Gucci, Vetements, Balenciaga, Saint Laurent? Uma blusa é uma blusa é uma blusa…

Por Luigi Torre

Repetição é um assunto complicado na moda. Repete demais e fica chato, repete de menos e fica sem identidade. O ponto exato de equilíbrio ninguém sabe. Desconfio até que não exista com tamanha precisão. É algo que muda de acordo com o humor das pessoas, do mercado, dos tempos. Ou vai de caso a caso. Tipo a Gucci. Desde que Alessandro Michele assumiu a direção criativa, a imagem é basicamente a mesma: aquele liquidificador de referências e estilo maluco, que faz bastante sentido para nosso momentinho de mundo. Só que antes dele, quando era Frida Giannini a estilista responsável, a imagem também pouco mudava, mas não encantava tanto. Não tinha a mesma relevância. Talvez seja esse o segredo: relevância. Ninguém se importa em ver quase a mesma coisa desde que faça algum sentido para o aqui e o agora, desde que comunique algo que contribua para um discussão ou contexto maior. E desde que dê dinheiro para o seu o chefe.

Na última segunda-feira (19/03), amanhecemos com a notícia de que o estilista Kim Jones (ex-designer masculino da Louis Vuitton) substituirá Kris Van Assche, então responsável pela Dior Homme. Van Assche estava há pouco mais de dez anos no cargo e vinha desenvolvendo um trabalho bem interessante ao reler para o mundo do homem de hoje alguns códigos essenciais de Christian Dior, como o New Look, a paixão pelas flores, os laços. Mas a imagem não gerava tanta notícia. Pouco se falava a respeito desses estudos e do quanto o estilista realmente contribuiu para mudar a representação masculina por meio da moda. E o que era consistência imprimiu como repetição — e não à boa, a que chateia e entedia.

Arte de Daisuke Takakura

Ao longo da história da moda, repetição sempre foi sinal de que era hora de mudar. Quando muita gente começava a copiar o que uma pequena elite usava, era sinal de que aquelas roupas já estavam ultrapassadas e um novo estilo precisava ser adotado. E é assim até hoje. A diferença é que a gente não troca apenas de tendência, mas também de estilista. E tudo bem, por mais genial que um designer possa ser, sempre há um momento em que sua criatividade se esgota. O próprio Yves Saint Laurent, por exemplo: seus últimos anos de trabalho são uma longa repetição de ideias datadas. Só acho que estamos dando pouquíssimo tempo para que nossos estilistas esgotem suas ideias e potenciais.

Talvez não há haja mais tempo nem dinheiro para esperar que uma boa ideia, uma boa coleção vingue e dê algum mínimo lucro. Talvez ninguém mais se importe com boas ideias e boas coleções. Talvez, por isso mesmo, as marcas que têm se mostrado mais saudáveis em termos de vendas, negócios e estrutura são aquelas que prezam pela continuidade de ideias e pela sutil manutenção de imagem. Gucci, Vetements, Balenciaga, Saint Laurent. Temporada após temporada, pouco muda na passarela. As vezes é um cenário, um novo elemento de estilo, um novo acessório… Mas a silhueta, as propostas, as peças são quase sempre as mesmas.

Arte de Daisuke Takakura

Não faz muito tempo, os desfiles mais aguardados eram aqueles que mudavam drasticamente de uma estação para a outra: Prada, Marc Jacobs, Balenciaga na época do Nicolas Ghesquière. Essas grifes hoje já não fazem tanto sucesso. Sim, ainda importam, ainda são influentes e, às vezes, responsáveis pelos comentários e visões mais relevantes de uma temporada. Mas perderam espaço — e likes — para essas outras citadas acima.

E todo mundo parece ok com isso. Pode ser sinal dos tempos mesmo. É tudo tão inconstante, tão acelerado em nossas vidas que, de repente, a gente quer mesmo é um pouco mais de constância no nosso guarda-roupa. Afinal, roupa não é como a gente se define e se apresenta pro mundo? Melhor a gente ter certeza de quem a gente é em meio a tanta efemeridade. Mas será que isso não tolhe a criatividade? Não é uma sacada marketeira para vender mais do mesmo?

E aí vale olhar mais para perto e perceber como isso afeta marcas mais jovens e próximas da nossa realidade. Todo estilista quer uma identidade bem definida e uma seleção de produtos que todo mundo reconheça como sendo seu. É um passo importante, mas não é o único. Se propor a ousadias e exercícios criativos maiores é tão importante quanto. Só que quando a repetição parece ter vencido a inovação, dá um certo medinho. Se toda coleção for composta de pequenas variações de cores e estampas sobre o mesmo moletom, a mesma jaqueta, a mesma calça, o que isso agrega de novo ao seu consumidor e a sua marca? Só mais uma brusinha.

Arte de Daisuke Takakura

Vivemos em tempos bicudos, de dinheiro escasso e vontade de consumir mais ainda. Ninguém está a fim de gastar com o que não precisa ou com o que não faz a diferença na sua vida ou guarda-roupa. Nossas marcas, em sua grande maioria, parecem presas numa inércia criativa e de negócios que mantém a roda girando, mas quase parando. Se a gente quiser realmente sair do lugar, talvez seja hora de pensar um pouco além, aceitar alguns riscos e dar um passo que, sim, pode ser maior que a sua perna, mas pelo menos vai te tirar do lugar onde você está parado há anos.

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