A saga de Victoria Flaksbaum, que cresceu entre festas, música e amigos clubbers, e foi picada pela arte!

Victoria Flaksbaum nasceu e cresceu entre música eletrônica, chill outs e muitos amigos clubbers. Sua mãe Vivi Flaksbaum e seu tio Pil Marques deram tudo que ela precisava para, ainda muito jovem, atacar em duas frentes: como DJ e como ilustradora. Nós do site da Casa de Criadores, que também vivemos a era clubber, entrevistamos essa filha de peixe que virou sereia, e que promete ainda mais novidades em sua fase adulta.

Casa de Criadores – Como foi crescer numa casa tão fervida, tendo a mãe Vivi, o tio Pil e tantos clubbers e festas à sua volta?
Victoria Flaksbaum – “Foi muito feliz, muito mesmo. A Vivi foi além de mãe, meu pai também, então eu fui sempre o chaveirinho, estava junto em todos os lugares e em todos os lugares estavam as mesmas pessoas, as mesmas pessoas que hoje são minha família. Essa época dos anos 90/começo do 2000 foi muito verdadeira. As pessoas estavam se descobrindo, se libertando, criando coragem pra ser quem realmente eram. Sou muito grata e me sinto muito privilegiada de ter acompanhado o movimento clubber de dentro. Brinco que tenho olheiras até hoje de tanto que eu ficava acordada esperando eles voltarem da boate. Domingo era o meu dia favorito na semana, meu dia em família. Todo mundo dessa época faz parte do que eu sou hoje, todo mundo me criou um pouco, me ensinou algo. Nos chill outs me ajudavam na lição de casa, me ensinavam de inglês até guitarra, era gostoso aprender, eles instigavam muito a minha curiosidade. Fui criada muito solta, sem proibições, com o jogo muito aberto, então sempre fui muito tranquila, nunca precisei aprontar nem fazer nada escondido. tomei meu primeiro ácido com a minha mãe e foi uma das melhores experiências que tive até hoje. Eu vejo que o assunto “drogas” causa muita curiosidade/deslumbre/pré-julgamento em quem vê minha criação de fora, mas a real é que na minha infância inteira eu nunca vi nada, na época eu só achava todo mundo muito animado. Embora eu tenha ficado muito solta nas festas, raves e chillo uts, eu sempre fui muito protegida, sempre tinha alguém me olhando e cuidando de mim. Cocaína, pra você ter uma noção, eu vi quatro vezes na minha vida inteira, tendo sido três já maior de idade e uma com 17 anos. Eu e a minha irmã somos uma prova viva e levantamos a bandeira de como a criação liberal e com diálogo é saudável em todos os aspectos possíveis. Muitas coisas eu não tive nem curiosidade de experimentar porque tudo o que eu perguntava me respondiam. É difícil explicar assim em palavras o que foi crescer rodeada dessas pessoas. Acho que só eu mesma pra entender o que foi, rs. Foi algo muito especial que eu não trocaria por nada na vida.”

Vic sereinha em algum chill out do passado / Foto: Acervo pessoal

Casa de Criadores –  Como e quando decidiu virar DJ, como foi esse processo?
Victoria Flaksbaum – “Eu nunca tinha pensado em tocar, meu começo foi uma surpresa até pra mim. A gente tava jantando numa Pizza Hut e minha mãe fechando a programação de natal do On The Rocks, até que ela perguntou pra Nega (Nervous), que tava do outro lado da mesa, se ela não queria tocar e a nega respondeu ‘só se for com a Vic’. Eu lembro que estava comendo sem prestar muita atenção no papo e quando ouvi meu nome fiquei tipo ‘oi?’, minha mãe olhou pra mim, abriu um sorriso e falou bem animada ‘você quer tocar?’ e eu topei. Na época eu quase não tinha CD e não associava as músicas que eu gostava aos autores, fui fuçando nas coisas da minha mãe e achando CDs, fiquei uma semana muito dedicada a essa missão de preparar o set, ouvindo todas as músicas de todos os CDs no meu sonzinho. Um momento bem marcante foi quando achei uma coletânea do Nirvana e perguntei pra minha mãe se Nirvana era legal e ela respondeu ‘é muito, ele é lindo!’. Fiz uma listinha com todas as músicas que eu queria tocar e mostrei pra minha irmã (eu tinha 14 anos na época, não saía com amigos da minha idade, boate pra mim era onde eu ia pra brincar, não pra dançar, então não tinha muita noção de como montar um set) e ela respondeu ‘normalmente o DJ varia as músicas, não se toca cinco da mesma banda’ e aí lá fui eu em busca de outras coisas pra preencher o meu set que era basicamente Strokes, Franz Ferdinand e Nirvana, rs. Daí pra frente as coisas foram fluindo muito naturalmente, eu tocava muito no On The Rocks, que na época era no D-edge, no Outs e no Vegas. com o tempo passei a ir tocar sozinha (que, por sinal, foi uma transição bem forte na minha vida, mais do que ter virado maior de idade). Comecei a abrir o leque e tocar hip hop e então, só depois que conheci o Yves, meu namorado, foi que passei a buscar a música eletrônica, embora tenha sido o que preencheu meus domingos de infância. Mas ainda assim o rock permaneceu meu forte. em dezembro completo doze (!) anos de carreira. Hoje em dia ainda toco em boate mas muito menos. A cena do rock deu uma decaída muito forte, tanto em público quanto em festas. A festa da minha mãe segue de quinta-feira no Olga 17 e lá é onde eu mais gosto de tocar (inclusive toco amanhã, 9/8, pra comemorar meu aniversário :)), porque lá eu sinto que as pessoas sabem o que estão ouvindo e vão pela música, não pra ser descolado – que é meio o que a cena do rock virou. Mas tenho tocado mais em eventos, o que eu amo, porque os sets costumam ser longos e eu tenho bastante oportunidade de experimentar músicas e estilos diferentes e treinar a parte técnica de mixagem.”

Casa de Criadores – E sua versão ilustradora?
Victoria Flaksbaum – “Eu sempre desenhei, desde muito pequena. O desenho, pra mim, é quase um órgão, é algo que não me imagino sem. Minha cabeça pensa muito, num grau de eu acordar durante a noite já pensando em mil coisas. Desenhar é minha fuga, é o momento que eu consigo me desligar do mundo e me comunicar comigo mesma. É a minha meditação (tanto que a música é uma parte essencial no meu processo criativo. cada desenho eu faço ouvindo uma música no repeat, como um mantra). Desenhar é a forma que consigo expressar pro mundo exterior a avalanche de sentimentos que passam por mim todos os dias. Tenho uma ligação muito forte com animais e desenhando me sinto mais próxima deles. Tenho buscado testar técnicas diferentes, mas minha favorita é o pontilhismo com a caneta mais fina possível. Sinto que o pontilhismo tem um ciclo de natureza. Como o desenho é construído ponto por ponto, ele demora muito pra tomar forma, é como regar uma plantinha e acompanhar ela crescer até virar árvore. Me ajuda, também, a trabalhar ansiedade e acalmar nos momentos de tristeza ou nervoso. Agora é o momento que resolvi fazer da arte a minha profissão. Hoje trabalho, principalmente, com assistência de direção de arte, o que me fez abrir a mente para as possibilidades de comunicação, então comecei a fazer artes em louças e, mais recentemente, estudar animação com ajuda de amigos e tutoriais. Gosto muito de fazer as louças sob encomenda porque, antes de idealizar a arte em si, converso com a pessoa pra entender um pouco dela e, assim, colocar elementos que contem uma história e tenham um propósito, além de só um desenho legal. E a animação me chamou pra desenvolver a linguagem dos meus desenhos, na minha cabeça eles sempre se movimentaram, mas agora as outras pessoas vão poder ver também :)”

Cinzeiro Polvo de Vic, pontinhos e mais pontinhos

Casa de Criadores – E agora, 5 músicas que você descobriu nos baús da família…

Frankie Knuckles – The Whistle Song

“Essa é muito especial, é a que eu chamava de música da princesa. Eu amava muito ela. Tenho uma memória da minha mãe dançando ela, balançando o cabelo enorme dela assobiando junto com a música. Por anos não consegui descobrir qual era, mas hoje falei no grupo das Polainas pra lembrar de músicas e a Flavia me apareceu com ela, que tinha numa fita da Paula. até chorei <3”

Racionais MC’s – Diário de um Detento

“O barulhinho da Diário de um Detento é muito muito presente na minha infância, um dos flashes que tenho sou eu deitada no colo de alguém no banco de trás de um carro, não lembro quem eram as pessoas, mas lembro do sentimento do momento.”

Aphex Twin – Richard D. James (disco)

“Esse disco era meu com a Marina Dias, ela pedia pro Alfred tocar e dançávamos juntas, abraçadas.”

Mekon feat. Marc Almond – Please Stay (Röyksopp rmx)

“Essa era a de dançar abraçada com a minha mãe.”

House Of Pain – Jump Around

“Jump Around foi a trilha sonora de um ano novo que passamos em Paraty, essa é uma das festas que tenho mais lembrança. Eu tava junto com o meu bichinho de pelúcia dos Bananas de Pijamas vestida de Pequena Sereia, uma fantasia que não tirei por alguns meses.”

Bônus:

DJ Rolando – Jaguar

“Essa eu não tenho nenhuma memória específica, mas sei que era frequente nos chill outs.”

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