Filipe Catto de corpo, alma, voz, parcerias e ideais em entrevista: “Ser artista é um exercício de fé”

Com o disco “Catto”, o terceiro de sua carreira, Filipe Catto se consolidou como um dos grandes nomes da MPB. O intérprete gaúcho estreou na música com o álbum “Fôlego”, de 2011, e sua voz poderosa e timbre perfeito já foi comparada às de Elis Regina e Ney Matogrosso. Mas Filipe é Filipe, com seus muitos parceiros musicais, e nesta entrevista ele fala sobre vocação, novos projetos e também sobre a importância do artista como voz a favor da democracia. “Ser artista é um exercício de fé, e tempos como os nossos reforçam a fé no que há de mais profundo em nós: a força de seguir adiante”, diz ele.

Catto, o disco
“Foi um processo muito gostoso fazer este disco, onde eu e o Felipe Puperi (produtor do disco) nos demos toda liberdade pra mergulhar nas texturas e sons que fluíam da gente: orquestra, guitarras, eletrônico, som vintage. Como se fosse uma colagem estética pra contar uma história de beleza e resistência à dureza do mundo.”

Talento nato versus empenho
A voz é DNA, o timbre, o tom… Mas uma voz não é nada sem um repertório e um conceito. Eu tenho devoção ao meu instrumento e sei como ele é um veículo da minha expressão, mas também acho importante vestir essa voz das canções e das ideias que realmente apresentam a minha verdade ao mundo. Isso é desafiador porque é um processo de mostrar o que está dentro, sempre.”

Resistência pela democracia
“Eu estou há algum tempo como uma rocha diante disso, é bem cansativo. É desestimulante fazer arte num cenário onde nada contribui na sua estrutura pra que ela seja feita, onde existe um consenso midiático mentiroso que criminaliza os artistas e enche as pessoas de desinformação. Por outro lado, nunca vi a cena tão forte e autêntica, tão cheia de coisas novas pra dizer e com tanta força pra lutar e resistir a este pesadelo. Ser artista é um exercício de fé, e tempos como os nossos reforçam a fé no que há de mais profundo em nós: a força de seguir adiante.”

A evolução do figurino
“Adoro usar meu corpo e minhas roupas pra contar uma história, pra poder me inventar. É um tesão imenso desenhar os cenários, figurinos, afinal a arte é um playground. Acho que nunca me diverti tanto na vida quanto agora. Eu concebi a direção de arte do disco ao mesmo tempo que o disco em si foi uma conversa muito integrada dos conteúdos. Aí chamei a figurinista Isadora Gallas pra gente definir e desenhar uma linha pra turnê inteira, que fosse pro palco e pra fora do palco, e chamamos o Lucas Menezes da D-Aura pra nossa turma e realizar as ideias conosco. Eu amo o trabalho da Isadora e do Lucas, acho que são grandes artistas com um rigor e um acabamento muito profundos. Ter pessoas como eles pra fazer esse tapete voar é um patrimônio no meu trabalho.”

MPB vive 
“Adoro o panorama no geral, porque acho que está rolando algo realmente novo, bonito. Eu gosto demais da Alice Caymmi, do Johnny, da Liniker, da Linn, da Aíla, Mahmundi, Tiê… são tantos que eu nem consigo enumerar. E admiro muito o trabalho deles e admiro ainda mais onde este trabalho está enraizado. São pessoas que fazem a diferença com suas atitudes e sons.”

Pelo mundo
“Há um tempo isso vem rolando de uma forma bem bacana, e acho super natural que meu som transite pelo mundo. Quando eu era criança meu sonho era ser um cigano viajante, e acho que a vida me deu a música como veículo dessa missão. O mundo pra mim é lindo, cheio de tantas coisas loucas que eu realmente acredito na integração disso tudo na minha vida. Se estamos em um momento de desafios, o que eu quero mais é abrir todas as portas pra respirar ares novos. Eu não acredito mais em nacionalidade, patriotismo, território ou língua. Eu acredito em música e em arte, expressão e isso é algo universal. Ser um artista latino no mundo é algo que eu carrego com muito orgulho e quero voar por aí com liberdade e fluidez.”

Os parceiros
“Nossa, são tantos. Neste disco tem três musicais do Romulo Froes, que eu admiro há muito tempo. Duas em parceria com meu amado amigo César Lacerda e uma com o Nuno Ramos. Tem Marina e Cícero, Bruno Capinan, Antônio Variações, Juliano Holanda e Igor de Carvalho – que me deram um puta hit “eu não quero mais”… Poder contar com essas pessoas incríveis é libertador pra mim. Fora as parcerias com a Zelia Duncan e o Fábio Pinczowski, que trazem um olhar tão complementar pra minha composição que eu só posso agradecer do fundo da alma. Antes pra mim ser artista era algo muito interno, mas assumir o meu intérprete me fez abrir e florescer como músico. Hoje meu prazer é trabalhar em parceria e multiplicar os Frutos. É muito mais divertido.

O futuro
“Eu tenho várias ideias, mas ainda estou tão dentro do disco novo que estou querendo viver isso ao máximo. Não sei quando terá disco novo, mas estou amando a Nascimento de Vênus Tour, amando estar na estrada que nem cigano com a banda, fazendo loucuras e fritando no som. Quero continuar esse projeto bastante antes de mergulhar em outro.”

Ídolos?
Todos os valentes e coerentes: Patti Smith, Elis, Bethânia, Pj Harvey, Jeff Buckley, Depeche Mode. E tem Arcade Fire, Fiona Apple… essas pessoas que seguem sua intuição e fazem o que lhes dão na telha. Acho que é isso que eu gosto nas pessoas, acima dos artistas. Não sei se hoje eu tenho ídolos, porque acho que isso tira um pouco da pessoa que tá ali. E cada vez mais a humanidade e a singeleza do que está dentro da obra me interessa. Ser artista é também matar seus ídolos em algum momento, porque tem umas coisas dentro de mim que são bizarras o suficiente pra eu desvendar olhando pra dento. Nosso emocional é um parque de diversões pra criar. De dentro pra fora. Love💋 Catto”.

 

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