Rafaella Caniello fala sobre a marca Neriage e sua moda autoral tratada como poesia

O caminho de Rafaela Caniello
“Me formei na Santa Marcelina em 2016 e Neriage é o nome da minha monografia. Neriage, inclusive, é um termo para um tipo de cerâmica japonesa e tem tudo a ver com meu tema, que tem muito de filosofia, a a cerâmica foi uma simbologia. Neriage significa várias argilas no torno misturadas produzindo um efeito marmorizado. Na verdade se pronuncia neriague, mas o nome da marca acabou ficando assim. Quando me formei, e lá existia um fórum, no qual os melhores trabalhos tem um destaque no final do ano, com um desfile, e eu fiquei em primeiro lugar. Foi daí que tudo começou. Fui convidada para entrar na Casa de Criadores e posteriormente no Veste Rio. Daí tudo aconteceu…”

 Neriage em forma e conceito
Tudo aconteceu muito espontaneamente. Nunca fiz um plano de negócios. Eu sinceramente nem pretendia abrir uma marca no auge dos meus 23 anos. Mas tudo tem um motivo. O TCC acabou se tornando o que hoje é a Neriage. A minha ideia como marca e a minha ideia como projeto sempre foi levar pra moda um pouco mais poesia. Levar o além da roupa, sabe? Levar algo que tem história. Por isso eu sempre procuro fazer uma imagem de moda bem delicada. Eu uso vários tipos de tecidos sobrepostos. Procuro sempre trabalhar com tecelagens nacionais. A gente está com um projeto agora no qual toda roupa vai vir com o nome da costureira numa tag. Porque eu acredito que como marca e como futuro na moda é preciso valorizar as pessoas que fazem parte do processo. O processo acaba sendo tão forte quando a imagem final do produto. A ideia é essa: levar o luxo nesses detalhes. É uma marca de luxo porque as peças são muito bordadas, artesanais, têm muito plissado, muita seda… Mas minha ideia de luxo, mais do que isso tudo, é o processo. Uma moda 100% ética.”

“Sobre público alvo, prefiro não definir. Qualquer pessoa pode usar. Geralmente nas passarelas eu coloco mulheres, mas acho que serve para qualquer pessoa que se identifique com o espírito da marca, qualquer pessoa que acredite nisso. Não é uma roupa barata, mas a pessoa vai tê-la por muitos e muitos anos. Prezo muito pela qualidade, acabamento e por ser uma peça realmente especial.”

Casa de Criadores vem aí…
“Esta é terceira coleção na Neriage na Casa de Criadores. A primeira foi meu TCC, a segunda a coleção Iris, que foi na temporada passada, e esta que se chama Phare, farol em francês, e que segue sendo uma continuação das outras, que é a ideia da marca. É sempre uma história a ser contada. Sempre procuro focar em um dos elementos naturais: água, fogo, terra ou ar. E essa coleção, sendo uma continuação da outra, é a água, mas na sua versão mais melancólica. A água salgada. E é muito inspirada no livro O Velho e o Mar. Então tem vários bordados artesanais que remetem ao mar. Cores que seriam do oceano em diferentes momentos. É uma coisa bem sensitiva e uma ideia do contato da pele com o mar. E como algo que cura ou que pode provocar feridas. É uma coisa muito louca rs. Sempre tem uma coisa muito psicológica envolvida. É a minha coleção preferida até hoje.”

Rafaela na Casa de Criadores, inverno 2018, em novembro de 2017 / foto: Marcelo Soubhia / Fotosite

O autoral vai vencer a fast-fashion
“Acho que o mercado brasileiro, tanto em termos de mídia e de consumidores, está começando a valorizar o pequeno, sabe? As pessoas estão começando a entender que moda é mais que comprar várias roupas por estação. Tanto que eu nem acredito em estações… Costumo dizer que minhas coleções são sempre primavera, verão outono e inverno. Tem um pouco de tudo porque acho que já foi um pouco essa história de coleção passada. O mercado brasileiro está começando a ter espaço para isso, pro que é pequeno, artesanal, pra uma roupa mais eterna, que vai durar várias estações. O consumidor está valorizando mais e entendendo que se uma peça custa, sei lá, 50 reais, tem alguém que não está recebendo nesse processo. É muito importante essa valorização do que você está comprando, é uma tendência do mercado nacional, e nós estilistas menores temos muito amor pelo que fazemos. Cada peça é como se fosse uma filho. Já está na hora das pessoas começarem a valorizar a roupa mesmo. Não comprar por quilos, mas comprar uma peça que vá durar muitos e muitos anos.”

Influência não! É admiração
“Eu não gosto de dizer referência porque esse termo tem aquela coisa de que você está se inspirando. Na verdade a gente se inspira em tudo: na nossa vivência, nas pessoas que a gente gosta. Mas pessoas que eu poderia dizer que admiro muito no mercado internacional? Tem a The Row, marca das irmãs Olsen, que é incrível porque é um chique simples, que diz muito com pouco. Também gosto muito do Alexander McQueen, que foi um ídolo pra mim. Na moda nacional admiro muito o trabalho da Paula Raia, com seu trabalho artesanal lindo. Ela tem um cuidado e uma amor pelas roupas dela. E também da Aparatamento 03, acho um trabalho muito corajoso, e também admiro meus colegas da Casa de Criadores. Todos, sem exceção, porque qualquer pessoa que tenha coragem de colocar na passarela o que realmente acredita merece aplauso. Esse ato é muito mais difícil do que parece.”

Abaixo, imagens do atual lookbook da Neriage

 

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