É underground? O cinema LGBT e seus principais expoentes em bate-papo com o diretor Lufe Steffen!

Você precisa saber da piscina, da margarina e de Lufe Steffen. Não conhece? É bem provável que sim, pelos seus filmes de cunho underground e de sua atuação na cena LGBT. “Comecei escrevendo e dirigindo curtas há 20 anos, em 1997. De lá para cá foram 10 curtas de ficção e 2 longas documentais, além de uma série documental de TV. Tudo, todos esses trabalhos, ligados ao universo LGBT, queer e afins. Geralmente meus filmes tem uma ligação forte com a cidade de São Paulo, onde nasci e vivo, principalmente uma ligação com a noite de São Paulo – por isso, meus dois docs são sobre a vida noturna gay da cidade: A Volta da Pauliceia Desvairada, de 2012, sobre a noite daquele momento, e São Paulo em Hi-Fi, 2016, sobre a noite dos anos 60, 70 e 80. Atualmente me preparo para dirigir meu 1º longa de ficção, um musical gay LGBT ambientado nos anos 80”. Abaixo, um bate-papo cheio de referências.

Casa de Criadores – Fale pra gente sua visão sobre o cenário dos curta-metragens no Brasil, os principais expoentes e seus filmes novos favoritos.
Lufe Steffen – “Não tenho acompanhado muito os curtas brasileiros… A não ser os de temática LGBT, basicamente pois essa é a minha pesquisa. Nesse sentido, tem algumas coisas interessantes, como o coletivo Surto & Deslumbramento, do Recife, que produziu vários curtas queer nos últimos 5 anos, e agora fez um longa bem interessante, A Seita. Outros realizadores que merecem ser notados: René Guerra, que acaba de dirigir o curta Vaca Profana, e Rafael Lessa, do curta Jiboia, que deve virar o longa Greicekelly em breve. O diretor Mozart Freire fez dois curtas que gosto muito, em Fortaleza: Cinemão e Janaína Overdrive. Ivan Ribeiro, com curtas mais trash, como Bodas do Diabo, tem uma pegada interessante, de impacto. E Matheus Marchetti, do curta Bosque dos Sonâmbulos, uma obra-prima totalmente diferente do que o cinema brasileiro costuma fazer…”

Casa de Criadores – Indica alguns longas que não entraram na corrida do Oscar deste ano e que merecem serem vistos?
Lufe Steffen – “Então… não sei te responder rs! Dos muito recentes, não sei. Mas de uns anos pra cá, teve por exemplo A Travessia, do Robert Zemeckis, que foi ignorado, um absurdo. Filmes do Todd Haynes, como Carol, merecem muito mais atenção do que recebem geralmente. Agora acaba de sair Jogador Número Um, do Spielberg, pra mim uma obra-prima genial, a melhor coisa do cinema blockbuster de Hollywood em muito tempo. Mas como é acima da média em termos de inteligência no atual cinema americano, talvez seja desvalorizado pelo público e crítica…”

Casa de Criadores – O cinema nacional está fazendo o papel de resistir aos movimentos contrários à arte?
Lufe Steffen – “Em parte, sim. Muitos realizadores tem essa preocupação, outros não. É aquilo: cada um faz o filme em que acredita, quem quer fazer um cinema mais combativo, político, faz, quem prefere fazer o puro entretenimento, faz. O problema é: o entretenimento não precisa ser necessariamente pobre de ideias e de criatividade, e infelizmente muitas vezes é. Agora, o que realmente precisa melhorar não depende dos realizadores, e sim do apoio governamental: o cinema brasileiro precisa de uma infra de DISTRIBUIÇÃO, que garanta o escoamento da produção e a comunicação dos filmes (principalmente os filmes de nicho, de arte, de autor) com seus públicos. Enquanto isso não acontecer, o cinema brasileiro vai continuar só atingindo o público através das comédias televisivas feitas pro cinema. Não que elas não devam existir, mas só elas conseguem chegar ao público. Isso é muito pouco, considerando o ecletismo existente no cinema nacional. Tem público pra todos os gostos, mas os filmes precisam ter espaço para serem vistos.”

Casa de Criadores – Quem são os novos cineastas brasileiros que a gente precisa ficar de olho?
Lufe Steffen – “Os realizadores de documentários, como Lívia Perez, Dacio Pinheiro e Rafael Saar, são promissores. Entre as diretoras, aposto na Juliana Vicente, que faz um trabalho bem relevante com a questão negra. Em Salvador tem a Ceci Alves, em Recife a Tuca Siqueira… no Rio tem o Felipe Sholl, do filme Fala Comigo. Em Fortaleza tem o Allan Deberton. Rui Calvo e Eduardo Mattos, que dirigiram vários curtas e em breve devem chegar aos longas… E acredito que vem aí uma nova geração, que está nas escolas de cinema agora, que na década de 2020 vai impressionar. Eu acho! rs”

Imagem que aparece no documentário “São Paulo em Hi-Fi”, 2016, sobre a noite dos anos 60, 70 e 80

Em tempo
Lufe Steffen vai ministrar u curso interessante sobre o universo LGBT que vai traçar a linha do tempo cronológica, ao longo das décadas do século 20, aos dias atuais. Serão citados, comentados e debatidos filmes brasileiros que trazem personagens LGBTs em suas tramas, com exibição de pequenos trechos. Serão divididos por períodos e temas. Onde? No Espaço de Tecnologias e Artes do Sesc Ipiranga.
Inscrições gratuitas na Central de Atendimento, com vagas limitadas. Só clicar aqui!

Aqui ele mesmo: Lufe Steffen!

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