O novo teatro, a velha TV e o cinema que quer se encontrar em entrevista com Dionisio Neto

Este site gosta de ouvir artistas que bebem do passado para transformar o futuro. “O mundo não começou ontem”, diz Dionisio Neto, com quem a gente conversou sobre teatro brasileiro, esfera que ele domina bem, mas também aproveitamos para pegar dicas de literatura e discutimos TV e cinema. Um pouco da trajetória do ator e dramaturgo para começar? “Carandiru”, “Carandiru – Outras histórias” (série da Rede Globo) e “Meu Amigo Hindu, todos de Hector Babenco, novelas “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro sob direção de Ricardo Waddington, e “Morde e Assopra”, de Walcyr Carrasco sob direção de Rogério Gomes, as peças “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade sob direção de Antunes Filho, “Ham-let”, de Shakespeare sob direção de José Celso Martinez Corrêa e o curta “Dramáticos Demais”, sob direção de Ivan Feijó. E isso é pouco, como a gente vai descobrir do decorrer desta entrevista. Ah, e um belo drama é inevitável neste Brasil…

Casa de Criadores – O teatro está em crise?
Dionisio Neto – O teatro sempre esteve em crise, desde os primórdios. Estou lendo o livro “Minha Vida na Arte”, de Stanislawsky, e ele no século 19 fala o tempo todo da crise do teatro. O teatro adora um divã. Talvez o teatro seja o grande divã da humanidade e por isso jamais sairá da crise. Como o teatro é espelho do seu tempo, o zeitgeist é de crise. Contudo há grandes obras no mundo. A MIT vem trazendo grandes expressões do teatro mundial para cá. Conversei há dois anos com o diretor alemão Thomas Ostermeier, após uma palestra que ele deu no Instituto Goethe e ele me disse que tem planos de trazer toda a sua obra para cá. Na minha opinião ele é um dos maiores diretores em atividade no mundo. Meu primeiro texto – “Perpétua” (publicado no meu primeiro livro de peças teatrais – “Cinco Peças” (Editora Giostri) – está sendo produzida em Berlim pelo Acker Stadt Palast sob direção da alemã Beatrice Murman, com a atriz brasileira Anette Naiman no elenco e um ex-bailarino da companhia da Pina Baush. Há muitas companhias excelentes no Brasil, há um trabalho de excelência sendo feito em todas as regiões brasileiras. Infelizmente o teatro é para poucos, em comparação com o futebol e o carnaval, é para connesseurs, assim como o cinema. Poucos e bons interessados nesta milenar, difícil, pouco reconhecida pelas massas e extraordinária arte que coloca o homem em frente ao homem com singular maestria.

Casa de Criadores – O teatro e cinema estão na mira dos conservadores. O que pensa sobre isso?
Dionisio Neto – “Acredito que na história da humanidade sempre existiram pessoas contra tudo, acontece que elas não tinham voz, mas com a internet toda e qualquer pessoa pode se manifestar e ter repercussão. Os cães ladram e a caravana passa belíssima.”

Casa de Criadores – Em todos os períodos difíceis da nossa historia a arte lutou, resistiu e criou grandes movimentos…
Dionisio Neto – O Brasil vive seu pior e mais tenebroso momento desde a ditadura militar. Eu nasci em 1971, nunca tinha visto nada parecido com o horror de nossos tempos. A minha vontade de sair daqui é diária. Sinto-me como um hamster correndo em uma roda, sem sair do lugar. Nosso país tem a melhor terra e o melhor povo do mundo, mas falta educação de base e cultura para o povo. A classe média pensa que é elite e não é. Elite é quem detém os meios de produção, como banqueiros, industriais, latifundiários e megaempresários. A classe média acha que porque viaja de avião e tira férias uma vez por ano é marajá. Não é. Mal sabe ela que está sendo manipulada para trabalhar de graça para a elite econômica, que ri dela. Isso é Shakespeare puro! É uma tragédia! A grande Arte sempre será de ponta, sempre apontou novas direções. Sinto que viveremos uma grande onda coreana e uma outra grande onda árabe em todas as manifestações culturais, para além da hegemonia americana e europeia. A globalização é cada dia mais inevitável. A Arte é luz nas trevas. A Arte é uma necessidade da nossa espécie, desde as cavernas, nunca irá morrer. Só quando a humanidade se extinguir.

Casa de Criadores – Então vamos ao teatro. Indique algumas peças pra gente.
Dionisio Neto – A atriz Anette Naiman está fazendo um belo trabalho no seu Teatro Garagem em São Paulo. É um charmosíssimo teatro de bairro, desses que quase não existem mais. A Juliana Galdino e o Roberto Alvim fazem um belíssimo trabalho no Club Noir, na Rua Augusta, o Leonardo Medeiros leva seu Teatro da Rotina também na Rua Augusta com excelente programação. Há muitos teatros pequenos, fora do circuito Sesc em São Paulo. São lugares de resistência cultural em todos os sentidos. Sempre que vou a estes teatros tenho experiências fortes, inesquecíveis. Sou fã do trabalho do Francisco Carlos e do Zen Salles, dois dramaturgos que admiro muito. Recentemente assisti ao espetáculo “Boca a Boca”, de Gregório de Mattos, com o ator do teatro Oficina Ricardo Bittencourt. Ele junta a poesia de Gregório, o seu teatro e o rock em um encantador recital. Há muita vida no underground teatral paulistano, que por precariedade de recursos não chega ao mainstream. E há muito mainstream grotesco, paradoxalmente. É preciso curiosidade para encontrar boas peças. Sempre há surpresas em todas as temporadas. A atriz Bete Coelho, de quem sou fã desde “Eletra” com Creta, e que tive o privilégio de dividir o palco no meu “Opus Profundum”, no Guairão em Curitiba e nos Reis do iê-iê-iê está em cartaz no Teatro Oficina com uma peça nova. Gosto de ver tudo o que ela faz. O Brasil é um país de grandes atores. A maioria deles não está na TV. Está no teatro. Paradoxalmente acredito que quanto mais a tecnologia se desenvolver, mais o teatro será necessário, pois ver um ser humano em carne e osso em um palco será cada vez mais extraordinário. Ironia dos tempos sombrios.

Casa de Criadores – E sobre literatura, o que você tem lido atualmente?
Dionisio Neto – Li o fabuloso “Sapiens – uma breve história da humanidade”, de Yval Noah Harari. Li “A construção da personagem” e estou terminando “Minha vida na arte”, de Stanislawsky. O próximo que lerei será “A glória e seu cortejo de horrores”, da minha querida amiga Nanda. Em muitas de nossas andanças eu a ouvi pronunciar essa frase, que por sua vez veio da mãe dela. Fui no lançamento histórico no Teatro Oficina, é maravilhoso o que ela está fazendo com a nossa Literatura. Li também um maravilhoso conto do Franz Kafka, “O veredicto”, e comecei a escrever uma peça nova que será publicada no meu terceiro livro de peças a ser lançado ano que vem pela Editora Benfazeja. Um solo sertanejo chamado “Sertânia”. A cidade onde Walter Salles filmou parte de “Central do Brasil”. Eu sempre quis interpretar um jagunço. É chegada a hora. Misturei o conto do Kafka com “Morte e vida Severina” do João Cabral de Melo Neto, em sua forma de versos. Comecei a escrever no dia da condenação do Lula. Quero dialogar com o meu país de hoje e com a grande Literatura da Humanidade.

Casa de Criadores – Você entrou recentemente em numa questão importante sobre o uso de não atores no cinema. Gostaria de falar mais sobre isso?
Dionisio Neto – Antunes Filho sempre me disse que ser ator é mais difícil que ser campeão mundial de tênis. Ele tem razão. É preciso, para além do talento, muito estudo, muita disciplina, muita dedicação. A televisão fomentou durante décadas a ilusão do estrelato. Atualmente a TV vive uma crise tremenda por causa da internet. Cada ponto de audiência é comemorado como vitória em final de copa do mundo. O público está migrando para a dispersão da internet e suas milhares de opções. Agora o estrelato pertence aos youtubers. Ser ator é um ofício nobre e foi muito banalizado. No cinema brasileiro houve uma onda de trabalhar-se com “não-atores”, um resquício do neo-realismo italiano. No cinema pode até funcionar porque filma-se, edita-se e pronto. Isso não quer dizer que o tal do “não-ator” tenha virado ator. Antunes também sempre me dizia que é preciso uma vida inteira para formar-se um ator. Esta profissão está cada vez mais precária no Brasil, com cachês risíveis. Os grandes contratos da TV podem ser contados nos dedos. Há muita ilusão e muita frustração. Muitos “não-atores” que eventualmente são lançados ao estrelato repentino e que não têm formação para manter-se na profissão caem no crime, suicidam-se. Há muitos exemplos trágicos. De Pixote ao Ravi. É uma tragédia. No meio teatral, entre os atores virou uma piada cafona essa de trabalhar-se com “não-atores”. Nossa arte é dificílima. Para parecermos banais temos que nos dedicar de corpo e alma ao ofício. Cacilda Becker, Dulcina, tantos atores dedicaram suas vidas para que nossa profissão fosse regulamentada, são tantas conquistas que temos que conseguir para que entendam que somos profissionais assim como um engenheiro, um arquiteto. Não é a fábrica de chocolate. Não é um show de calouros. São vidas humanas. E como diz brilhantemente Macbeth: “o difícil não é conseguir, o difícil é manter.” É preciso muita delicadeza no trato com atores. Esta banalização é ridícula. Agora a publicidade está em uma onda de valer-se de “pessoas reais” em seus produtos. É a louvação da mediocridade. Stanislavski, Demidov, Stella Adler, estão todos revirando-se no caixão. De rir. O mundo não começou ontem.

Casa de Criadores – O cinema nacional parece viver um boom interessante…
Dionisio Neto – O grande cinema está morrendo. Eu tive a alegria de filmar em 35mm com Hector Babenco. Não se trata de saudosismo, mas há muita diferença, sobretudo no artesanato da obra. Em “Carandiru” filmamos um minuto por dia. Foram três meses. O digital trouxe a rapidez, mas isso não implica necessariamente na expertise do fazer artístico. Eu sempre disse que o nosso país tem excelentes técnicos, diretores, atores… Faltam bons roteiristas. Aqui não há uma indústria cinematográfica. A indústria é ainda a TV. Não surgem muitos grandes roteiristas e dramaturgos em cada geração. São poucos. Estatisticamente tem sido assim ao longo da história. O cinema brasileiro ainda tem muito vício novelístico por questões óbvias. Quando eu vejo um bom roteiro brasileiro eu vibro, com foi o caso de “Bingo”. Mas ainda é raridade. Quando saímos falando que a fotografia do filme é linda é porque o filme é uma porcaria. Tecnicamente os filmes brasileiros não deixam nada a desejar aos estrangeiros. O dia em que tivermos grandes roteiros, teremos um dos melhores cinemas do mundo. Dia desses eu estava pensando que sou ator e dramaturgo em um país que não lê e nem vai ao teatro. Quem se dedica a este ofício é um Dom Quixote aqui no Brasil. Vejo uma bela saída: as parcerias internacionais. É preciso que as artes brasileiras saiam cada vez mais para o mundo. E lógico, falando sempre da nossa surreal e magnífica aldeia brasilis.

Novidades de Dionisio Neto…
Em abril lançarei meu novo livro de peças teatrais “Opus profundum – peças reunidas vol 2” com cinco peças teatrais, uma inédita, artigos, matérias, fortuna crítica e textos de Martha Nowill, Ivan Feijó, Luís Claudio Machado, Marcia Abujamra, Eugênio Lima e Mauricio Paroni de Castro sobre minha obra. “Opus profundum” marcou história no teatro internacional. Foi considerada como um dos mais belos espetáculos da história do Festival de Curitiba e ganhou primeira página do caderno “Arts and Leisure” do “The New York Times” pela montagem americana. E relançarei “Desembestai! – peças reunidas vol 1” (Editora Benfazeja). Escrevi até o momento 15 peças de teatro e todas publicadas. Também estou trabalhando na pré-produção de duas peças inéditas de minha autoria, publicadas nos livros “Oppenheimer Blue”, com Marisol Ribeiro, Érica Montanheiro, Lucas Lentini e eu, e “Sísifo (Transe remix #0)”, com Helena Ignez, Fransérgio Araújo e eu. Convidei o Reinaldo Lourenço para fazer o figurino da peça e ele aceitou. Repetiremos a parceria que fizemos no ano 2000 com “Antiga” e que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Shell. Estou terminando meu primeiro romance – “A Ex-mulher”, e fazendo “Carta ao pai de Franz Kafka” em festivais nacionais e internacionais, bem como “Desamor”, a peça que o Walcyr Carrasco escreveu especialmente para mim. Estas duas são minhas peças de bolso e pretendo fazê-las por muito tempo ainda. Também estou pré-produzindo um roteiro de longa que escrevi – “A gangue dos playboys”.

Em “Carta ao pai de Franz Kafka”

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