À frente do Angola Fashion Week, Carlos Carrasco fala sobre as particularidades da moda angolana

Em 2015 Carlos Carrasco foi convidado pelo amigo Reginaldo Fonseca para participar do Angola Fashion Week. “Foi tão maravilhoso: éramos uma equipe brasileira tocando um evento na África. O style era da Carla Giroto e tínhamos o Jackson Araujo como jornalista responsável. Deu tão certo que estou na terceira edição”, conta o maquiador, que começou no underground, migrou para os grandes eventos de moda e chegou a se lançar sem medo em um reality show famoso da televisão. Mas sem nunca perder seu amor pela moda autoral. Ele também foi convidado para fazer alguns importantes casamentas no país e no ano que vem embarca para mais um Angola Fashion Week.

Nossa primeira curiosidade em relação a Angola é o costume daquele povo africano. “Vi muita coisa diferente por lá. A cultura, apesar de ser muito próxima à nossa, é completamente diferente. Por exemplo: ninguém se beija em público, mas tudo bem dançar o kuduro se esfregando um no outro. Certa vez eu perguntei o motivo e a resposta foi: ‘o beijo é muito intimo’… Achei curioso rsrsrsrs.”

Marca Rose Palhares, de Angola / Foto: Reprodução Instagram

A segunda coisa é a moda e o estilo angolanos. “Meu trabalho com moda por lá foi muito intenso. No primeiro ano senti muita dificuldade, depois fui tirando de letra. Nesta última edição o tema era Rainha Nginga, então estudei a vida desta mulher guerreira e muito inteligente para a época, no caso 1600. Ela foi um ícone de guerrilha e negociações com os portugueses e resolvi então criar as belezas dos desfiles com um olhar mais profundo na beleza africana. Levei para as passarelas o que melhor representa a África: tranças, black powers, cabelos inspirados em tribos africanas e mulheres fortes e guerreiras. Na maquiagem levei a leveza da moda mundial, com tons coloridos e peles glow.”

Marca Soraia da Piedade / Foto: Reprodução Instagram

Quais as particularidade das modelos, estilistas e outros profissionais daquele país? “As modelos são lindas, têm corpos mais modelados, mas no quesito disciplina precisam aprender um pouco mais. Os estilistas têm uma identidade africana muito forte, o que facilitou minha vida, com peças muito bem acabadas, muita alfaiataria e tecidos com estampas africanas muito coloridas. Os stylists produzem um verdadeiro milagre em Angola, que é um país que não tem indústria. Tudo é importado e não existe a variedade que temos aqui. Eles produzem muitos acessórios com material nativo, o que dá personalidade à produção. Um trabalho árduo, mas gratificante no final. Acho que o que faz a moda lá ser interessante é a identidade africana aplicada em cada roupa. Apesar de se inspirarem muito no Ocidente, o registro que fica claro é ‘somos africanos’ e isso é lindo de se ver. Uma particularidade são os volumes das saias, fartas, cheias de tecidos e as amarrações de turbantes muito diferentes do que eu já tinha visto na vida.”

Marca Dauvia, de Angola / Foto: Reprodução Instagram

Vai, Brasil, aprenda com Angola… “Precisamos aprender com eles a vontade infinita de que tudo saia perfeito. São felizes por estar executando tão importante evento. Eles são um povo, apesar de tudo, muito feliz: dançam e cantam o dia todo, fazem tudo com prazer. A criatividade é muito forte lá porque não existe indústria têxtil e tudo sai muito mais caro do que o normal. A criatividade entra aí, na dificuldade. Gostaria muito que o Brasil conhecesse o trabalho de Rose Palhares, Soraia da Piedade, Thamara Serpa e Dauvia. São estilistas com identidade africana muito linda de se ver.”

Carlos Carrasco e profissionais de Angola / Foto: Reprodução Instagram

 

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