecei ainda com a Conto, quando fui selecionado para a Bienal do Design Brasileiro. Já com a pintura, meus primeiros prêmios foram em Salões de Arte pelo interior de São Paulo, que depois culminaram na premiação, por três vezes consecutivas, no Salão de Belas Artes mais concorrido do Brasil, SBAP, em Piracicaba. Posteriormente, fui premiado dois anos seguidos pelo voto popular, no concurso internacional do World Wide Kitsch, realizado em apoio com o Nerdrum Museum.
Este ano será o primeiro em que não participarei de Salões, estou focando toda minha energia em minha primeira exposição individual. É um projeto bem bacana, muito em breve poderei falar mais a respeito.”

Casa de Criadores – Como é sua rotina entre arte e moda.
Bruno Passos – “Embora eu ainda seja a imagem por trás das criações da Conto, hoje é a Camila quem desenvolve todas as peças, trocamos os lugares, a cada três meses é ela que me mostra as criações e eu passo minhas impressões a respeito. Por sempre estar por dentro de todos os processos, tanto comerciais quanto criativos, posso dizer que ela vem desenvolvendo um trabalho melhor que o meu, estamos muito mais alinhados no âmbito de atender os anseios dos clientes do que estávamos 4 anos atrás. Já sobre a pintura, não existe possibilidade alguma de ser um pintor profissional e não trabalhar de modo integral, no mínimo seis dias por semana. Chego no estúdio as 13hs e retorno pra casa, todos os dias, 1 da manhã. Nos dias em que a pintura vai mal, tenho dificuldade de dormir e fico muito mal humorado. Quando vai bem, me sinto apaixonado pela vida. Neste quesito, não consegui escapar de ser um clichê.”

Casa de Criadores – O quanto de técnica e estudo você tem e o quanto de intuição?
Bruno Passos – “Credito boa parte do que tem acontecido ao fato de eu ser extremamente focado. Sou a pessoa mais obstinada que eu conheço, com exceção, talvez, do Cristiano Ronaldo. Parece piada, mas não é, me espelho muito em seu comportamento profissional. Quando tudo vai mal, quando estou achando que não consigo fazer melhor e penso em parar, sempre me vem a cabeça a pergunta, o que Cristiano faria? Então encho minha caneca de café, dou um gole na gastrite e sigo até, literalmente, não aguentar mais ficar em pé. Tem 100% de técnica e 100% de intuição. Explico, na pintura, toda a parte poética, sensível e emocional vem na concepção, quando se olha ou se imagina algo suficientemente potente para que este algo valha o suficiente para durar mais do que a mim mesmo. Feito isso, é hora de ser frio, preciso e ter o máximo de domínio de todas as ferramentas pictóricas para que seja possível tornar real a intensidade do que foi sentido instantes atrás. Pintar com a emoção em alta seria o mesmo que fazer contas com o pau e, por outro lado, escolher um motivo de pintura com o raciocínio é tão ruim quando fazer sexo tentando combinar posições com antecedência.”

Casa de Criadores – Quais são seus novos projetos em relação à arte?
Bruno Passos – “Sempre o mesmo, melhorar meu domínio técnico para poder fazer com que outros percebam a potencia das coisas banais. Que sintam o vento, o gelo da água, o calor de um corpo, o carinho de um olhar. Aprendi a usar minha visão de modo que todo dia acabo por encontrar algo trivial que merecia ser eterno, espero ter a capacidade para traduzir estes momentos e fazer com que outras pessoas sintam o mesmo.”

Casa de Criadores – Seus assistentes estão indo muito bem também, certo?
Bruno Passos – “Dois anos atrás, quando aluguei meu primeiro estúdio, comecei a dar aulas um dia por semana para pagar o aluguel. Embora as pessoas fossem ótimas, odiei a experiência. Eu gastava muito energia passando tudo que sabia e, na verdade, os alunos só queriam dar uma apaziguada no espírito. Era como se eu fosse um vendedor de Tênis de corrida e só encontrasse pessoas atrás de travesseiros na minha loja. Nada contra travesseiros! Tenho até amigos que são, mas eu nasci para vender tênis. Então dois meninos (17 e 20 na época) me acharam pelo instagram e me disseram que gostariam de se tornar pintores. Finalmente eu tinha achado alguém que queria comprar tênis! Embora eu prefira passar os dias da semana sozinho, eticamente era necessário que eu passasse meu conhecimento a eles, pois se invertêssemos nossos lugares, iria querer que fizessem o mesmo comigo. Então fizemos um acordo e definimos metas, se elas fossem alcançadas eles poderiam continuar frequentando e aprendendo no estúdio. Os ordinários cumpriram todas, agora vejo mais esses moleques do que minha própria mãe.”

Casa de Criadores – Para quem quer se aventurar no mundo da arte, quais suas dicas prática e conceitual?
Bruno Passos – “A dica conceitual que julgo mais importante é extremamente simples: pinte o que te dá tesão. Não importa o que seja. Mestres entraram para a História pintando reis, maças, guerras e vasos. O que fez suas obras perdurarem por tanto tempo foi a honestidade com que aceitaram retratar aquilo que os movia. Para o conselho prático: não adianta você reclamar do cenário artístico do Brasil se você não é um pintor profissional. Ninguém se proclama profissional em algo que não faz de modo integral, porque seria diferente com a pintura? E um segundo conselho prático: respeite o tempo, não existem atalhos na pintura. Ter um estilo antes de saber sequer desenhar um crânio de cabeça não é personalidade, é camuflagem de erros.”

Casa de Criadores – E a relação entre arte e moda?
Bruno Passos – “Não percamos tempos hierarquizando nomenclaturas. Roubando uma citação antiga: a vida deve ser vivida como obra de arte. Façamos o que façamos, que seja com nossas tripas.”

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