Issa Paz e Sara Donato, do Rap Plus Size, combatem o machismo e a gordofobia com sua Música Popular da Periferia

Com letras poderosas e empoderadas, e com o rap como sonoridade, as cantoras Issa Paz e Sara Donato comandam o Rap Plus Size, que começou com um disco em formato de collab entre mulheres da periferia e se transformou em um projeto fixo que vem ganhando atenção e público pela capacidade de tratar de assuntos tão relevantes como gordofobia, feminismo, machismo e a arte de resistir. A dupla trocou uma ideia da hora com a gente!

Casa de Criadores – Como surgiu o projeto Rap Plus Size?
Issa Paz – “Surgiu a ideia de fazer um álbum colaborativo com a Sara, porque somos muito amigas e sempre que ela vinha para São Paulo ficava na minha casa e a gente trocava muita ideia sobre feminismo, rap, machismo, gordofobia e refletimos isso nos nossos trampos solos. Então decidimos que o nome do disco seria Rap Plus Size, pra gente abordar todas essas questões e ter a nossa cara.”

Casa de Criadores – Qual a relação de cada uma de vocês com a música?
Sara Donato – “A música sempre esteve muito presente na minha vida, meus tios costumavam se reunir pra ouvir vinil e meus primos mais velhos ouviam rap escondido do meu tio e foi ai que parei pra dar uma atenção pro rap. Depois disso só me aproximei mais e mais da música popular periférica brasileira.”

Issa Paz – “Meu pai é musico, baterista e tal, então cresci rodeada de música e sempre quis tocar violão, cantar. Descobri o RAP através da poesia, pois desde muito nova já escrevia, gostava muito de escrever. Então comecei a pesquisar musica desde que conheci o RAP e decidi virar MC. Em 2014 criei um projeto chamado Um disco por Dia, era uma página no Facebook em que todo dia eu ouvia um disco que me sugeriam ou que eu quisesse ouvir. Esse foi um processo de estudo pra criar meu primeiro album solo, A Arte da Refutação, e depois ouvindo um disco pelo projeto chamado Blackout, com o Method Man e o Redman, tive a ideia de fazer um disco colaborativo com a Sara e assim nasceu o Rap Plus Size.”

Casa de Criadores – Quem mais está com vocês neste projeto?
Sara Donato – “Estamos sempre cercados de pessoas incríveis que acreditam no nosso sonho e acompanham ele se tornando realidade a cada dia. Nossas amigas que participaram do primeiro CD principalmente, máximo respeito.”

Casa de Criadores – Suas letras são fortes e tratam de preconceito, autoestima e feminismo. Fale sobre elas, quem as inventa etc…
Sara Donarto – “Acreditamos que as palavras têm poder e colocamos muito da nossa essência em cada som, e o processo de criação se dá de diversas formas, na qual cada uma escreve sua parte ou nos juntamos pra compor.”

Casa de Cridaores – A gordofobia é menos aceita na sociedade que até mesmo a homofobia…
Issa Paz – “A gordofobia é incentivada diariamente, a todo momento. São estímulos da mídia, das pessoas ao nosso redor. É estrutural e é muito mais aceita porque usam um discurso de saúde e bem-estar por cima da aversão total aos corpos gordos. Gordofobia é também uma forma de controle, de poder que outros têm sobre o corpo das pessoas gordas. Não acho que deve ser comparado com a homofobia ou outras opressões. Afinal, todas essas opressões, seja de sexualidade, raça e gênero, são estruturais e trazem o mesmo domínio do sistema sobre nossos corpos. São os recortes e a interseccionalidade que definem padrões opressivos de comportamento e como isso pode ser intenso para uns ou mais leve para outros. O problema é estrutural e é preciso combater a estrutura da base do capital. Acreditamos que desconstruindo e destruindo valores que formam pensamentos opressores e privilégios estamos dando grandes passos. Principalmente para as pessoas que são vítimas dessas opressões. Um corpo livre é uma rachadura na muralha do sistema. Mil corpos livres, já é uma grande fissura. Dez mil corpos livres, estamos falando de uma brecha significativa. E assim vamos abalando as estruturas do capital.”

Issa Paz e Sara Donato, do Rap Plus Size / Fotos: Reprodução Facebook

Casa de Criadores – Fale sobre seus próximos shows, projetos etc…
Issa Paz – “Estamos viajando o Brasil para shows, rodas de conversa, oficinas de rima e intervenções, desde participação em batalhas até mesmo em slams. É uma jornada para nosso novo disco, que deve sair em 2019. Esse trampo virá com um conceito único e nossa escrita está amadurecendo nesse processo, junto com os objetivos estratégicos da propagação desse CD e da sua mensagem principal. É um projeto muito grande, abrange várias atividades para além da música e estamos pensando em todos os detalhes. Sem dúvidas, podem esperar por algo nunca visto antes, feito pelo Rap Plus Size.”

Casa de Cridaores – Como como pensado o disco Rap Plus Size?
Issa Paz – “Nosso primeiro disco era pra ser apenas um projeto paralelo das nossas carreiras solo. Uma collab. Porém foi ganhando vida através da Oq?! Produções e com a DMNA (nossa antiga produtora com foco no trabalho das mulheres no RAP). Fomos produzindo tudo de maneira independente. É um disco clássico, estamos desde 2016 trabalhando nele, fazendo shows das suas músicas. Acredito que esse disco tomou essa proporção pela verdade que colocamos nele e pelo fato de terem muitas mulheres envolvidas no seu processo, desde a capa, a arte que foi feita pela grafiteira Ziza até as participações com nomes como Tássia Reis, Souto Mc, Gabi Nyarai, Luana Hansen e Preta Rara. Até os scratchs foram feitos pela Dj Miria Alves. Priorizamos mulheres no nosso trabalho e isso tem levado nosso trampo adiante. Agora estamos trabalhando diretamente com o Vibox, nosso produtor, e o trampo está cada vez mais com nossa cara.”

Casa de Criadores – Através de seus estilistas, a Casa de Criadores vem mostrado na passarela mais mulheres plus size, negras, trans. Falem sobre a importância de dar espaço para as minorias na moda, lugar que forma opinião.
Issa Paz – “É importante porque no mundo real as pessoas são diferentes, a diversidade existe. E não dá mais para só as pessoas brancas e magras se sentirem representadas. Todos precisam de representatividade. É uma forma de validar nossa existência e nos vermos em outras perspectivas para além do que a mídia e a sociedade já impõem para nós.”

 

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