Clarisse, Hilda, Ginsberg e mais poetas na seleção de Ademir Corrêa, escritor e redator-chefe da GQ

“Mais poesia”, pensamos nós aqui. “Mas quem pra indicar”, é sempre a segunda pergunta. Bom, sem pedras no meio do caminho, pensamos logo em Ademir Corrêa. Ele é redator-chefe da GQ Brasil, tem dois livros publicados (“Resoluções, feito em parceria com Lidia Paula Sahagoff, em um projeto em que cada um complementava o capítulo do outro”) e Caderneta Escolar (“livro que lancei junto com a exposição Infatil, da Galeria Mezanino”). Atualmente ele faz doutorado em identidade de gênero no audiovisual.

“Meu mestrado foi sobre o filme Paris is Burning. Um dos projetos mais bacanas que participei nos últimos anos foi o Julieta Capuleto, em que Glamour Garcia viveu Julieta“. Ah, e tem mais: “Bom, já fui da Simples, GNT para Ler, Revista da MTV, Estadão (editei o caderno Casa), Revista Gloss, mdemulher.com.br e Caras.2.”.

Ademir, você que ama poesia, entrega aí uns livros ou autores que a gente precisa conhecer ou reviver. “Amo poesia. Tem momentos em que a narrativa diária fica documental demais, e como bom canceriano apelo para a subjetividade de uma boa leitura-fuga – que nem sempre é fuga, às vezes é apenas ler com outros olhos a mesma vida. As dicas são…”

Uivo, do Allen Ginsberg, é talvez a obra com que mais me identifico. Releio de vez em quando e cada vez que faço isso entendo diferente e (des)entendo o que achava antes. Tenho duas histórias sobre este livro. Quando vim morar em SP, há 18 anos, viajei lendo este livro pela primeira vez sentado ao lado de uma freira lendo a Bíblia (isso é sério). E quando fui a São Francisco, visitei a City Lights, a livraria em que aconteceu alguns dos encontros da Geração Beatnik. Foi um ‘momento’ – principalmente porque o clima todo ainda está la, aquele descontentamento crítico com a existência, mas eles evoluíram e hoje trazem autores contemporâneos interessantíssimos.”

“Gosto da poesia da Hilda Hilst – ela me assusta porque é um escrito cru, forte. Amo a forma como trata as palavras sem pudor. Tem uma predileção pelo ‘Do amor contente e muito descontente’.

Sylvia Plath acho essencial; Clarice Lispector muda tudo – com tanta sutileza – e Cazuza, que é um poeta da música, para mim, é o artista que melhor captou a vida e fez críticas sociais tão urgentes que ressoam até hoje nos ouvidos.”

E, de presente para a Casa de Criadores, Ademir fez (especialmente!) este poema…

Poema de dois minutos
Se tudo o que eu penso virasse prática
O mundo seria pelado
As pessoas seriam livres
Os amores seriam importantes 
As regras seriam maleáveis
Os pudores seriam apalpáveis (ui!)
E o coração não seria um emoji.
Definitivamente!

Sem pedras no caminho: Ademir Corrêa / Foto: acervo pessoal

Compartilhe: