Luigi Torre: “Corra que a moda vem aí, protegida e nada conformista. Vem ler a coluna!

Por Luigi Torre

John Galliano disse que pensou no inverno 2018 da Martin Margiela enquanto se vestia para passear com o seu cachorro de madrugada. Os looks que eu uso para passear com o meu pela manhã não são, assim, muito convencionais (sério, vocês ficariam surpresos, com make e cabelo também), mas não chegam a tamanha criatividade. Porém, dado meu estado panicado e minha dramaticidade sagitariana em relação à vida e ao mundo atualmente, bem que gostaria de sair embalado por camadas de náilon, vinil e plástico.

Sim, o mundo está um caos e a moda já percebeu. Algumas das melhores coleções desta temporada falam sobre isso. Se não exatamente sobre o fim do mundo, sobre como podemos nos proteger, resistir, sobreviver e criar uma nova realidade. Pensa comigo, na Calvin Klein tinham as jaquetas de bombeiro sobre vestidos românticos de camponesas. Tinham também os gorros/balaclavas de tricôs. Eles foram inspirados no filme “Safe”, do Todd Haynes, de 1995, em que Julianne Moore interpreta uma americana que vive sob constantes ameaças – físicas, psicológicas, reais e até irreais.

Na Prada, os coletes de náilon serviam como uma espécie de armadura para as mulheres delicadas e intensas que vinham cheias de energia e cores por debaixo deles. Miuccia (to íntima já) usa uma metáfora de uma garota voltando para casa sozinha pela rua, após uma noite de festa – livre, sem medo, pisando forte. O perigo mora ao lado, mas não dá para viver em cárcere privado. Fervo também é resistência, foi até assunto de coluna aqui. A mensagem é a de luta pela crença e insistência na liberdade e no não conformismo, não a de batalhas polarizadas.

E aí entra outro tema nevrálgico: o fim da ideologia e pensamento binário. No caso Prada, ela se refere aos extremos que convivem em constante tensão no corpo feminino, a ideia de força e fragilidade, por exemplo. Mas pode bem ser toda e qualquer noção antiquada que opõem uma coisa a outra, como se não existe um meio termo ou a possibilidade de coexistência. É um ou outro, nunca os dois, nunca uma hora, um outra hora o outro. E o desfile da Gucci, assunto da coluna da semana passada, foi um grande manifesto contra esse tipo de pensamento. Foi uma ode a tudo que é trans, a tudo que é livre.

É que moda é muito mais interessante e desejável quando fala o que a gente sente, o que a gente vive. Mesmo quando é puro sonho, daqueles que precisam de meses de economia para se realizar. “Ah, mas é um produto para poucos”. É mesmo, mas ideias não tem preço e pegam mais do que qualquer tendência. Depois de algumas temporadas insossas, apáticas e pouco reativas aos acontecimentos do mundo, parece que vídeo da tia Suzy, aquele que ela lembra que não se dorme na Europa, finalmente chegou nas marcas de luxo. Vamos agir, hein?

 

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