Do que se alimenta a performance? Um papo com a artista e sereia do futuro Andreza Aguida

A performance existe para questionar, confundir, criar histórias que têm ou não fim, tratar sobre questões do corpo, dos mundos interno e externo. Nasceu em museus e galerias e migrou para todos os âmbitos onde a arte pode alcançar. Até um flash mob ou um simples rolezinho nas periferias podem ser vistos como um ato performático, mão. Ou não?

Bom já viu que o tema hoje é performance, né? E nossa personagem é Andreza Aguida, que estudou engenharia elétrica e se formou em 2003. Ela trabalhou 10 anos na área e em 2008 resolveu agregar outros conhecimentos. Quais?

“Comecei a estudar educação física na USP e em 2008 e a ter esse contato com a corporeidade, passando por experiências envolvendo o movimento, percebendo inclusive as faltas do meu corpo, como equilíbrio por exemplo. Nessa época, já tinha amizade com um rapaz que é da dança-teatro e bailarino, o Rodrigo Caffer. Ele sempre me convidava pra fazer algum workshop relacionado a corpo e movimento, tendo em vista meu interesse crescente nisso. Como ele trabalhava com criações em dança-teatro e acompanhando a experiência que eu vinha vivendo, me incentivou a pensar algo artístico em 2013, quando surgiu um edital do CCSP para novos coreógrafos, para artistas com zero a cinco anos de experiência. Então ele disse: ‘você tem zero anos de experiência, então pode participar!’. Nisso, com o apoio do Rodrigo, escrevi o projeto ‘… percebendo…’, dialogando com a arquitetura através dos sentidos do corpo, sem privilegiar a visão, que foi contemplado, era minha primeira criação. A partir daí não parei mais”.

Andreza Aguida por Fabio Stachi

Desde 2003 Andreza participa de editoriais de moda para fotógrafos e estudantes de moda, videoclipes e fashion films. “Quando vi que poderia fazer coisas na arte, resolvi eu mesma pensar proposições artísticas porque até então nas fotos e fashion films eu reproduzia a proposição do outro. Então comecei, inclusive, a usar a moda e fotografia como elementos de criação”, continua.

Então, a já artista começou a fazer videoarte e escrever outras criações. “Em 2013 nascia ‘Sunshine’, com direção do Rodrigo. Mas sempre tive um relacionamento com a música cantando em coral por muitos anos, lugar onde conheci esse amigo, inclusive, então eu também escrevo projetos relacionados à música ou com um elemento de música presente”, lembra.

“De 2013 pra cá não foi um caminho simples: eu precisava e ainda preciso ir ganhando bagagem artística pra poder ter espaço com o que crio, mas em 2018 tive a oportunidade de realizar três criações distintas: ‘Brincando com a Tempestade’ (performance em artes visuais); ‘… percebendo…’ (performance em dança) e ‘Sereia do Futuro’ (música performativa – criação em música). O Rodrigo está sempre que possível dirigindo e agregando através da sua experiência, contribuindo pra que a minha experiência também cresça. Através da arte eu dialogo com a minha imagem, com a deficiência visual. Como diz esse amigo, eu aceitei o branco na minha arte e uso essa imagem incomum que tenho a meu favor.”

De 2016 até ano passado, ela cantava em um projeto chamado “Música nos Hospitais”, no qual atuava com um grupo de cantores e instrumentistas e levava música para diversos hospitais, AMAs e UBSs. “A partir daí, também fizemos um grupo autônomo chamado ‘Melúdicos’ com o intuito de continuar esse trabalho na humanização em hospitais e locais de atendimento à saúde”, explica. “Com relação à passarela, tenho poucas vivências, algumas em faculdades de moda e outras desfilando para o Ronaldo Fraga em 2017 no SPFW, para o Weider Silvério na Casa de Criadores no mesmo ano e ano passado desfilei no Brasil Senai Fashion para alunos orientados por Ronaldo Fraga”.

Andreza Aguida por Cinthia Bueno

Vale perguntar à sereia o que a performance significa para ela… “Ela agrega, não somente as artes plásticas como as visuais. Acredito que através da performance é possível contar uma história, trazer a crítica através do som e movimento, dialogar ausente de violência através do sangue. A performance traz movimento com liberdade às artes, sem o rigor do balé, mas assim como ele, também despertando sentimentos em quem assiste. Vejo resistência aos novos artistas por parte de alguns artistas de mais bagagem. Já fui alvo de indagações preconceituosas e penso que isso foi por conta, de não ter começado desde cedo como artista, mas acredito que há espaço pra todos!! Criação alguma é concorrente!! Somos artistas únicos!!”

E mais: “Penso que quando geramos uma provocação vem junto a possibilidade de alterar o modo de a pessoa pensar… Se ela sai reflexiva é porque algo alterou em si. Na performance ‘Brincando com a tempestade’ me coloco como uma mulher que enfrenta e brinca, quebrando esse paradigma de fragilizar o feminino, a deficiência , o albinismo… Também ampliando a reflexão para que as pessoas no geral permaneçam firmes em meio às tempestades da vida, pois elas em certo momento terminam. Na ‘… percebendo…’ levo a reflexão acerca do que de fato acessamos, até onde exploramos a arquitetura dos espaços pra além do olhar. Isso tanto pra pessoas com ou sem deficiências.”

Quais são os artistas da performance que você mais gosta, Andreza? “Nossa!! Tem gente bacana por demais, inclusive amigos que fazem trabalhos incríveis como o Alexandre D’angeli e o Rodrigo Munhoz. O Rodrigo Caffer também tem performance excelentes. Mas os precursores já traziam indagações interessantíssimas. É muita gente boa mesmo!! O chines Ai Weiwei é impressionante!! O Flávio de Carvalho e Marina Abramovic tiveram papel importantíssimo. Olhar o passado da performance inspira, faz a gente acreditar que é isso mesmo: provocar, indagar, questionar… E tantas coisas mais!”

Devemos pensar também como a performance pode ajudar o Brasil neste momento tipo “muito louco”. “Eu não sei se ela pode abrir a mente pois em muitos casos é muito abstrata, podendo levar a reflexões e indagações diversas. Ela não é violenta, então pode e deve ser usada como elemento de diálogo pra, sim, tentar abrir a mente. Mas ainda assim, caminhamos numa tentativa, pois a arte ainda é muito marginalizada.”

Quer se aventurar no mundo das performances, amadx leitor? “A performance é aberta a qualquer pessoa que queira se expressar através da arte. Ter uma vivência nesse universo artístico ajuda no processo criativo, mas é possível trazer elementos de áreas distintas para a performance, seja no artesanato, arquitetura etc.”

É isso, mas antes as novidades de Andreza Aguida para 2019: “Devo continuar a criar e levar adiante as criações existentes. Continuar trazendo criações em música, performance, moda, fotografia, videoarte… por aí vai…”. Abaixo, um pouco da artista.

 

Compartilhe: