“Transição, não! É Percebimento”, diz Renata Carvalho, de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu

Aplaudido pela mídia e pela parcela da sociedade que acredita na liberdade de expressão e dos gêneros, mas execrado por conservadores e políticos religiosos, o espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” (de Jo Clifford, com tradução e direção de Natalia Mallo e com a atriz trans Renata Carvalho) veio para abrir mentes e corações e segue atraindo público por onde passa. “E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse uma mulher transgênero?”, questiona a autoria na página oficial no Facebook.

“O espetáculo é uma mistura de monólogo e contação de histórias em um ritual que mostra Jesus no tempo presente na pele de uma mulher transgênero. Histórias bíblicas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade. Contamos histórias como O Bom Samaritano, A Semente de Mostarda e A Mulher Adúltera como se passassem na atualidade, para contextualizá-las com a vivência cotidiana de transexuais como a atriz Renata Carvalho, de 33 anos, que vive Jesus no espetáculo”, continua o texto na rede social. Casa de Criadores conversou com Renata Carvalho, que se coloca como transfeminista atriz e é idealizadora do Representatividade Trans Movimento Nacional de Artistas Trans (#representatividadetrans #digasimaotalentotrans #chegadetransfake @rainhajesus).

Vida e arte
“Comecei no teatro em 1996 com 15 anos, em Santos, minha cidade transfóbica querida, onde tenho minha formação. Fui ator, diretor (fundei uma Cia. de Teatro em 2002), maquiador/maquiadora, diretora e voltei à cena em 2012 quando contei minha vida e travestilidade no monólogo Dentro de Mim Mora Outra. Em 2013 participei do grupo O Coletivo, formado por artistas da região provocados por Kadu Veríssimo, onde amadureci bastante como artista e atriz. Em 2015 fui marcada num post de Facebook à procura de uma atriz trans e cheguei em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Em agosto de 2016 estreei no FILO, em Londrina. Em 2017 mudei para São Paulo, fundei o MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) criando o Manifesto Representatividade Trans e o Coletivo T.”

“Dois amigos me marcam no post no Facebook que buscava uma atriz trans: Rodrigo Eloi e Kadu Veríssimo. Natalia Mallo, diretora e tradutora da peça, assistiu à peça em Edimburgo, com Jo Clifford atuando, que também é a autora. Ao final do espetáculo, muito afetada por ele, ao cumprimentar Jo, ela pediu para trazer esse texto ao Brasil, nascendo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.

Transição, não! É percebimento!
“Não uso mais a palavra transição pois em trânsito, passagem, mudanças estamos todos, isso é inerente à questão humana. Sugerido por Neon Cunha (ativista) chamo de Percebimento, que demorou muito a acontecer, pois não entendia e não compreendia o que estava acontecendo comigo. A feminilidade sempre andou junto ao corpo. Em 2007 assumi minha identidade feminina. Quando em 2012 estreei o Dentro de Mim Mora Outra comecei a pesquisar outras histórias, outras vivências trans e cheguei no feminismo negro, na interseccionalidade e a corporeidade. Entendo a construção social, a criminalização, a folclorização, a exotificação dos corpos, identidades e vivências trans. Entendo a exclusão do meu corpo travesti, este corpo que é mais velho que eu, como artista vivendo no país que mais mata pessoas trans no mundo. Que nossa vida média é de 27 anos, nossa segunda causa é o suicídio. Como poderia me calar diante deste quadro que vive a população trans em nosso país/no mundo?”

Isso não é polêmica
“A peça não tem nada de polêmica, o que causa tanto ódio, ataques, censuras e perseguições é o fato de compararmos/corporificarmos Jesus de Nazaré a uma identidade, a um corpo travesti. Isto deve-se ao olhar, à construção social criada ao corpo travesti. Precisamos desmistificar essa visão. Precisamos naturalizar e humanizar as identidades, corpos, presenças e vivências transvestigeneres. E a arte tem o poder de abrir mentes e corações. A arte pode transformar/mudar um olhar/uma visão.”

Novas consciências
“Meu maior aprendizado foi o meu empoderamento e amadurecimento como atriz, artista, travesti, transfeminista e pesquisadora.”

Espiritualidade não é religião
“Acredito nessa energia maior, mas quanto mais eu conheço a história da Igreja e da religião no mundo, mais me afasto dela e ateísta vou me tornando.”

Por trás das cortinas
“A concepção, direção e tradução do espetáculo é da Natalia Mallo, ele nasce quando ela o assiste em Edimburgo (e na mesma noite faz a primeira tradução). Ele nasce em 2009 quando Jo Clifford escreve este texto na Itália em uma viagem. Quando recebi a notícia que faria o papel e li o texto, me apaixonei imediatamente. Ele me atravessa. Nos primeiros ensaios, Gabi Gonçalves aparece para produzir com a Núcleo Corpo Rastreado e ser diretora assistente, o que possibilita um maior suporte e a minha profissionalização na arte. Conheci profissionais incríveis para a construção desta personagem: Fabrício Licursi e Gisele Calazans na construção dessa corporeidade cênica e o conhecimento/entendimento do corpo, seus movimentos e gestos. Patricia Antoniazi (fono/coach vocal) me ensinou a respirar em cena, entender minha voz, frequência. Esse conjunto me fez amadurecer muito em cena. A troca com Jo Clifford, Susan Worsfold (diretora da montagem escocesa) e Annabel Cooper (produtora) foi enriquecedor. Assistir Fabiana Fine, atriz uruguaia, no papel foi um aprendizado também. E toda a equipe: Juliana Augusta na luz, Thais Venit/Rodrigo Fidelis da Nucleo Corpo Rastreado. Indianare Siqueira e Luana Muniz, que me foram inspiração para compor essa Jesus de Nazaré. E o público que fortalece e nos apoia por todos os lugares por onde passamos.”

Vestir-se de Jesus
“O figurino, visual e a concepção são da Natalia Mallo e Gabi Gonçalves. Elas buscaram um figurino mais clássico e neutro. Foi inspirado em Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo.”

É só amor, e fim!
“O espetáculo fala sobre amor, perdão, compaixão e alteridade. Como alguém pode ser contra? Deixo uma frase da Rainha Jesus: As mudanças vão acontecer de qualquer maneira”.

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Foto: Reprodução Facebook

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