NEM TODA MODA É POLÍTICA, E TUDO BEM… Luigi Torre e as pegadas da Semana de Moda de Paris!

Por Luigi Torre

No Dia Internacional da Mulher, muito se falou sobre o papel da moda na representação feminina na sociedade e do papel das roupas na forma como a mulher se relaciona com o mundo e com ela mesma. Na última terça (06.03), a Semana de Moda de Paris encerrou uma temporada de desfiles em que decodificar e redesenhar o guarda-roupa dessa mulher estava entre as principais preocupações na cabeça de muito estilista.

Longe de mim advogar pela alienação, mas após quase um mês de desfiles, deu uma saudadinha de quando a moda não precisava desesperadamente opinar em temas políticos e causas sociais. Eu sei que você já leu aqui colunas que falavam o exato oposto: de como a moda estava, finalmente, se importando com esses assuntos. Mas atenção: não significa necessariamente ter que falar sobre eles e incluí-los em seu desfile.

Quando a camiseta com slogan feminista aparece em toda passarela, quando o novo uniforme de trabalho de mulher é a principal tendência, quando peças que cobrem quase todo o corpo se mostram como a única resposta possível à objetificação do corpo feminino, é difícil separar o joio do trigo. Em outras palavras, apontar quais discursos são verdadeiros e genuínos e o que é discurso marketeiro para vender mais brusinha (e as custas de nobres causas).

O mundo já tá um caos. Todo dia é uma cacofonia de sofrências e problematizações (muitos deles válidos) ensurdecedora. E ok, é importante ouvir, é importante pensar sobre e mais ainda falar sobre — desde que se tenha algo a dizer. Se não tiver, TUDO BEM. É um pouco esse o pensamento com a moda. TUDO BEM só falar de moda, TUDO BEM ser só roupa. TUDO BEM se preocupar com o fazer, com o tecido, com a cor, com a peça que ninguém consegue parar de pensar.

Nesta mais recente leva de desfiles, algumas das melhores coleções foram justamente as que se permitiram. Se permitiram ser leves, se permitiram explorar outros assuntos, se permitem ser frívolas e até se permitiram a falar de assuntos corriqueiros. Tipo Nicolas Ghesquière, na Louis Vuitton, fazendo referência ao terninho burguês que muita gente usou e ainda usa para trabalhar e TUDO BEM.

Tipo Jonathan Anderson, da Loewe, com aquele arsenal de roupas extremamente chics, que era essencialmente sobre aproveitar a vida nelas. Tipo a Undercover, explorando o jeito como gente jovem se veste, ou Junya Watanabe com suas propostas punk e grunge. Tipo a Valentino em toda sua exuberância luxuosa ou, mais ainda, tipo a Balenciaga, do Demna Gvaslia, que elevou o fazer de roupa ao futuro com as peças moldadas com scanner 3-D.

Moda é essencialmente sobre representação e auto-representação. Nossas roupas são como nos apresentamos para o mundo e como nos relacionamos com todo mundo que está nele. Mas talvez, nesse frenesi de discussão e ebulição social, talvez a moda esteja querendo se auto-representar demais como uma entidade politizada. Só que quando a gente fala em política, ações falam mais alto do que aparências. E, nesta parte, a moda precisa correr muito atrás. Mas isso já é assunto para outra coluna…

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