Tudo sobre a Marcha dos Imigrantes e Refugiados, que pintou a Paulista de amor no domingo

No domingo do último dia 2, a Avenida Paulista foi tomada por imigrantes de várias regiões do mundo, além de muitos paulistanos que são a favor de receber com amor e respeito os refugiados e imigrantes que buscam no Brasil um lugar para viver a trabalhar. O que rolou por lá foi a Marcha dos Imigrantes e Refugiados. “​Em 2000, a ONU proclamou o dia 18 de dezembro o Dia Internacional do Migrante. Desde então várias ongs pelo mundo têm marchado no mês de dezembro pela visibilidade e dignidade de imigrantes e refugiados. No ano de 2007 realizou-se a primeira Marcha do Imigrante em São Paulo, na Praça da Sé. Ao longo dos anos, a Marcha cresceu e foi para a Avenida Paulista, uma vitória em termos de ocupação e visibilidade, o que representou o crescimento do evento que recebe anualmente 4 mil pessoas”, diz Cleiton de Sousa, produtor cultural, membro do comitê de cultura da 12ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados, e que também é voluntário na ONG Bibli-Aspa Centro de Cultura e Pesquisa.

A gente logo imagina que exista uma teia de relações para encontrar e se manter ativo com essas comunidades. Como funciona isso? “​A organização da marcha é capitaneada pelo CAMI (Centro de Apoio a Pastoral do Migrante). Ela convida inúmeras outras instituições que atendem imigrantes e refugiados no Brasil para planejar a manifestação, sempre dando também o protagonismo aos imigrantes. Além dessas instituições, os próprios imigrantes e refugiados se organizam em suas comunidades originárias e são convidados a participar do planejamento do marcha. O importante é que o protagonismo das ações e visibilidade sejam desses grupos”, continua Cleiton.

Qual a importância de se ter uma marca para os imigrantes no Brasil? “​Com a polarização política cada vez mais acirrada e discursos de ódio vindo de várias esferas do poder público, a marcha se faz fundamental. Quando a classe política incita esses discursos, ela abre caminho a atos de xenofobia da população, como aconteceu em Pacaraima. Ir à Paulista é exigir respeito e dignidade humana, e também um meio dos imigrantes e refugiados mostrarem sua cultura, valor e contribuição ao Brasil. Outro fator de importância é que São Paulo é a única cidade no País que realiza uma marcha com esse objetivo – o que ainda é pouco, mas paradoxalmente é muito”, explica o produtor.

Nesta conversa a gente ainda descobriu que o Brasil tem hoje 1 milhão de imigrantes. ​”Segundo relatório do CONARE, só em 2017 o acumulado de refugiados reconhecidos no Brasil foi de 10.145 pessoas. Segundo dados da Polícia Federal, apontados no mesmo documento, existe ainda mais de 86.007 solicitações de reconhecimento em trâmite”, segue Cleiton.

Além da marcha, há vários projetos que englobam essas comunidades? “​Muitas ongs fazem a acolhida e orientação de pessoas que chegam ao Brasil, como Sefras e o CAMI, outras como a Bibli-Aspa oferece cursos de língua portuguesa e integração. Tudo a fim de quebrar a barreira de comunicação. Além disso há atendimento jurídico e social. Outro projeto de sucesso e visibilidade para a comunidade é a Copa dos Refugiados, projeto criado e organizado pela ong África do Coração.”

Marcha dos Imigrantes 2018 / Foto: Fernando Fileno / Bibli-Aspa

Outra dúvida esclarecida por Cleiton é sobre os principais motivos que encorajam os imigrantes a virem ao Brasil. “​Entre os que imigram a possibilidade de melhora socioeconômica é o fator chave. Para os refugiados virem ao Brasil não é uma escolha, mas uma opção e nem sempre a primeira e a melhor para cada um”, conta. E o que o governo precisa entender sobre essas imigrações e como pode ajudar essa população? “​No Brasil, o imigrante é ativo economicamente: a maioria trabalha, paga impostos e ajuda a aquecer a economia, consequentemente. O imigrante no Brasil cumpre o seu dever, mas nem sempre o Estado cumpre o dele. Não é dado a eles direitos que os protejam e os integre à sociedade.”

Indica pra gente projetos sociais que estão ajudando essa população, Cleiton? “Sim, o CIC do Imigrante tem um trabalho bem legal que capacita e encaminha essa população ao mercado de trabalho. A Bibli-Aspa também tem um programa muito interessante que torna o aluno imigrante – quando esse já tem segurança com a língua portuguesa – professor do seu idioma nativo para brasileiros, gerando assim uma renda financeira advinda das inscrições de brasileiros que desejam aprender outro idioma.”

E para completar: como cada cidadão brasileiro pode ajudar os imigrantes? “​O cidadão brasileiro deve refletir e buscar entender o atual processo migratório. Nenhum ser humano está livre do risco da vulnerabilidade. A Constituição Federal garante tratamento igual a brasileiros e estrangeiros, mas diferente do que reza essa prática, a realidade é outra e muitos serviços básicos são dificultados ou negados a estrangeiros. Diálogo, empatia e informação são os caminhos mais indicados para a integração de brasileiros e imigrantes “, termina.

Cleiton de Sousa / Foto: Divulgação

Saiba mais aqui.

Compartilhe: