O Pará, o mundo e o “artivismo” no liquidificador musical da cantora Aíla, que escolheu SP para criar!

Vamos falar de Aíla, cantora paraense que faz de infinitas referências uma sopa maravilhosa de novos sons. Vamos falar do Pará, de sua força e alegria, de novas e consagradas bandas que ela adora. Vamos falar até das Mercenárias, que Aíla conheceu e amou. Vamos falar também sobre a relação da música atual com o empoderamento, que dá mais poder às composições. Vamos falar… Confira entrevista com Aíla!

Casa de Criadores – Como se tornou cantora? Você sempre gostou de cantar?
Aíla – “Eu nasci na Terra Firme, bairro da periferia de Belém. Em 2008, comecei a cantar na noite pra ganhar uma grana e ajudar minha mãe. Cantei em bares, botecos, eventos, em tudo que é canto (risos). Isso me trouxe uma experiência interessante, apesar das dificuldades. Sempre amei música. O primeiro disco que lancei, ‘Trelêlê’ (2012), reflete muito o início da minha carreira, os tradicionais festivais de canção que eu participei pelo Pará também, o convívio com compositores da Região Norte e todas as influências que me cercavam: carimbó, lambada, brega, guitarrada… Minha intenção era a de misturar a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna, muitos discos seguiram esse caminho na época. Naquele momento, estava rolando o ‘boom tropical’ que o Pará viveu e exportou para o resto do Brasil (e exporta até hoje). Aí conheci pessoas queridas, parceiras pra vida toda, como Dona Onete. Fui a primeira cantora a gravar uma música dela, e tenho o maior orgulho disso. Meu primeiro clipe, lançado em 2013, foi o primeiro clipe dela também. ‘Proposta Indecente’ reverberou demais.”

Aíla / Foto: Julia Rodrigues

“Em 2015 decidi arriscar. Me mudei para São Paulo e a intenção era de criar novas conexões e fazer circular mais o meu trabalho. Aí novas referências chegaram, novos caminhos. Então veio a vontade de compor sobre o agora… o meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena, e fiz o disco ‘Em Cada Verso Um Contra-Ataque’. Sinto que me conectei comigo mesma de vez neste trabalho, refleti meus anseios, minhas inquietudes. E tem o Pará ali ainda, um outro Pará, que faz dançar, mas cutuca, que tem lambada, mas tem punk também. Um Pará que o Brasil precisa conhecer mais. Durante minha carreira, já me conectei e trabalhei com muitos conterrâneos, como Banda Strobo, Gaby Amarantos, Felipe e Manoel Cordeiro, Mestre Solano. Hoje tenho buscado me aproximar cada vez mais de artistas da periferia, onde encontro muitos afinidades e conexões, como o rapper Pelé do Manifesto, que pouca gente conhece e tem tanto pra dizer.”

Casa de Criadores – Fale sobre a mistura de ritmos que você adota em seu repertório.
Aíla – “Não gosto de rotular o som que faço, porque de fato ele vem de muitos lugares, tem gente que acha que é a cara desse novo Pará, tem gente que acha que não tem nada a ver com o Pará, que é mais universal, mais pop. Tem gente que acha que é lambada, tem gente que acha que é rock, e eu adoro isso, esse diálogo vasto, que confunde, que é diverso. Conceitualmente, costumo dizer que o som que eu faço hoje é ARTivista (arte + ativismo), bem ligado na poesia, na letra, na mensagem, mas ao mesmo tempo é super dançante também. Percebo que a melhor estratégia para alcançar mais ouvintes, e debater sobre questões urgentes, é fazer a galera dançar, por exemplo, uma lambada eletrônica e ao mesmo tempo refletir sobre questões de gênero… Ou bater cabeça num punk-surf music e questionar sobre a velocidade frenética da vida. Ficar brisando num reggae, enquanto a poesia escancara os abismos sociais que vivemos. A música pop contemporânea precisa ser inteligente, e estar aliada às questões atuais e necessárias.”

Casa de Criadores – Seus figurinos são lindos, conte um pouco deles…
Aíla – “Percebi que adoro criar pontes entre a música, a imagem e a performance. Nesse segundo disco, fui a fundo nessa busca, nessas interseções artísticas. Montei um time dos sonhos, que me ajudou a traduzir a estética visual que eu buscava. A direção de arte do disco é assinada pela artista visual paraense Roberta Carvalho, que é um expoente brasileiro das artes, que eu muito admiro, e também minha parceira de vida. Sou muito ligada ao visual dos trabalhos. Pra mim, música é imagem também. Neste disco, meu desejo era aliar arte e política, e por isso sempre imaginei o figurino como umas das peças fundamentais desse diálogo. Convidei um expoente da moda do Pará, o Vitor Nunes, que é supercriativo, para ajudar neste conceito também. Ele conseguiu traduzir lindamente o que buscávamos, através de uma máscara com cacos de vidro e lagrimas com pregos, que trás força e vigor para a capa do disco. Além do visual do CD, têm os shows, onde me dedico profundamente a cada figurino, cada cenário, cada ação, cada mensagem. Minha busca é integrar as artes no palco, fazer um espetáculo, e não somente um show de música.”

Aíla / Foto: Julia Rodrigues

Casa de Criadores – Belém é um pólo de novos músicos. Indica alguns jovens cantores pra gente?
Aíla – “Sim, Belém tá fervilhando, e tem muita gente nova chegando por aí. Tem uma banda só de minas que tocam guitarrada, que é a Guitarrada das Manas, das instrumentistas paraenses Renata Beckman e Beá Santos. Acho demais a mulherada ocupando esse espaço que sempre foi repleto de mestres e expoentes homens. Chegou a hora de romper padrões e mostrar que mulher sabe tocar, e muito! Além delas, sempre falo do Pelé do Manifesto, rapper que vem da periferia de Belém, e tem uma força arrepiante, rimas certeiras, adoro ele, vale a pena ouvir.”

Casa de Criadores – Quais são suas novidades pro segundo semestre e também pro ano que vem?
Aíla – “Estamos na pré-produção de mais dois videoclipes que devem sair já já, ainda nesse semestre ;). No semestre que vem, temos planos de fazer uma turnê fora do Brasil… Quem sabe, né? Não custa sonhar (risos). Planos, planos e planos. Já comecei a compor para o disco novo também, ano que vem entro em estúdio.”

Casa de Criadores – Você vai se apresentar no Centro Cultural da Juventude, em SP. Conte o que está preparando para este show!
Aíla – “Esse será um show diferente da turnê do meu segundo álbum, ‘Em Cada Verso Um Contra-Ataque’. Vamos experimentar um formato novo, mais compacto, uma banda menor. Tô feliz com a possibilidade de tocar na Zona Norte de Sampa também, acho fundamental dialogar com novos espaços, e se adaptar pra fazer circular ainda mais o trabalho. Mas vou tocar quase todas as músicas desse disco, vai ter ‘Lesbigay’, vai ter ‘Rápido’, vai ter ‘Será’, vai ter lambada, vai ter dub, vai ter rock ;). E por ser a primeira vez por essa região, quero trazer algumas músicas do primeiro disco também, como ‘Todo Mundo Nasce Artista’, que trás um recado sempre importante e atual.”

Casa de Criadores – Quais são seus ídolos da música? Como eles te ajudaram a criar seu próprio estilo?
Aíla – “Desde sempre, fui estimulada a ouvir todo tipo de música, de todos os cantos. Ainda no Pará, pelos LPs e fitacassetes da minha mãe, Mutantes, Tropicália e Jovem Guarda a todo vapor. Pelas frequências das rádios, chegavam os sons quentes da América Central que se misturavam às referências locais: cumbia, calypso, lambada. Pelos carros-som e festas de aparelhagem, em altíssimo volume, ecoava o brega, o tecnobrega, que é o beat da periferia. Na adolescência, ouvi demais música brasileira e de artistas transgressores também: Elis, Cazuza, Cássia, Marina, Arnaldo. Minha formação musical tem muita relação com esse mix de referências, essa multiplicidade… Nos últimos anos, em busca de inspirações pro novo trabalho, conheci muita coisa nova, imergi na obra de uma banda brasileira de pós-punk da década de 80 chamada As Mercenárias, uma banda só de mulheres, com letras diretas, pop, curtas e políticas, que muito me influenciou a começar a compor. A música ‘Rápido’, desse meu novo disco, flerta bastante com essa influência. No meio de todas essas referências novas, o Pará sempre tá ali, como claramente na música ‘Lesbigay’, que integra esse meu último disco, que é uma composição minha e de Dona Onete, uma lambada eletrônica que fala sobre questões de gênero, sobre ser quem você é, e amar quem você quiser. Para além da música, me instiga toda arte que faz refletir, que incomoda, que transforma.”

AÍLA no Centro Cultural da Juventude
Quando: 27 de setembro
Horário: 20h30
Classificação Indicativa: 16
Retirar ingresso 1 hora antes do espetáculo
Grátis

O Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso fica na Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641, Vila Nova Cachoeirinha – a 20 minutos do Terminal Barra Funda e ao lado do Terminal Cachoeirinha.

Aíla / Foto: Julia Rodrigues

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