Felipe Julián, do projeto Craca, cria música pulsante (e anti-mainstream!) a partir de sons e projeções

Felipe Julián começou a estudar violão aos 14 anos, “e não parei desde então”, diz o artista, que a gente conheceu em uma apresentação em São Paulo e gostou tanto a ponto de querer compartilhar aqui. “Entrei para a antiga ULM, que era uma escola de musica do Estado, pois era gratuita e não tinha como pagar escola particular naquele momento. Depois segui os estudos na faculdade onde entrei em contato com musica eletroacústica e fui me especializando nessa área de musica e tecnologia. Terminei o curso, trabalhei em estúdios, criei diversos projetos musicais e me tornei professor de produção musical numa universidade de São Paulo. Nesse período pude fazer ainda um mestrado em trilha sonora. Sempre estou estudando algo. Ultimamente tenho dado menos importância à minha formação musical e me preocupado em estudar arte como um todo”, continua ele.

Julián faz trilhas sonoras para teatro, dança, vídeo e performance. “É uma área de criação. Dependendo do projeto, tem espaço para improvisações bem radicais o que acho legal pois isso gera um monte de material pra eu usar em outros projetos. Recentemente desenvolvi a trilha-sonora da peça ‘FALA’, do Coletivo Negro, que foi inclusive indicada como melhor trilha por alguns críticos. É sempre um trabalho muito agradável e que expande um pouco nossos horizontes por conta do contato com novas pessoas e novos temas.”

O projeto Craca nasceu do desejo de mesclar música e imagem ao vivo. “Eu também sou artista visual e essa foi uma forma de mesclar as coisas. Em geral eu trabalho de forma parecida nas duas áreas. Assim como posso partir de um som gravado e alterar ele digitalmente para ficar do jeito que eu quero, parto de uma foto ou de um trecho de um vídeo e processo ele até virar outra coisa. Na somatória de tudo, vira uma espécie de trilha visual para a música. E surge a possibilidade de adicionar narrativas e mesmo temas políticos por meio das imagens. Lamentavelmente isso tem se tornado necessário nos últimos tempos. A forma como a imprensa tem ocultado todo e qualquer discurso antagônico ao seu viés editorial acaba por obrigar os artistas a usarem seu espaço de expressão para denunciar os abusos e as injustiças que vem sendo varridas pra debaixo do tapete. Infelizmente, enquanto escrevo estas linhas para vocês, o ex prefeito da cidade, que largou o cargo para tentar concorrer a outro mais importante, acaba de publicar uma mensagem de repúdio a artistas ameaçando estes dizendo ‘vocês não vão ter vida fácil aqui’ e sugerindo que nossa vida seja uma moleza regada a benesses ao dizer que ‘a mamata acabou’. Isto é, um ato de extrema violência simbólica contra uma categoria que historicamente é conhecida pela baixa remuneração que recebe para realizar projetos que são da mais alta importância para a sanidade mental da população. Sugerir que artistas vivem na mamata é uma mentira que a imprensa vai acobertar e portanto terá de ser denunciada à população pelos veículos dos próprios artistas. No meu caso, música e imagem. Que pena que esse tipo de gente nos enfiou numa guerra. Estávamos começando a surgir como uma grande nação.”

Mas como definir uma arte que mistura elementos eletrônicos, sons do mundo e projeções? “Eu gosto de música do mundo todo. Pouca paciência pro mainstream. Esse som que toca no rádio é muito careta. Gosto de musica árabe, cubana, búlgara e por aí vai. Ultimamente estou muito apaixonado por música latina eletrônica. Tem esse movimento de eletrocumbia que é muito poderoso. Grupos como Bomba Estereo e Systema Solar são uma revolução neste nosso continente. Mas tem muito brasileiro que não faz ideia que isso acontece.”

Sobre processo de criação e improvisação, “isso é complicado de explicar. Mas, resumindo, a ideia pra mim é ter alguns sons prontos que posso processar e editar em tempo real. Depende muito da situação. Às vezes improviso desde o zero. Mas em minhas apresentações como Craca eu já tenho uma estrutura de cada música e vou adicionando partes e elementos nela através desse controlador midi que eu criei. A vantagem é que eu projetei ele para conseguir fazer 2 ou 3 funções diferentes com cada mão. Então, isso me dá a possibilidade de controlar muitas coisas simultaneamente, o que é raro na música eletrônica convencional.”

Por criar sozinho, sendo todos os instrumentos, incluindo a parte visual das apresentações, Julián é meio que um solitário da música? “Olha… até rola uma solidão. Mas eu tenho banda também. Toco esse outro projeto chamado Craca e Dani Nega, no qual somos uma dupla acompanhada por um quarteto de músicos. Cada experiência tem seu barato. Gosto de tocar sozinho pois isso me dá muita liberdade, mas tocar com a banda, por outro lado, é sempre muito divertido e poderoso.”

Siga Craca no Facebook e no Instagram. Confira mais vídeos aqui.

Compartilhe: