PARECE QUE A MODA MASCULINA ACORDOU… por Luigi Torre!

Por Luigi Torre

Lembra que falamos aqui sobre como a moda masculina andava pouco reativa ao mundo e um tanto sem relevância? Parece que o jogo virou, anjos. E se não virou, há fortes indícios de que pode virar.

Vamos começar pelo começo. Semanas atrás, a Burberry anunciou que Riccardo Tisci substituirá Christopher Bailey no comando criativo da marca britânica. Depois veio a notícia de que Kris van Assche estava deixando seu posto de diretor de criação na Dior Homme, o qual passaria a ser ocupado por Kim Jones, ex-Louis Vuitton. E aí, na última segunda-feira (26/03), acordamos com a novidade de que Virgil Abloh (foto acima), da marca Off-White e colaborador de longa data de Kanye West, assumirá o posto deixado por Jones e será o novo estilista masculino da Louis Vuitton. Babado, né? Mas o que essa dança das cadeiras no mundinho tem a ver com o mundão?

Kim Jones

Tem bastante a ver, viu? Primeiro, pelo fato de Virgil Abloh ser apenas o terceiro negro a ocupar um cargo de direção criativa numa grife de luxo (os outros são Olivier Rousteing, na Balmain, e Ozwald Boateng, responsável pelo masculino da Givenchy entre 2003 e 2007). Isso por si só já dá muito pano para manga. Há quem diga que a escolha de Virgil é um pouco de oportunismo marketeiro por parte da Louis Vuitton. Algo do tipo: “olha só como somos inclusivos e representativos, temos um negro no comando da equipe”. Tem também quem acredite que o designer fez muito pouco pela causa e pessoas negras. O argumento aqui é de que não adianta colocar uma pessoa negra se o pensamento e mecanismos não mudarem. Só vamos saber de fato depois da primeira coleção. Enquanto isso, bora continuar essa discussão.

Outro ponto importante é a questão do streetwear. Todos os nomes apontados para os novos postos de diretores de criação tem forte conexão com o tema. O potencial comercial do estilo não é novidade, mas não há como negar uma certa resistência de marcas masculinas de luxo em abraçar verdadeiramente o assunto. Como se, por serem de luxo, elas não pudessem pisar no asfalto e, mais ainda, responder de forma mais imediata ao que os consumidores — principalmente os mais novos — querem usar. A moda feminina já havia se ligado disso. Nomes como Demna Gvasalia e Shayne Oliver, da Hood by Air, por exemplo, tratam rua e alta moda com a mesma relevância.

Riccardo Tisci

Em entrevista ao site “The Business of Fashion”, Virgil fala um pouco sobre isso: “Na maioria das vezes o streetwear é visto como barato. Meu objetivo é adicionar uma camada intelectual e dar mais credibilidade ao estilo.” E ele sabe do que está falando. É exatamente isso — ainda que de maneira questionável — o que Virgil faz em sua Off-White: dá revestimento de luxo aos básicos do street. Mais do que o produto também, o que Virgil tem de mais valioso — e algo que a Louis Vuittton com certeza levou em consideração — é como ele se comunica, se conecta e comove toda uma geração de consumidores. No seu último desfile, Paris, uma multidão de fãs parou a rua só para tentar estar mais perto do designer. Quando ele lançou sua coleção em parceria com a Nike, as filas nas lojas de Nova York eram enormes e diárias. Por que tudo isso? Bom, porque ele sabe falar, mostrar e se comunicar com o que é relevante — não para ele, mas para quem ele quer conquistar.

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