Geraldo buscou na última obra de Stanley Kubrick a inspiração para sua coleção de inverno 2010. O estilista idealizou uma mulher sensual e decidida, e para isso elaborou vestidos com tecidos e caimentos nobres. As maiores referências ao filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, eram as capas e máscaras – sem contar a atmosfera sofisticada. Marina Dias abriu o desfile com um curto drapeado em lamé dourado. O preto e o dourado eram os fios condutores da coleção. O ouro veio em looks monocromáticos, que cresceram na passarela. Para enriquecer ainda mais, o estilista apostou em mix de apliques nos bordados. As botas eram thigh highs e vieram com sobreposição de renda. Aliás, a renda deu um ar romântico, quando utilizada como segunda pele nas mangas. As máscaras eram cravejadas de pedrarias, com apliques de guipires e plumas. Uma coleção rica para mulheres poderosas.
No inverno de Tony Jr, o que não falta é sensualidade. O estilista buscou inspiração nas dançarinas burlescas e na estética dos anos 1940. Quem abriu o desfile foi a cantora Madame Mim, que trajava um look metade masculino e metade feminino – literalmente. As meninas entraram com cinturas marcadas, laços, cetins, drapeados, transparências e muita sensualidade, longe do clichê burlesco. Mas enquanto o feminino de Tony era carregado de alusões ao universo do cabaré, o masculino vinha com uma pegada de homem sedutor. Decotes, calças justas e a rosa na lapela indicavam um rapaz galanteador. Tony brincou com as modelagens, principalmente no masculino: bolsos inusitados, maxi capuzes, e blazers desconstruídos. A cartela de cores passeou entre o branco, preto, dourado, cinza, marrons e vermelho-sangue. Destaque para a logomania que apareceu em etiquetas, bordados e apliques.
Inspirado pelo filme O Nome da Rosa, Marcelu fez uma releitura dos trajes dos monges franciscanos e beneditinos, que figuram na película. Ícones religiosos não faltaram, amarras que remetem ao cilício, terços revisitados com grandes espinhos de rosas; e as típicas batas de monges. Porém, passando longe da mesmice, Marcelu conseguiu trazer esse tema ao seu universo casual. Com tricôs, confortáveis calças sarouel e golas aconchegantes. Todos criados em cima de tons terrosos, roxos, cinzas e alguns detalhes em amarelo. Sem contar que Marcelu utilizou técnicas de tingimento em alguns looks e também nos calçados. O índigo esteve presente, mas foi utilizado em casacos amplos, togas e maxi-pelerines. O tecido além de ter garantido caimento, nessas peças, deu o toque de modernidade. O mix de tecidos e brilhos deu aos modelos de Marcelu o ar de um monge contemporâneo, ligado às suas próprias crenças. Destaque para os acessórios resinados, os braceletes de espinhos que remetiam aos guerreiros medievais; e os óculos de lente redonda.
Mário Francisco, estilista da Der Metropol, usou como fio condutor da sua coleção o universo da série Hellraiser. O estilista usou conceitos-chave do filme, como o personagem Pinhead, a caixa quebra-cabeça que abre um portal para outra dimensão; e a ideia de dor e prazer proposta no enredo. Através desses ícones Mário evoluiu e chegou ao seu inverno 2010 – com alusões ao universo sadomasoquista, experimentações têxteis e respiros militares. Na cartela de cores, verde militar, branco, vermelho, preto e cinza. Sempre propondo contrastes entre essas cores, a impressão é que Mário queria mostrar o portal se abrindo. Essa ideia também pôde ser percebida nos recortes geométricos das jaquetas perfecto estilizadas. O destaque da coleção ficou por conta da inovação nos beneficiamentos têxteis. As texturas em silicone e a camada brilhante, utilizada em moletons, davam vontade de tocar nas peças. O trabalho em drapeados impressionou: certas vezes os modelos pareciam vestir uma armadura em tecido. Ao final, o estilista fez uma leitura longe dos clichês para o filme de terror.
Ianire usou como ponto de partida de seu inverno uma única imagem. Nesta imagem uma flor vermelha contrastava com o clima gélido da neve. Com isso em mente, a estilista desenvolveu uma coleção de tons pastéis, delicados como flocos de neve, off whites, beges e cremes. Como alusão à fragilidade da flor, Ianire mergulhou na feminilidade. Alfaiataria de cinturas altas marcadas, transparências; e vestidos com babados e fluidez ajudaram a compor a personagem de Ianire. Os tricôs e flores desenvolvidos em feltro davam a sensação aconchegante. Os acessórios entraram em combinação perfeita. Primeiro os chapéus de feltro assinados por Madame Olly – que deram um ar retrô para a coleção. E os sapatos em trecê deram mais personalidade aos looks. Depois de toda a neve mostrada na passarela, a flor vermelha, dá as caras e surge em peças e detalhes em cetim. O vermelho morango utilizado por Ianire garantia um ar de requinte, e não vulgar. No make, a tendência do nude marcou presença nos batons. Uma coisa é certa, o inverno de Ianire deixou a passarela com gostinho de quero mais.
No penúltimo dia de Casa de Criadores, quem abriu a passarela foi o Projeto LAB. Composto por Karin Feller, Danilo Costa, Rachel Grandinetti, Jadson Raniere e Arnaldo Ventura. Cada estilista apresentou sua visão inverno 2010, e quem começou foi Karin Feller.
A Karin foi vencedora do concurso Ponto Zero na última Casa de Criadores. E para esta edição, o desafio de montar uma segunda coleção não intimidou Karin. Inspirada pela pintura das bonecas russas e pelo universo camponês, a estilista montou uma coleção jovem cheia de frescor. A cartela de cores alegra qualquer inverno, tinha coral, amarelo flúor, rosas, cinza, cáqui e detalhes em dourado. Aliás, o dourado das bijoux desenvolvidas por Karin cresceram na passarela e tornaram-se verdadeiros objetos de desejo. Assim como os chapéus, com apliques de dobraduras de flor. As sobreposições e camadas de tecidos propostos por Karin faziam alusão às bonecas, que se guardam umas dentro das outras.
Foto Marcelo Soubhia/ Ag. Fotosite
Após a apresentação de Karin, quem entrou na passarela foi Danilo Costa. Em sua segunda vez na Casa, Danilo foi para o universo canino buscar elementos para sua coleção. Sem cair na obviedade, Danilo incorporou elementos da competição canina no vestuário que funcionaram muito bem. Como por exemplo, a headband de flâmula. As estampas divertidas de casinhas de cachorro ganharam um ar vintage. A figura do coração, presente em jacquard no tricô e em buttons nos tênis garantia o ar emotivo da coleção. Destaque para a cartela de cores, jovial, composta por preto, azul klein, cinza mescla e branco. As estampas realistas de cachorros, as focinheiras e os próprios cachorros; destacaram-se na passarela.
Foto Marcelo Soubhia/ Ag. Fotosite
Rachel Grandinetti, vencedora do Projeto Box, trouxe à excentricidade e nobreza de Maria Antonieta para a passarela da Casa. A leitura de Rachel para a persona histórica ganhou elementos rocker como os cintos de tachas e mais sensualidade. Porem as silhuetas vieram estilo anos 1950, cintura marcada, saiote amplo e casaquetos. Para compor os modelos Rachel apostou em xadrezes, cetins, tules, guipires, plumas e delicados bordados em pedraria. O visual final ficou rico. O volume e apliques de borboletas e passarinhos, em conjunto com a make expressiva; remeteram diretamente à personagem vivida por Kirsten Dunst no filme de Sofia Coppola. E assim que a primeira modelo entrou na passarela, sabíamos ao que Rachel tinha vindo.
Foto Marcelo Soubhia/ Ag. Fotosite
Foram os ladrões norte-americanos Butch Cassidy e Sundance Kid que deram a levada à coleção de Jadson Raniere. Jadson fez uma releitura do visual western e conseguiu deixá-lo inusitado sem cair nos clichês. Franjas em couro desconstruídas, couro croco, bordados e tecidos empapelados foram artifícios que Jadson usou, para compor sua coleção. A modelagem das calças em alfaiataria arrancou suspiros da plateia, principalmente as maxi-pantalonas. O que começou no tradicional wild west, com cores entre o preto e o marrom; de repente virou-se e foi para outro extremo. Jadson questiona a masculinidade colocada à prova constantemente e propõe uma cartela de cores secundária, com roxos, furta-cor e até um rosa metalizado. Jadson permitiu-se manter um pé no chão e outro no imaginativo em seu inverno 2010.
Foto Marcelo Soubhia/ Ag. Fotosite
O projeto LAB finalizou com a apresentação dramática de Arnaldo Ventura. Com o inverno inspirado nos pássaros, o estilista abriu o desfile com a performance de um bailarino. A seguir, adentraram na passarela os looks de Arnaldo. Com o trabalho dramático de volume e textura dos milhares quadrados de tecido, costurados nos vestidos e casacos, as mulheres do estilista ganharam o aspecto de penas de pássaros. As leggings em lurex com aplicação de penas nas panturrilhas realçavam ainda mais essa proposta. Já as botas amarelas garantiram um contraponto com a cartela sóbria (cinzas, pretos e metálicos), esse contraste já é uma característica do trabalho de Arnaldo – que desfila pela terceira na Casa. Destaque para os acessórios, nos cabelos e para a estamparia, corrida e devore, simplesmente escandalosas.
Ronaldo fez uma viagem no tempo e voltou para 1876. Desta data tirou dois ícones A cortesã e suposta espiã Mata Hari e o perfume, que leva o nome do ano, 1876. Estes foram os dois fios condutores para uma coleção extensa e rica em detalhes. Ronaldo não economizou em referências e as traduziu para os tecidos que utilizou: adamascado, índigo, veludo e até o xadrez vichy – que entrou numa versão plastificada. O estilista também não se intimidou e misturou os materiais entre si, formando looks autênticos e desafiadores; como a própria Mata Hari deve ter sido. Os casacos criados por Ronaldo eram o que mais chamavam atenção. Diversos modelos com estruturas diferentes entre si, cheios de recortes e zíperes tinham sempre uma novidade. As golas deram um show na passarela: eram praticamente arquitetônicas. Mas depois de muita influência da primeira guerra mundial o desfile deu uma virada e vem à alusão ao perfume: estampas de flores em tecidos leves e esvoaçantes. Desta vez, Mata Hari encontra um espírito mais feminino com um pé no camponês. Vestidos com volumes e transparências que nada lembravam a espiã do início da apresentação. Para os modelos masculinos reinaram as cinturas sobrepostas nas calças e as camisas em diversos tecidos.