MODA: PARA SAIR DO ARMÁRIO, SEM VERGONHA E COM CONTEÚDO

Por Luigi Torre

De todas as formas de expressão cultural – cinema, arte, literatura –, moda sempre foi considerada a mais frívola, fútil ou irrelevante de todas. Moda poucas vezes teve o mesmo prestígio intelectual. E olha que todo ser humano tem que lidar com ela todo dia ao sair da cama. Moda sempre foi assunto de menininha e de bichinha. Moda sempre foi estridente, estranha, esnobe. Moda, nesses termos, sempre foi julgada por olhos patriarcais.

Até pouco tempo atrás, pelo menos aqui no Brasil, falar para os seus pais que você queria trabalhar com moda era motivo de drama familiar. Ainda são poucas as universidades dedicadas ao assunto. Com cursos bons e realmente abrangentes menos ainda. Trabalhar com moda vem com uma série de estereótipos. Do estilista estrela, da bicha nojentinha, da patricinha rica e fresca. Vem também com a realidade de um mercado de trabalho em péssimo estado e muito escasso (mas isso é outro assunto). Mexer, fazer, gostar, falar e viver de moda ainda é, aos olhos de muitos, algo menor. Uma besteirinha de garotas. Do mesmo jeito que falar de música pop, reality show e o último blockbuster pode imprimir alienação, superficialidade e falta de conhecimento cultural.

Katharine Hamnetthome

Pensamento antigo, elitista e machista. Alienado é quem não reconhece o valor da cultura pop — com moda inclusa. Quem ainda não se deu conta do quanto nossa vida é influenciada pelo que passa na TV, nos cinemas e em nossos feeds é cego ou vive em negação. Memes, por exemplo, são resposta e comentários precisos sobre tudo que se passa no mundo. As narrativas de filmes como “Pantera Negra”, “Jogos Vorazes”, “Guerra Nas Estrelas” e até “Harry Potter” servem de referência para toda uma nova geração. RuPaul’s Drag Race fez a cena drag renascer com força máxima.

Com a moda não é diferente. Quando a Teen Vogue começou a investir em sua cobertura política, lá em 2016, teve muita gente que caiu matando. Diziam que revista de moda não tinha nada que se meter nesses assuntos. Quando discussões sobre racismo, feminismo e identidade de gênero se tornaram mais frequente no meio, foi a mesma coisa. Achavam uma bobagem desfile abordar esses temas e publicações dedicarem espaço para isso. Só que o mundo mudou e não só é homem branco e rico que pode ter voz. Todo mundo quer e vai falar. Bem alto por sinal.

Dior

A moda demorou um pouco mais para perceber essa oportunidade (existe um certo complexo de inferioridade no meio, mas isso também é outro assunto). Aos poucos está ficando claro que a moda pode ser uma plataforma poderosa para os mais diferentes assuntos e discursos. Quando a advogada de direitos humanos Amal Clooney apareceu na capa da Vogue americana, ela usou a revista — e a moda — para falar sobre refugiados para um público que talvez nunca alcançasse sozinha.

Do outro lado, marcas, profissionais e publicações estão entendendo que moda com conteúdo rende mais. Às vezes, até vende mais. Claro que queremos ver o look bapho da última temporada numa foto incrível. Mas também queremos entender o que está acontecendo no mundo. Queremos, acima de tudo, ler ou ouvir histórias interessantes sobre gente interessante. Gente que tem algo a dizer — e algo inteligente —, pessoas que estão contribuindo com diálogos urgentes e relevantes.

A moda — e a gente que trabalha com ela ou se interessa com ela — só precisa aprender a bater mais de frente. Assumir que, sim, somos fúteis, mas não somente. Não é porque discutimos sobre plumas e paetês que não conhecemos mais que nossos guarda-roupas. Também falamos sobre temas relevantes e com a mesma propriedade que as demais searas criativas e culturais. Na verdade, falamos bem mais do que eles. Porque quando você acorda e escolhe o que vestir, pode muito bem estar escolhendo o que dizer e o que expressar. E isso, meus anjos, pode mudar o jeito como muita gente enxerga o mundo.

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