Feminista, vegana e estilista perfeccionista, Renata Buzzo prepara coleção “Eu não estou aqui”

Feminista graças a deus
“Não gosto muito de rotular, mas acho que acaba sendo algo natural. Calhou de dois dos meus temas passarem essa mensagem de: você pode se aceitar e se gostar ainda que não esteja muito bem, ainda que você se ache meio caótica, meio torta. Acabou sendo uma mensagem feminista porque eu falava ali como mulher, mas acho que a ideia serve pra qualquer um. Eu acabei dando o tom feminista porque coloquei o “SHE” no nome das coleções e falava ali como indivíduo/mulher. Trabalho sempre com referências pessoais, gosto de usar das minhas vivências como combustível criativo, minhas vivências são todas enquanto mulher numa sociedade complicada, minhas percepções são todas pautadas por essa ótica, acaba que a voz da coleção sempre é feminina, ainda que qualquer indivíduo possa se identificar. Talvez se eu trabalhasse com temas alheios isso se atenuasse mas não consigo, sempre estou falando de mim ali.”

Veganismo em vorazes
“Veganismo porque meus indivíduos prediletos são todos animais, humanos eu conto nos dedos de uma mão e daí parto do princípio de que, se amo tanto, seria incoerente da minha parte financiar o sofrimento deles. Não faz sentido pra mim, se eu amo não infrinjo dor, essas são minhas razões pessoais. Eu poderia escrever um texto imenso aqui listando todos os motivos do ponto de vista de saúde, ético, social e principalmente ambiental, mas acho improdutivo porque acredito que este é um caminho que cada indivíduo precisa percorrer sozinho: o de abrir os olhos e ponderar hábitos. Prefiro indicar dois vídeos, o Terráqueos e o Carne é Fraca, ambos disponíveis no YouTube.

Utopia?
Uma visão de mundo onde as pessoas não consumam animais não é utopia, porque utopia traz em si uma ideia de caráter fantasioso, de ilusão, não dá pra chamar de fantasia ou ilusão um estilo de vida que milhares de pessoas seguem e que é comprovadamente benéfico e sustentável em todos âmbitos, tanto pro indivíduo quanto pra sociedade e pro meio ambiente. Utópico é as pessoas seguirem num sistema de vida completamente cego, predatório e insustentável e acharem que vão perpetuar a espécie e durar mais 100 anos. Utopia é viver sem ponderar nenhum hábito, viver como se o planeta estivesse ali pra lhe servir e achar que não existe lei do retorno.

A moda pode mudar o mundo?
“Não. As cabeças pensantes, os criativos, por trás de toda e qualquer atividade humana, sim! Eu enquanto designer faço a minha parte dentro das minhas competências, faço o possível pra educar o meu cliente, eu pondero meus próprios hábitos, educo meus alunos (dou aula de Sustentabilidade na pós da Santa Marcelina), os da minha casa, meus assistentes etc. Se cada um se compromete a mudar o seu entorno, na somatória conseguimos algum resultado. No âmbito de moda, precisamos consumir diferente, o fast fashion é perigoso, o nosso ato de consumir precisa ser repensado e logo.

Construção, de coleção em coleção
“É um processo muito pessoal, eu sempre trabalho nos incômodos, pego um incômodo, um assunto que não me deixa e transformo em coleção. Quase sempre são temas que se interligam porque eu uso do meu próprio repertório pra criar. As vezes o resultado final soa nonsense mas tudo que está ali tem um motivo, nada é aleatório, está tudo amarrado. Gosto muito de alterar as superfícies dos tecidos, de comunicar o assunto através dessa interferência, ainda que por causa desse trabalho ande exausta, mas estou tentando trabalhar a minha cabeça pra dosar as experimentações e misturar com peças usáveis, ou misturar a maquete têxtil com tecido liso em uma mesma peça por exemplo e acho que deu certo. Eu trabalho muito com o manual, 100% das minhas peças tem interferência de trabalhos manuais demorados, a gente fica dias em uma peça, estou aprendendo a dosar esse trabalho manual em cada peça.”

Beleza, ego, perfeição… ou não?
“Acredito que a grande maioria da moda sim, se você estuda marketing de moda você aprende ali a trabalhar com o desejo de “ser” do indivíduo quando consumidor, cada indivíduo carrega em si aspirações em termos de padrões de beleza e o ego e a perfeição entram quando falamos por exemplo do desejo de aceitação por meio do corpo, de se atingir padrões estéticos por meio do status que determinada peça te confere e a moda se vale disso sim para vender modelos prontos de sucesso nesses quesitos. Hoje em dia não se vende mais o produto e sim o estilo de vida que aquele produto traz intrínseco.”

Imagem do Instagram de Renata, reproduzindo foto publicada na @bazaarbr de março

Vem aí Casa de Criadores…
“Eu fiz uma parceria com a Lunelli e vou trabalhar pela primeira vez com malha. Coloquei a malha num contexto inusitado, eu desenvolvi um bordado de malha pra várias peças, em outros contextos usei a malha de forma mais conceitual. Em termos de tema, peguei um texto meu e usei como referencial pra criar a coleção. Eu falo ali sobre muitas coisas, sobre você desenvolver uma casca social, sobre você ser “casca grossa e miolo mole”. Miolo mole num contexto de hiatos depressivos, oscilações de humor, mas você proteger toda essa maluquice com a casca social, essa casca é uma proteção, ela te distancia emocionalmente. A coleção chama “Eu não estou aqui”. O nome é um trocadilho porque às vezes (quase sempre) eu estou presente de corpo em algum lugar mas a minha cabeça não, a minha cabeça vai pra lugares que eu desisti de controlar, então o nome da coleção vem disso, mas também fazendo uma brincadeira com o fato de que eu realmente não estarei presente no dia do desfile, eu tinha uma viagem marcada pra semana da Casa e não consegui cancelar, vou estar em Paris acompanhando de lá.”

Siga Renata Buzzo no Instagram. Abaixo, a última coleção dela na casa de Criadores.

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