A moda em 2019 é imigrante, colorida e artesanal… Entrevista com Lucius Vilar, da Assintecal

Lucius Vilar começou na Assintecal em 2007 e sempre fez parte do núcleo de pesquisa. “O nosso grupo é bem diverso e interessante, nos encontramos uma vez por semestre na sede em Novo Hamburgo e ali temos a chance de compartilhar a visão de cada um com diferentes caminhos de um contexto mundial. Nestes encontros trocamos referências que vão nos guiar para escolhas de temas, inspirações, cores, texturas, formas e acabamentos. O meu papel no grupo é de alimentar o que eu acredito ser interessante, mas tenho que estar sempre atento na importância deste conteúdo e procurar sempre me renovar”, diz o profissional, que nesta entrevista nos ajuda a entender o mundo das pesquisas de moda.

Segue lendo, criador…

Transformações na indústria têxtil
“No Inspiramais eu coordeno o projeto +ESTAMPA, ele já tem 5 anos e foi um convite da superintendente da Assintecal, a Ilse Guimarães. O projeto funciona em parceria com a ABIT, a APEX e o CICB. Na última edição que aconteceu em julho, tivemos a participação de 7 estúdios brasileiros: Dash Studio, Estúdio Capim, Estúdio I-Certain, Katiflores prints, Nomad Studio, Oficina Lamparina e Studio Aurum. Estamos em nossa 10ª edição e o projeto foi criado para atender uma grande demanda do mercado, temos que lembrar que o cenário da indústria têxtil mundial está passando por transformações e exige que os designers se expandam e inovem nos processos e produtos. O design de superfície têxtil é uma área que permite ao profissional oferecer novos materiais, texturas e sensações que irão provocar novas percepções do público. E este cenário exige um profissional ágil, com um olhar inovador e uma capacidade de estruturar estes processos de pensar e fazer.”

Walter Rodrigues e Lucius Vilar / Foto: Divulgação

O processo de pesquisar tendências
“Não tem um lugar específico, eu costumo ficar conectado com tudo que acontece. Viajo muito e sempre estou contato com diferentes culturas. Procuro ler muito, começo o dia com jornais e chego a ler entre um a dois livros por semana. Temos que estar atento à internet. Acredito que todas as pessoas que trabalham com pesquisa de moda possuem um radar para identificar o que está acontecendo no mundo. Temos que nos manter conectados e entender todos estes sinais mundiais para traduzir toda esta informação em inspirações, cores, produtos, componentes, formas e principalmente em comportamento.”

“A nossa pesquisa é enorme, temos um grupo muito interessante que fornece diversas inspirações e palavras-chave. Nestas mesmas reuniões selecionamos o que pode ser mais apropriado para a temporada e fazemos a seleção da cartela de cores. O Walter Rodrigues é o coordenador do grupo, está ali para nos guiar. Mas nos dá uma enorme liberdade com relação ao material que levamos. E no final todo este material serve para um lindo trabalho de consultoria e capacitação com os associados da Assintecal. É um trabalho enorme que junta toda a equipe de pesquisa, os consultores e os funcionários da Assintecal para criarmos todo o conteúdo, materiais e projetos que ficam expostos dentro do Inspiramais.”

Verão 2019 é imigrante
“Para o Verão 2019 levantamos a questão da intolerância na atualidade devido as politicas externas. É só vermos o que aconteceu nos EUA e os discursos do Trump em relação aos imigrantes. Em agosto fui para Barcelona, bem no meio do caos dos inícios das férias do verão europeu. Notei vários cartazes pela cidade pedindo para que os turistas voltassem para sua casa ou cartazes que falavam mal de imigrantes ou da imigração. E nesta edição do salão sugerimos que esta negação da possibilidade da entrada ou da oportunidade de uma nova vida destes imigrantes ou refugiados cria um desejo ou uma vontade enorme pela cultura e folclore destes países. Então apostamos em toda a questão gráfica relacionada aos costumes destas pessoas e de seus países.”

Como ser um pesquisador de moda?
“Não há um campo muito grande, mas acredito que no futuro vamos precisar de mais pessoas conectadas com inspirações e tendências para nos ajudar no dia a dia das empresas e até entender captar estes sinais e apurar estas informações. Quem tiver interesse de aprender e se tornar um pesquisador deveria buscar as melhores escolas de moda, mas também se educar buscando outras fontes de informações do que está acontecendo ao seu redor, como palestras, exposições, festivais, museus, restaurantes, escolas, espetáculos etc. Qualquer coisa que estimule nosso olhar deveria ser captada e necessitamos estar abertos para receber estas informações e nos tornarmos um instrumento de previsão de tendências.”

A pirâmide
“O conexão Inspiramais produz diversos conteúdos que serão absorvidos pelas empresas de componentes e com isso eles vão produzir novos materiais que serão exposto no Inspiramais. A pirâmide representa 100% do mercado de moda, que será dividido em 3 estágios para atender diferentes momentos e necessidade de uma marca. Fazemos estas divisões em 10%, 30% e 60%. No caso do 10%: o autoral ou experimentação. O 30% representa as apostas ou processamento das inovações. E no final o 60%: a massificação. No final a estratégia da pirâmide leva os associados a fortalecer os processos de fabricação em suas empresas e estabelecem uma história na criação deste produto.”

Para onde olhar?
“Para 2019, dentro do Inspiramais, buscamos na palavra ALQUIMIA o caminho da interação da natureza com o artesanal e a tecnologia. Com a evolução tecnológica, a sua industrialização e massificação do mercado temos que fortalecer a nossa identidade e ressignificar o nosso processo de criação. Acreditamos em uma temporada com novas experimentações em dar valor à mão de obra artesanal e sempre estabelecer novas metas. E eu vou sempre acreditar que devemos ser sempre inspiradores!”

Mais sobre Lucius Vilar
“Há 3 anos estou no IED, comecei por indicação da Helena Pimenta para um curso de pequena duração em cima de construção de maquetes têxteis. E depois a Márcia Merlo me trouxe para trabalhar com as turmas de graduação. Sou professor de matérias que estão relacionadas ao processo de criação: Narrativas da Moda, Projeto em Moda, Design Têxtil e Projeto de Coleções. Estamos com a coordenação da professora Kátia Lamarca e o estilista Dudu Bertholini e procuramos propor diversas atividades incentivando a criatividade. Acredito que temos uma grande obrigação com estes alunos e com o mercado. Sempre optei por fortalecer a base dos meus estudantes, levo diversas inspirações desde estilistas e marcas, mas também sempre procuro alimentar eles com a novidade mostrando trabalhos da nova geração. E procuro instiga-los a buscar novos materiais, aprender diferentes técnicas e exercitar a modelagem buscando diferentes construções com um exercício de formas. Necessitamos repensar a maneira de ver a moda no Brasil, e como fortalecer o design no meio dos estudantes e da academia.”

Lucius Vilar, de olho no futuro da moda / Foto: Divulgação

 

Compartilhe: