Músico, ator e diretor de Normalopatas, Dan Nakagawa indica suas cias de teatro favoritas!

Ator, músico e diretor de teatro, Dan Nakagawa faz sua própria história sem se entregar aos braços do mainstream. Ele é o nosso convidado pra indicar companhias de teatro e diretores que ajudam a manter a cena viva, mas antes vamos conhecer um pouco mais desse artista inquieto que levou muita gente ao teatro recentemente com o espetáculo Normalopatas, com a Cia Atropical, que, por sinal, acaba de ser extinta. Em prol do novo…

Todas as artes
“A música e o teatro sempre estiveram dançando na minha vida. Criança, eu já tinha banda de música e grupo de teatro. Essa maneira de ver o mundo e criar coletivamente (música e teatro) sempre ressignificaram a minha própria existência… Aquela coisa que a Clarice Lispector fala que a gente vai se transformando no que a gente escreve… É bem por ai… Acabei gravando alguns discos como cantor e compositor, fazendo peças, novelas, longas… Gente, eu fiz um filme da Helena Ignez chamado Ralé! isso eu vou levar pra sempre… Bom, em 2014 criamos uma cia de teatro, com quem montei duas peças que escrevi: Não ia Ser Bonito? e Normalopatas. Como encenador eu consigo misturar tudo: música, teatro, loucura, provocação, coletividade, afeto, incômodo, pensamento… Por isso me sinto mais completo no teatro, mesmo porque acabo escrevendo as peças que enceno, além de compor as canções.”

Partiu pra outra
“Estou começando… Encenei 3 peças, duas com a Cia Atropical, que já estrearam e que tiveram temporadas lindas (que comentei antes) e uma que estou montando para estrear em 2019: O Aniversário de Jean Lucca. Todas as peças têm uma forte influência do teatro do absurdo, da psicanálise, da filosofia, da música brasileira, da nossa vida cotidiana burguesa… que pra mim são tão reais, tão reais que se apresentam absurdas. Como se fossem lentes de aumento de realidades às vezes inusitadas e as vezes ordinárias.  Sobre a Cia, quando montamos o grupo, o desejo e o objetivo era o de fazer teatro. Com o passar do tempo, começamos a sentir que estávamos jogando mais energia em nos mantermos juntos enquanto grupo, do que de fato fazer teatro. Foi ali que conjuntamente decidimos dissolver a Cia Atropical, mas continuando trabalhando juntos eventualmente.”

Teatro X conservadorismo
“Assunto complexo… não me sinto gabaritado pra dar uma opinião clara sobre esse assunto porque existem várias camadas (econômica, política, social etc). Sinto que o Teatro e a própria arte têm por natureza uma energia de provocação, um desejo de transformar e questionar as coisas como elas são apresentadas a nós. Em momentos de conservadorismo, como os que estamos vivendo atualmente, a arte sempre reage, porque ela quer ser livre por natureza. Fazer arte é um ato de liberdade antes de tudo. Apesar de não ter vivido a ditadura militar, sinto que a reação do teatro hoje seja mais tímida e mais diluída. Estamos todos mais caretas, inclusive nós artistas. Talvez o teatro não tenha a mesma força que tinha no passado, talvez estejamos mais contaminados pelas formas de não afetação que o neoliberalismo nos aprisiona. Por um outro lado, temos um país que não valoriza a cultura… Governos que não entendem o caráter transformador social da arte e que nunca investiram, ou investiram muito pouco, no fomento às artes. Fizeram leis de incentivo, ao meu ver, equivocadas, porque além de não fomentarem a cultura, provocam o comprometimento das criações artísticas às marcas que as ‘patrocinam’. Digo ‘patrocínio”‘ entre aspas porque o dinheiro que as empresas usam para ‘patrocinar”‘ a arte vem de abatimentos de impostos, portanto é público. Porém as empresas se colocam cada vez mais como produtores dessas obras. As empresas estão no papel delas, a lei é que é equivocada. Então não sei responder a essa pergunta de fato…”

Dan Nakagawa / Foto: Reprodução Facebook

Para onde olhar?
“Tem muuuuitas Cias e diretores interessantíssimos! É arbitrário eleger algumas… mas vou citar apenas 4 que me inspiraram recentemente:

1. Cia Brasileira de Teatro –  Dirigida pelo Marcio Abreu, tem uma história e uma pesquisa teatral que me interessa bastante. Temas brasileiros contemporâneos e ao mesmo tempo uma busca constante em questionar a própria linguagem do teatro.

Montagem da Cia Brasileira de Teatro / Foto: Reprodução

2. Kenia Dias – Diretora que também mexe com os temas contemporâneos brasileiros e propõe um teatro físico, provocador, com choques da dança.

Kenia Dias e outros atores na Praça da Sé / Foto: Reprodução Facebook

Enrique Diaz – Diretor que fundou a Cia dos Atores, mas que não está mais nela. Desenvolve um teatro inquietante, desconstruído, inteligente, ofegante, direto.

Montagem da Cia dos Atores / Foto: Reprodução Facebook

Teatro Oficina – Dirigida pelo Zé Celso, com quem tive o privilégio de trabalhar como ator e músico em Mistérios Gozosos, é um acontecimento sempre urgente, sempre contemporâneo, nos incomoda e nos inspira sempre!”

Epílogo
“No começo de dezembro vou fazer uma leitura da minha próxima peça, O Aniversário de Jean Lucca, em Estocolmo, no teatro UNGA KLARA, com atores suecos, como decorrência de um edital que ganhei lá neste ano. A ideia é montar a peça lá com atores suecos em 2019 e aqui já estrear com o elenco brasileiro. Estou completamente tomado por esse projeto! Paralelo ao teatro, preparo um álbum com as músicas que tenho composto para essas 3 peças, que deve ser lançado em 2019 ou 2020. E ainda neste ano vou participar de um seriado da HBO como ator… sempre dá um medo hahaha”, termina Dan Nakagawa.

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