Quando o feed é seu inimigo, o jeito é rever alguns conceitos… Vem ler a pensata de Luigi Torre!

Por Luigi Torre

Semana passada deletei meu Facebook. Andava meio de saco cheio de tudo aquilo, da falta de informação, da pessoa falando qualquer coisa sem pensar, de gente cagando regra, da falta de privacidade. Enfim, pedi para sair e foi ótimo. Quer dizer, ótimo não foi, não foi nada. A vida segue do mesmo jeito — talvez um pouco mais leve e com dias mais produtivos. Continuo falando com meus amigos, sabendo das coisas que acontecem no mundo (e nos mundinhos), seres humanos outros permanecem entrando em contato via outros meios e segue o baile.

Para ser bem sincero, só sinto falta da agenda de eventos e festinhas, como bom sagitariano que sou. Ainda assim, por mais insignificante que o ato possa ser, me peguei pensando em como nossos atos e gostos são pautados pelo que aparece em nossas timelines. E isso vale para tudo, de política a questões humanitárias e sociais, do tipo de música que você curte ao que você quer vestir.

O assunto não é novo e até já foi tema de coluna, mas também não é notícia velha. Pelo contrário, é algo cada vez mais presente e atuante em nossas vidas. Naquele texto, eu falava de como marcas e empresas se valem dos “valores” do mundo digital para fingir relevância e criar buzz em torno de produtos, pessoas ou assuntos. Indo mais a fundo, dá para perceber que os próprios meios são construídos para trucar o que a gente acha que é gosto pessoal com o que, na real, é imposição mercadológica — e, algumas vezes, ideológicas até.

Basta pensar em como o conteúdo do seu feed é editado para aparecer na sua tela (e não estou só falando do Facebook). Há tempos o que você vê primeiro não é sinônimo do que foi postado por último. São algoritmos mil para calcular e adivinhar suas preferências, seus interesses e te mostrar exatamente aquilo, muitas vezes escondendo algo novo que, quem sabe, poderia te agradar tanto quanto. Sabe suas descobertas da semana no Spotify? São muito precisas, as minhas também. Mas e se você não tivesse essa comodidade e tivesse que realmente descobrir algo novo? Será que você não encontraria alguma coisa diferente? Um artista que não está no Spotify, talvez?

Com roupas é a mesma coisa. Você pesquisa uma marca no Google, vai atrás de uma camiseta no e-commerce e, de repente, mil variações daquilo aparecem no seu feed. As marcas já criam suas coleções com base no que pode ser mais fácil de se destacar nas timelines, no que viraliza mais rapidamente. Se a moda é um espelho de uma sociedade, hoje é também uma grande caçadora de cliques. Tendências sempre existiram, imitações idem e onde uma vai, todos correm atrás — ainda mais se vender bem. Nunca antes, porém, um estilista se guiava por dados de empresas de internet ou comunicação. A vida acontecia na rua, na buatchy, na viagem maravilhosa.

“Ih, bichá, bateu uma nostalgia, hein?” Não, credo, longe de mim. Odeio ser a pessoa que demoniza a internet. Só acho que a gente perdeu nossa autonomia. Aceitamos muito facilmente o que nos é apresentado de mão beijada, sem parar para pensar muito sobre nada. Ou não, nem aceitamos. Rejeitamos prontamente, desfazemos a amizade, bloqueamos, sem sequer pensar sobre o porquê daquilo tudo, sem uma discussão (civilizada e com argumentos dignos) sobre qualquer coisa.

Compramos tendências, desejamos peças, idolatramos marcas e estilistas com a mesma inconsequência e inconsistência. Quantas (cinco) pessoas pararam para se questionar sobre o que significava e qual era a validade do discurso do Demna Gvasalia na Vetements ou na Balenciaga? Quem se preocupou em decodificar as mil e uma referências de Alessandro Michele na Gucci? Enquanto todo mundo aplaude é show. Quando começa a dar ruim ou quando algum podre vem à tona, todas caem matando. Mas quem se atentou para o que a pessoa dizia lá no começo? E se tudo já fazia parte do discurso? É difícil se abster, respirar e olhar tudo com calma quando se está no meio da tempestade. Ninguém precisa sair do Facebook ou se deletar de qualquer rede social para isso (mas ajuda, juro!). É só ter em mente que existe mais do que sua timeline.

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